Foi com grande pesar que o mundo do jazz perdeu, ontem, dia 25, o último representante da era dourada deste género musical. Mesmo antes da comemoração do centenário do nascimento de Miles Davis (que acontece hoje), com quem chegou a tocar, recebemos a triste notícia da partida de Sonny Rollins, saxofonista tenor e lenda do jazz que morreu com 95 anos.
Nascido a 7 de Setembro de 1930, Sonny Rollins é uma das personificações da cultura do jazz. Com mais de 80 anos de carreira, deixou-nos com êxitos como “St. Thomas”, um tema que popularizou o ritmo caribenho calipso no hard bop. Antes dos 20 anos, Rollins já atuava juntamente com o pianista Thelonious Monk, um dos criadores do bebop — um subgénero do jazz, surgido em Nova Iorque na década de 40. Curiosamente, a lenda jazzística começou no piano, tendo passado para o saxofone alto e só depois é que assumiu o saxofone tenor, em 1946 — trocando por miúdos, há 80 anos.
Sendo o saxofone uma extensão da persona de Sonny Rollins, o músico deixou um legado fortíssimo no panorama musical. Começou por gravar com Babs Gonzalez, um poeta e vocalista do bebop, em 1946. Ainda neste ano, grava com J. J. Johnson (conhecido pelo toque de midas no trombone) e Bud Powell (um dos melhores pianistas deste subgénero).
O cadastro prisional — 10 meses por roubo, libertado condicionalmente e preso durante esse período por consumo de heroína — não impediu que Sonny Rollins tivesse o reconhecimento devido na música. Saído de um centro de reabilitação depois do episódio da heroína, começou a ser reconhecido quando gravou com Miles Davis em 1951. Com isto, é convidado para substituir Harold Land, no Quinteto de Clifford Brown e Max Roach. E é no ano seguinte que grava o tão aclamado Saxophone Colossus, um longa-duração que mostrou que Sonny Rollins vinha para ficar.
Neste LP temos Tommy Flanagan no piano, Doug Watkins no contrabaixo e o baterista preferido de Rollins: Max Roach. Além disso, é aqui que nos mostra “St. Thomas”, considerado o maior sucesso do saxofonista. Nesta altura, John Coltrane ainda não era conhecido e Sonny Rollins era o saxofonista com maior notoriedade da época.
Em ’57, cria aquilo que se chama hoje em dia de “strolling”. A técnica serve em utilizar apenas bateria e baixo para acompanhar a melodia do saxofone. Como pioneiro nesta técnica, grava “Way Out West” e “A Night at the Village Vanguard” e utiliza-a até ao final da carreira. Alguns dos temas que compôs são considerados standards jazzísticos — como, por exemplo, “Doxy”, “Oleo” e “Airegin”.
O ano de 1958 foi marcante na carreira do artista, visto que foi quando gravou a extensa peça “The Freedom Suite”, um hino sociopolítico que dá voz à luta pelos direitos civis e o racismo nos Estados Unidos. Algo que, na altura, foi visto como um ataque directo ao status quo vigente no país do Uncle Sam, levando até a editora a rebatizar o LP de Freedom Suite para Shadow Waltz, o título de outra das canções contidas no disco.
O saxofonista realizou duas pausas ao longo da carreira. Uma dá-se logo depois deste episódio, onde fez um retiro de 2 anos. Durante este tempo, praticava 16 horas por dia na ponte Williamsburg, em Nova Iorque. A segunda pausa deu-se quase 10 anos depois, em ’68, quando decidiu estudar num ashram (retiro espiritual) na Índia. Regressaria aos Estados Unidos em 1971.
Ao longo das décadas, Rollins ofereceu-nos música com selo de qualidade, transformou-se e consolidou-se como o pioneiro do bebop, realizou inúmeras colaborações de peso, e foi um dos melhores músicos da era dourada do jazz. Recebeu prémios como o Polar Music Prize, National Medal of Arts e ainda um Grammy. Foi até considerado o “maior improvisador da história” durante anos sem fim. Sonny Rollins foi o último músico da famosa fotografia “A Great Day in Harlem” a morrer. Esta imagem, tirada por Art Kane, é um dos registos mais icónicos da história do jazz, pois reuniu 57 músicos num brownstone de Harlem.
Sonny Rollins faleceu ontem, segunda-feira, com 95 anos. Ao longo da carreira, gravou 60 álbuns e compôs clássicos que ficarão eternamente cravados nos manuais do jazz. Será para sempre lembrado como a ponte entre o bebop e o avant-garde, um grande improvisador e uma das figuras mais icónicas da expressão artística do jazz.