MGDRV: Começar do zero com uma perspectiva diferente

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

Estávamos em 2013, ano em que saíram discos como Nothing Was The Same, Yeezus, Acid Rap, Run The Jewels, Doris, Twelve Reasons To Die, My Name Is My Name, Wolf ou LONG.LIVE.A$AP, quando, num país à beira-mar plantado, se começaram a sentir as primeiras réplicas dos terramotos sónicos que se tornavam cada vez mais frequentes em território norte-americano.

Lançada em Dezembro de 2013, “Mambo Nº1”, faixa de Mike El Nite com participação de ProfJam, marcava uma cisão completa com o panorama vigente na altura, não esquecendo, obviamente, Gancho de Regula, pedrada no charco e o início de uma caminhada gloriosa do rapper que nasceu nos Olivais e foi criado no Catujal.

Muitas vezes esquecidos, os MGDRV deram os seus primeiros passos nesse mesmo ano, lançando a venenosa “Cascavel” em Fevereiro, tema que fez parte do EP de estreia editado em Janeiro de 2014.



“[O grupo] remonta a Macacos do Chinês, a banda do Apache e do Miguel [Pité] na qual eu era convidado. Estava sempre lá como hype man e participei em algumas faixas. Éramos amigos, estávamos sempre juntos”, recordou André Madeira, mais conhecido como YoCliché. “Nós já tínhamos falado em fazer coisas juntos e começámos a criar descomprometidamente, sem grandes projectos”. Pité acrescentou: “Começou mesmo por ser simplesmente diversão e quase um escape para o resto.”

Com uma forte componente visual, uma produção capaz de ombrear com o melhor que se fazia lá fora e dois MCs com uma forte química, o trio rapidamente mostrou que estava na vanguarda nacional do rap mais ligado aos graves e sub-graves, submergidos na cultura digital e dos videojogos.

“A nível musical todos tínhamos uma certa ideia, embora tenhamos, claro, gostos diferentes. O nome MGDRV surgiu muito tempo antes do projecto começar. A nível visual o que realmente é uma mais-valia é o facto do André [Pinheiro] tratar do design e do logo e o Madeira fazer os vídeos. Como fazemos tudo dentro da nossa casa, acaba por ter sempre uma linguagem própria”, desvendou o MC anteriormente conhecido como Skillaz.

E acrescentou: “Eu sentia que existia espaço para crescer. Nós também viemos de uma banda que nunca teve uma caixa para se inserir, por isso já vínhamos com essa bagagem. Quando foi com MGDRV, que é uma cena mais linear, acabámos por sentir logo à partida com os concertos. Não só com o hip hop, mas também o resto: as diferentes sonoridades começaram a abrir as portas e acho que nós apanhámos esse momento inicial. E foi aí que achámos que tinha pernas para andar, porque estávamos a sentir o calor a chamar por nós”.



À época, e sem a “máquina” mediática que actualmente rodeia o hip hop, os MGDRV tiveram o seu espaço em blogues como o Mesa de Mistura, o jornal Metro ou, espante-se, as redes sociais de uma actriz portuguesa. “A Jessica Athayde partilhou a ‘Cascavel'”, contou, entre risos, Apache.

No dia 28 de Fevereiro de 2014, a banda alimentou o bom momento com um concerto no Musicbox, data em que também actuou o autor de Inter-Missão, por exemplo.

“Estavam lá muitos amigos, mas também estava muita malta que não conhecia. Eu, pessoalmente, fiquei contente”, atirou YoCliché, apoiado de imediato por Apache:

“Recordo-me perfeitamente. Havia lá três ou quatro bacanos que me lembro muito bem da cara deles quando entrou a ‘Salta Só’.

E Pité:

“Lembro-me muito bem de ficar feliz por ver o people a curtir sem vergonha.”



Cinco anos depois com um álbum (DRAIVE) e um EP (MORTE FIXE RAP) no currículo, o ambiente é totalmente diferente do que se sentia naquela noite e a necessidade de um “RESET é um reflexo disso mesmo.

O que no início era “diversão” e “escape” passou rapidamente a um lado mais sério e de overthinking que acabou por tirar identidade ao grupo, algo que se nota mais em “Maroto”, single insípido que, ao contrário de “Tu Não Tens” ou “Abana a Cabeça”, os afastava do seu universo. “Depois dessa altura em que deixámos a cabeça ficar um bocadinho enevoada com esse entulho que não ajuda nada um artista, o ‘RESET’ é mesmo para começar do zero e fazer só a música que estamos a sentir na altura”, rematou Pité.

Parte do processo de mudança no rap nacional, os MGDRV revelam-se satisfeitos com o que os rodeia actualmente (“o ambiente está muito mais fixe”), apontando uma “maior aceitação da língua portuguesa”, mais “projectos fora-da-caixa” e uma “cena profissionalizada”.

Quando questionados sobre nomes, Vado Más Ki Ás (“o rap crioulo está muito forte”), Mike El Nite e Conan Osiris são os três artistas que aparecem na conversa. Até aqui, “mistura” é palavra de ordem para o trio.

O futuro do hip hop também passará por aí, segundo Apache: “Estamos numa fase de mudança máxima, por isso a fusão é inevitável. O pessoal está saturado. Já estou cansado de ouvir pessoas a dizer, ‘estou farto de pratinhos’. Eu ainda adoro pratinhos.”



E, afinal de contas, o que é que realmente significa este “RESET”? “É um ciclo completo. Já tínhamos passado a montanha, o vale e agora voltamos ao ponto-de-partida com informação nova. Estamos um bocadinho acima, temos uma perspectiva diferente de como é que as coisas são e acho que estamos numa posição de fazer melhores escolhas. Aliás, fazer melhores erros”, explicou o produtor, coadjuvado por YoCliché, que recorreu à linguagem “adequada”: “Estás a jogar fixe, mas sabes que consegues passar melhor o nível. Fazes o reset porque sabes que consegues fazer melhor.”

Pité arrumou a questão: “Hoje em dia parece que demos a volta ao ciclo e é como chegar a um ponto em que estás outra vez a sentir aquela cena de puto. É esse alento que estou a sentir.”

O formato para o concerto de hoje no Musicbox, em Lisboa, é o mesmo de sempre: Apache na retaguarda e Pité e YoCliché na linha da frente a disparar versos. O alinhamento será uma “fusão máxima” entre o que fizeram para trás e o que estão a preparar daqui para a frente, incluindo “Reset”, o mais recente single, e “Alright”, canção feita com a cantora MAR.

Comandos a postos: está na hora de voltar à acção.