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Fotografia: Kenton Thatcher
Publicado a: 11/05/2026

Oito bilhetes de ida (e volta) numa viagem sonora pelo mundo.

Mão, o projecto de DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves: “A magia foi estes dois mundos colidirem para se criar algo”

Fotografia: Kenton Thatcher
Publicado a: 11/05/2026

O álbum homónimo de Mão já tinha sido lançado em vinil e chegou na passada sexta-feira, 8 de Maio, a todas as plataformas digitais. Mão é a dupla de DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves, velhos conhecidos e parceiros criativos nos LX-90, que aqui exploraram um projecto a meias que dá a volta ao mundo.

Cada uma das oito faixas do disco tem uma referência geográfica, do “Brasil de Janeiro” aos “Siberian Pianos”, das “Yokohama Clouds” a “Electricity Will Kill You England”. É um disco de música electrónica que aborda diferentes ambiências e velocidades, com um cunho orgânico ainda que tenha sido construído à base da maquinaria no estúdio de DJ Vibe — sempre que Paulo Pedro Gonçalves, radicado em Londres, visitava Lisboa.

De forma independente, editaram este disco de estreia com o selo Chic Choc Music, aludindo ao extinto Chic-Choc, um “centro comercial fatela” na Praça dos Restauradores, no centro de Lisboa, onde funcionava a loja de discos do pai de DJ Vibe, que foi um sítio fundamental para o percurso de Tó Pereira. Paulo Pedro Gonçalves — que passou pelos pioneiros punk Faíscas e pelos Corpo Diplomático, precursores da new wave em Portugal, antes de formar os Heróis do Mar — era um dos clientes.

O círculo fica agora completo com este projecto que está agora a ser pensado para o palco e que já promete uma sequela. Em entrevista ao Rimas e Batidas, DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves abrem a Mão e revelam os planos partilhados.



Sei que vocês se reencontraram na reunião dos LX-90 de 2023. Mas perceberam logo que fazia sentido unir esforços e forças para um projecto a meias, naquele momento?

[DJ Vibe] É, isto foi mais um convite que eu fiz ao Paulo, uma ideia que eu tinha de fazer outra sonoridade. O Paulo aceitou, achou boa ideia e fizemos este trabalho que, musicalmente, não corresponde bem àquela que tem sido a minha trajectória como produtor de música. Mas era uma vontade minha, fazer algo fora do meu meio ambiente, de onde eu mais estou. E pedi a mão ao Paulo para abraçar esta ideia. Só assim também se conseguiu fazer este disco. Ou seja, eu não o fazia sozinho, nem o Paulo…

Claro, nunca seria este disco.

[Paulo Pedro Gonçalves] Exactamente. Nós temos um respeito e uma admiração mútua pelo trabalho um do outro. Então, quando o Tó me fez o convite, quando falámos e ele tinha ouvido o que eu andava a fazer em Londres — e gostou e eu também conheço o trabalho dele — achámos que era uma boa ideia, foi uma coisa muito fácil de concordar. Eu, pessoalmente, também gosto de fazer experiências em géneros diferentes e com outras abordagens. Portanto, foi fácil e uma coisa que fazia sentido.

E porquê Mão? Há alguma razão específica, alguma história por trás? 

[DJ Vibe] O Paulo surgiu com o nome Mão, que eu achei logo bastante interessante, porque, na verdade, foi um bocado isso… Foi pedir ao Paulo a mão dele para me ajudar nesta ideia, mas, ao mesmo tempo, obviamente, acrescentar as ideias dele. O Paulo é um excelente músico, e, tirando os LX-90, este é capaz de ser o disco mais musical que eu já tenha feito. Essa musicalidade, obviamente, também veio muito do Paulo. E é com a mão que fazemos tudo. Damos a mão, damos uma festa, damos um abraço com as mãos, trabalhamos com as mãos, portanto, fez-me sentido e ficou. 

[Paulo Pedro Gonçalves] Eu gosto da ideia de Mão. É uma coisa pequena, mas forte, com um significado e uma imagem forte… E também gosto de, sem o til, ficar outra coisa, mais perto do “mau”. Tem outras notas.

Um til que não existe em Londres. E como é que foi esse processo inicial de se começarem a juntar para fazer música? Tiveram conversas antes, já sabiam aquilo que queriam e onde é que isto ia dar?

[DJ Vibe] Não havia nada definido. Eu ouvi trabalhos do Paulo, que me chamaram e que eu desconhecia. Não foi só a musicalidade, mas também a forma, como a música estava misturada, toda a produção…

[Paulo Pedro Gonçalves] Sabíamos que ia ser uma coisa electrónica, era a base de que íamos partir, mas não tínhamos ideia do que ia sair. Mas eu e o Tó trabalhamos muito bem juntos, com muita rapidez, e como temos muitas ideias e produzimos muitas coisas… Sei lá, o Tó aparecia com um beat, ou eu vinha com uma ideia para um baixo, ou uma melodia qualquer, ou então ele aparecia com um baixo… Quer dizer, o trabalho foi muito rápido. Muito fluido. Só que durou muito tempo, porque eu vivo em Londres, e, portanto, vinha 15 dias, depois voltava, depois só dois ou três meses mais tarde é que vinha, então demorou anos a fazer, só por causa da distância. 

E porque estavam mesmo a construí-lo apenas quando estavam juntos, presencialmente. 

[DJ Vibe] Sim, começávamos a trabalhar juntos, depois o Paulo ia para Inglaterra, eu dava mais uns ajustes… Mas a base era feita sempre com os dois.

[Paulo Pedro Gonçalves] Sim, o Tó ia mexendo, mas também, quando eu voltava, ainda mexíamos mais. “Olha, afinal, não achas que devíamos dar um toque ali e ali?” Íamos sempre afinando as coisas, até ficarmos mesmo… OK, está feito, está fixe, está bom. 

O tempo também ajudou a amadurecer as músicas?

[Paulo Pedro Gonçalves] O tempo ajuda, sim. Foi bom… Às vezes estás num período de produção e de criatividade, e depois não há aquele tempo para teres a distância para ouvir e dizer “afinal, vou cortar isto, ou vou adicionar isto, ou falta ali, ou isto não está bem”… Às vezes o distanciamento é importante na música. Foi muito bom para mim.

E esta ideia das viagens sonoras, por diferentes referências geográficas, também foi surgindo ao longo do processo? Ou já construíram várias delas a pensar em cidades ou em sítios específicos? 

[Paulo Pedro Gonçalves] Acho que foi uma coisa que apareceu a meio, tendo em conta a sonoridade… E depois pensámos que seria uma boa ideia fazer um disco que abraçasse o planeta, de inclusão… Nós vivemos num mundo tão dividido, que para nós fez sentido fazer uma coisa de tirar o chapéu ao mundo, às diferentes culturas e pessoas. E realmente havia uma coisa que soava um bocado a isto, outra que soava um bocado àquilo, então foram aparecendo ideias de cidades para os nomes.

[DJ Vibe] Sim, acho que primeiro apareceu o som, e depois o conceito. O som levou-nos ao conceito. Esta tem um tom oriental, esta tem apitos, Carnaval, festa… OK, ficou o “Brasil de Janeiro”. E assim chegámos a todos estes títulos e a todas estas paragens. 

Portanto, foi simplesmente feito com intuição e vontade criativa, e depois pensado e conceptualizado à posteriori?

[DJ Vibe] Sim, completamente. Nós ligamos as máquinas, vamos começar e as coisas vão acontecendo. E depois, se calhar ao final da sessão, já podemos olhar e pensar: isto se calhar pode ser assim, pode ficar assado, pode-se chamar isto ou aquilo.

[Paulo Pedro Gonçalves] Quando eu trabalho em canções, geralmente aparece-me uma melodia de voz ou uns acordes e fazem-me sentir qualquer coisa, lembrar qualquer coisa, e então começo a escrever uma letra acerca disso. Foi um bocado o que aconteceu com isto. Começámos a fazer um som, e depois esse som fez-nos pensar… Assim que tivemos a primeira ideia de uma das canções ser ligada a um país, ou à história de um sítio, depois foi fácil pensar… Vamos dar a volta ao mundo.

E havia muito mais material que acabou por ficar de fora ou, na verdade, só finalizaram estas oito viagens? 

[DJ Vibe] Fizemos estas oito músicas. Entretanto, já gravámos mais, para um próximo disco. Mas estas oito foram as que fizemos e editámos. Houve outros processos de ideias, mas não estavam finalizadas. 

[Paulo Pedro Gonçalves] No próximo disco, se calhar também vamos meter vozes, já temos coisas gravadas com pessoas, então não fazia sentido estar a incluir neste trabalho essas coisas. Podíamos ter continuado a trabalhar, mas depois nunca mais parávamos. Tem que chegar a uma altura em que dizes: OK, cheguei. Já temos algo que podemos mostrar às pessoas. 

Vocês já se conhecem há muitos anos e tinham trabalhado juntos. Mas também descobriram novas facetas, vossas ou do outro, ao trabalhar em conjunto neste projecto? Porque vocês também foram evoluindo ao longo dos anos enquanto músicos e pessoas.

[Paulo Pedro Gonçalves] Nós trabalhámos juntos nos LX-90, que são cinco pessoas, e é completamente diferente trabalhares com outra pessoa ou com mais quatro. Eu sempre tive esta coisa de estar metido em bandas, porque acho que a banda tem uma magia. Mas, ao mesmo tempo, muitas das tuas ideias são… como é que se diz?

Transformadas? 

[Paulo Pedro Gonçalves] Sim, porque há várias influências, há mais gente a pensar. Por um lado é bom para criar coisas, se houver uma química é porreiro, mas, por outro lado, hoje em dia, mais velho, acho que tenho mais uma ideia fixa do que quero fazer e como é que a coisa soa. E ao trabalharmos juntos, facilita porque realmente somos os dois, tenho de ouvir a opinião de uma pessoa, não tenho a de quatro ou cinco. É muito diferente, então o trabalho é rápido e nós temos uma boa química juntos, portanto, funciona. 

E têm backgrounds musicais distintos, que também é o que vos interessa. 

[DJ Vibe] É, não digo que sejamos de mundos diferentes, mas no fundo acaba por ser um pouco. Obviamente também conheço muito a pop, o Paulo ainda tem um historial forte nos blues e no rock, eu claro que estou ligado à música de clube. Mas essa é a magia, dois mundos colidirem e criar-se algo. Sei o que o Paulo é capaz de fazer, porque o conheço bem, ele toca teclas, baixo, guitarra, faz arranjos… É explorar isso e acrescentar a parte toda de maquinaria, os arranjos e a própria composição que já levam isso. E obviamente vou buscar à minha escola da electrónica e do club, tentar criar a melhor harmonia destes dois mundos na música.

Aproveitar o melhor de cada mundo, digamos. 

[Paulo Pedro Gonçalves] Outra coisa interessante do nosso processo é que não somos grandes técnicos de teclas e não sei o quê, e o disco é muito à base de teclas, o que permitiu também que deixássemos as máquinas fazer o trabalho. Ou seja, aparecia uma ideia, como é que vamos manifestar esta ideia? Não sabemos, mas olha, mete aí o dedo, agora mete assim, agora faz assim, mete um efeito, e de repente aparecia uma coisa mágica do nada. Não é a mesma coisa que te agarrares a uma guitarra e começares a tocar, porque aí já sabes que tens aqueles acordes, aquelas notas, é algo em que estás à vontade e, sim, aparecem ideias novas, mas aqui podiam aparecer mesmo ideias novas, porque não sabíamos o que estávamos a fazer, de certo modo. Ideias espontâneas, coisas interessantes. Olha, grande som, ‘bora usar isso. 

[DJ Vibe] Essa é a magia da electrónica na música. Trabalhamos com sons e instrumentos que são acústicos e há cordas, mas também há sopros, e obviamente que é tudo tocado [por nós, nas máquinas], porque não temos ali os músicos a tocar o instrumento, mas as máquinas hoje quase que nos permitem ter o som real. E depois, na parte dos sintetizadores, é uma manipulação quase infinita e às vezes somos surpreendidos com os resultados. Se não fosse isso, aos 40 ou 50 anos a música já era aborrecida, porque chegas a uma altura em que… O que é que te pode excitar? Já sabes como é o som de uma bateria. As guitarras, apesar dos pedais e dos efeitos que possas usar, também já sabes, os pianos a mesma coisa… Este outro lado é muito mais misterioso e pode ser muito interessante.



E o que vos continua a mover é essa frescura que também descobriram nesta colisão de dois mundos de que falavam.

[Paulo Pedro Gonçalves] Eu acho que não faz sentido fazer música se não for uma coisa que realmente me entusiasme. Se não, parece que só estou a fazer karaoke, não é? Há muitas pessoas que andam aí no mundo a fazer karaoke. 

Por vezes, deles próprios. 

[Paulo Pedro Gonçalves] Sim, deles próprios, é isso que queria dizer. Não tenho paciência para isso. A minha grande paixão desde menino é a música, mas eu adoro explorá-la, criar coisas novas. Não me apetece estar a repetir… Para isso, trabalho num banco ou num outro negócio qualquer. Como eu amo a música, gosto de explorar as potencialidades de todas as músicas. Agora, fazer música só por fazer, isso não faz sentido nenhum.

[DJ Vibe] Exacto, o início disto é mesmo a vontade de querer fazer algo um bocadinho diferente. Porque tinha acabado de gravar o meu álbum a solo [Frequências]. Não é pista pista, mas todo ele é electrónico e muito mais minimal. Depois, mais tarde, ainda fiz a colaboração com o Sam The Kid, fui buscar o hip hop. E é isso que também me move. Portanto, eu e o Paulo temos isso em comum.

E é fundamental para os dois estarem em sintonia, com esse espírito. 

[DJ Vibe] Isso nota-se até no disco, se formos a ver. O disco não tem um fio condutor musical. Eu não consigo ver. Há uma música com 90 de BPM, depois outra com 110 e uma que vai aos 120. São oito músicas, há ali duas ou três um bocadinho mais parecidas, mas depois tudo o resto… E isso é um bocado o reflexo daquilo que somos, o Paulo como músico e eu como tocador de instrumento ou programador. Tenho muito respeito pelos músicos, música é música e também não me formei.

Mas também és um compositor e produtor.

[DJ Vibe] A electrónica permite-me isso. Consigo fazer as coisas nesse papel. Mas, pronto, nesta dinâmica toda há algumas músicas que vão mais para a esquerda, outras que vão para a direita, por ser mesmo algo que é quase instantâneo, que nos vai surgindo da cabeça, das mãos, e vamos pondo em prática. De repente temos ali algo. 

Eu ia perguntar-vos se este era um projecto de futuro, mas já percebi que sim porque já têm novas faixas a pensar num segundo disco.

[Paulo Pedro Gonçalves] A mim faz-me sentido continuarmos enquanto estivermos os dois entusiasmados com o projecto e gostarmos do que está a sair. Quando começa a ser um emprego, é a altura de parar. Ir para a estrada é um bocado emprego. Ou seja, os espectáculos são fantásticos, mas aquela coisa toda de andar de um lado para o outro… É complicado. Agora, na parte de criação musical, enquanto as coisas estiverem novas, frescas e interessantes, acho que é andar para a frente. Portanto, acho que sim, a gente vai continuar. Gostamos de trabalhar um com o outro. 

E a estrada também é algo que pretendem fazer agora, apresentar este disco ao vivo?

[DJ Vibe] Sim, fazermos concertos com este disco. Seremos nós mais um teclista e um percussionista. Aquilo também tem de ser tocado, tem que haver alguma dinâmica. Não é um concerto gravado e estamos ali a fazer playback, não é um DJ set. A ideia que temos é fazer alguns concertos. Esperamos ainda este ano poder apresentar o disco em Lisboa e no Porto. 

[Paulo Pedro Gonçalves] Temos ideias bastante específicas do que queremos fazer ao vivo. Queremos fazer uma coisa que eu acho que a gente já tinha pensado até de certo modo para os LX-90 que era fazer uma coisa que fosse quase uma noite de clube mas com música ao vivo. Mais orgânico. Há ali um casamento entre temas, um ambiente total que seja um happening. Em vez de ser só um concerto. Guardam as palmas para o fim. 

[DJ Vibe] Pode ser quase considerado como um DJ set, mas na verdade são máquinas e instrumentos que estão ali e as músicas todas entrelaçadas umas nas outras, quase como se fosse um DJ a passar de uma música para a outra. Ou seja, as pessoas às tantas estão ali envolvidas numa sonoridade, e com alguns visuais a acompanhar. 

Imaginam que ao vivo até possa inclusive haver algum espaço para improvisação?

[DJ Vibe] Sim, completamente. Há sempre espaço.

[Paulo Pedro Gonçalves] Se não, torna-se um emprego. Aquilo terá um fio de ligação por causa das canções, mas também haverá espaço para improvisarmos e, em certa altura, podermos convidar outros músicos a participar e haver mais liberdade no que estamos a fazer. Queremos um projecto vivo, orgânico. O processo de criação aconteceu naturalmente, o espectáculo também tem que ser uma coisa natural. Que as pessoas sintam uma relação com aquilo, que não seja só uma coisa de máquinas. Que seja uma reflexão, que não seja sempre a mesma coisa. Porque, se não, também ficamos aborrecidos.

[DJ Vibe] É a nossa forma de estar também. Reflecte exatamente isso. Eu depois vejo aqui a pista como um sítio muito sagrado. As músicas de Mão, elas têm… Há ali duas ou três que podem ser mais aceites numa pista normal. Depois há outras que se dançam, mas não é aquela coisa de 4×4, não é os 125 BPM. Tens de ver como é que a coisa também vai ser apresentada e tocada. Mas obviamente está sempre ali o pézinho a bater. Tem sempre o groove. Agora é trabalhar, fazer versões para o live. E explorar alguns elementos das próprias músicas. Puxá-los mais para cima, dar-lhes outra visibilidade.


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