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Fotografia: Filipe da Palma
Publicado a: 21/04/2026

Quando paira o espectro do fascismo.

Mão Morta no Teatro Municipal António Pinheiro: de coração nas mãos em autodefesa

Fotografia: Filipe da Palma
Publicado a: 21/04/2026

A ideologia política que subjugou países pela Europa a tiranias sufocantes entre 1919 e 1945 volta a rondar nos dias de hoje, disfarçada de um novo modo de estar. Sem que, contudo, desse mesmo fascismo de outrora se entenda uma ideia distinta aos (neo)fascismos de agora. Em 1935, o dramaturgo Bertolt Brecht escrevia, no exílio, um texto de alerta e correlação — “O Fascismo é a Verdadeira Face do Capitalismo”. O texto publicado originalmente no jornal Twice a Year dá conta de uma clarividência, enunciada em título e que, em grande medida, aponta para um dos motivos de ressurgimentos de tais espectros, volvidos mais de cem anos. 

Os Mão Morta, enquanto grupo inquieto e de denúncia, tal como Brecht e tantos outros (nunca demais), agem e intervêm no campo da arte. Deles houve esse manifesto político em 1998 com Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável (NorteSul, 1998) situando-os nas faldas de uma Internacional Situacionista, de Guy Debord a Raoul Vaneigem. Nele se escutavam, entre “As Tetas da Alienação” e a “Aldeia Global”, um apontar de dedo a uma origem indisfarçável do problema — o capitalismo e a sua deriva neo, sem disfarce aos dias de hoje. Já em Pelo Meu Relógio São Horas de Matar (NorteSul, 2014) se escutavam exercícios líricos à ideia de agir: “Ultrapassado o limite do ultraje / Toda a violência é legítima autodefesa”, pensamento em tese poética, vinda da letra de “Horas de Matar”. Fazer livre expressão no campo da arte, das ideias e pelo acicatar ao pensamento é talvez a maior das razões de existência e persistência para os Mão Morta, passados 40 anos de actividade. Nesse mesmo disco, foram envoltos em laivos de censura e efectivos cancelamentos de concertos — demonstrações de incomodados pela arte, dispostos a fazer uso do poder para amordaçar consciências. Nesse álbum apontavam, em denúncia, que “Os ossos de Marcelo Caetano / Estão de volta ao palácio de S. Bento”. E ainda era só o ocupar de uma só cadeira na assembleia p’ra lamentar.

Aos Mão Morta são dadas loas no campo do entretinimento e do espectáculo — estão nomeados para mais um dos prémios da música portuguesa, indicados pela crítica e precisamente pelo último álbum-manifesto Viva la Muerte! (Rastilho, 2025). Uma demonstração contínua de vida de uns quantos “evadidos [há muito] do sector do lazer” e dispostos “a reclamar a vida que a tirana servidão impede de agarrar co’a mão”. Não entender os Mão Morta como grupo neste contexto é estar-se verdadeiramente alienado — algo que aos dias de hoje se entende, contudo aceitar isso é outra conversa. Venha (a sociedade do) espectáculo então!

Viva la Muerte!, em disco e em palco, traz o colectivo bracarense acrescido num grupo coral de cinco vozes masculinas. Uma ligação directa ao que José Mario Branco bem desenvolveu na sua obra, nomeadamente no seu último álbum Resistir é Vencer (EMI, 2004). Um coro operário, que também pode andar perto de um canto do trabalho, numa ladainha denunciadora como acto de purga e libertação. Surgem dispostas em pedestais as vozes de Fernando Pinheiro (na direcção), Jorge Barata, Lucas Lopes, Paulo Santos Silva e Tiago Regueiras. Ouve-se “Em deus, por deus, com deus, viva deus / Vera fé e paixão” como fundamentos basilares de outrora trazidos ao agora, contraposto na narrativa e em explicação pelo porta-voz do grupo Adolfo Lúxuria Canibal, situado no outro lado do palco. Ao centro, o naipe dos músicos, com António Rafael nos teclados, Rui Leal nos baixos e contrabaixo, Miguel Pedro na bateria e programações, Ruca Lacerda e Vasco Vaz nas guitarras. Ao fundo uma tela-teia (que nem teias de aranha) — fiapos que apontam aos sinais do tempo — com imagens texturais em movimento. Esta ideia de espectáculo, estreada a convite no principio do ano de 2025 no Theatro Circo em Braga, circulou pelo país intensamente — pertinência dos tempos. Os mesmo que em nada alteraram e em muito justificam que sigam pela estrada para mais uns palcos. Desta feita regressam ao Algarve para um primoroso e recém-renovado teatro local — Teatro Municipal António Pinheiro, em Tavira. 

Som e imagem irrepreensíveis! Haverá sempre mais uma (boa) razão para voltar a tudo isto. Para esse  “Corre Corre Corre”, onde nos dizem (e relembram) as palavras, que há “Contra ti muita gente a gritar / Uma imensa turba de gente”, cujo o propósito revela “Uma verve de ódio nojenta / Que não deixa ninguém respirar”. Uma narrativa a dar conta do medo, e do instaurar o medo do medo, como medida efectiva do controlo individual. Um tema em crescendo e que depois abre em redenção à declaração “Se vais embora, se sais daqui / Ficamos pobres, órfãos de ti”. Faltará invariavelmente mais um(a). Entre um “É Proibido” e um “Ressentidos e Ressabiados”, os dois temas da veia autoral de Rafael, os Mão Morta, coadjuvados pelo coro, explicitam a causa e o efeito deste manifesto em autodefesa. “E nesta normalidade ignóbil, de medo e violência, escoam-se, enfadonhos, os dias cinzentos da ordem nova”, encerra Adolfo a dança desse tema feito em valsa triste na cabisbaixeza que ameaça os dias. 

Em grande medida, estar presente numa performance em torno de Viva la Muerte! permite, num além disco, sorver os interlúdios entre músicas. Gravações de trechos de filmes e citações oportunas que servem para situar a narrativa alinhada dos temas. A páginas tantas ouve-se em apelo maior: “Think for yourself and ask authority”. Antecâmara do tema maior e charneira do concerto — “A Liberdade”. Afinal é disso que aqui se trata, da ameaça que paira sobre a hipótese concreta da sua perda. Ruca Lacerda é um músico preponderante nos arranjos e na orquestração sonora dos Mão Morta. Assume-se como músico versátil e capaz de elevar a musicalidade. Quando se desliga do timbalão para ocupar o lugar na bateria de Miguel Pedro (aos comandos das programações) há uma dimensão jazzístico-cinematográfica superlativa e “A Liberdade” discorre sublime. Uma metáfora primorosa onde a dita liberdade (dada como para sempre adquirida) corre perigo e “toda a gente discute os cuidados paliativos” a que está acometida. “Por onde anda a Liberdade?” — filha e mãe (de todos(as) nós). Tentam convencer-nos (como outrora) “Que a única e verdadeira liberdade é a de uma anciã chamada Nação.” Onde é que já ouvimos isto antes… É esse um ponto de despertar consciências aqui, por via do não apagar da memória.

“Bem-vindos ao espectro do fascismo” — declara aberta a sessão negra do alinhamento o narrador. Abate-se sob a plateia uma cortina de pesar para escutar de perto um “Pensamento Único”, alinhando a voz do líder, o uniformismo do pensamento e da verdade imposta. Momento de trazer em ligação directa e objectiva a ideia de “desinformação” — termo cunhado por Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo e que nos lembra que “No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”. “Ratoeira Bélica”, musicalmente, traz para perto essa ideia de desbunda tribal que um dia chamaram com “É uma Selvajaria”, gravado nesse longínquo Corações Felpudos (Fungui, 1990). Um começo e fim de tema num festim coral, onde a criatividade composicional de Miguel Pedro sobressai em esplendor. Para tal, tanto contribuem as incisivas palavra ditas: “Para conservar as mentes alienadas / Sem visão, num ardil, tudo vale: / do fado ao futebol, à guerra ou à religião”; como esse mirabolante metalofone operado por Lacerda antevendo o Hammond de Rafael. 

“Viva la Muerte!” como tema-título designa o álbum e fecha o alinhamento também do concerto. Mas recorda o título que o cineasta Fernando Arrabal empregou em filme. Obra que arranca do traço de Topor, situando-se entre as águas fortes de um Goya e os desenhos de Dalí. E que começa por anunciar em altifalantes sobre um longo plano que: “Hoje, depois de capturar e desarmar o Exército Vermelho, as tropas oficiais atingiram o seu objectivo. A guerra terminou. Os traidores serão perseguidos sem descanso. Se necessário iremos dizimar metade do país. Viva la Muerte!” Na cena, a criança apavorada corre em direcção contrária aos militares — em denúncia. Simbologia traumática da guerra civil espanhola, na memória do fascismo e dos que fez desaparecer. Os Mão Morta servem-se da expressão para alertar em legítima autodefesa dos perigos que enfrentamos no advento das sua (re)formulação e ameaça. Saberemos melhor para onde vamos sabendo de onde viemos, pois “Ninguém nasceu pra ser servil e morrer”, como nos cantam em refrão-coda, a encerrar em desiderato — para não esquecer, como convém!


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