Lichens: fantasias modulares de Robert Aiki Aubrey Lowe ao vivo em Portugal

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Robert Aiki Aubrey Lowe é um explorador destemido, um inquieto criador que não acredita em fronteiras, em limites, em impossibilidades. Talvez seja isso que justifica que navegue com perfeita naturalidade os diferentes oceanos de som que se estendem do metal à new age.

Em 2004, Aubrey Lowe criou o alter-ego Lichens, uma identidade que se define pelo seu carácter improvisacional e pela utilização da voz e do sintetizador modular como ferramentas expressivas. The Psychic Nature of Being marcou a estreia deste projecto na Kranky e desde então a discografia tem crescido, tanto enquanto Lichens como com o nome próprio de Robert Aiki Aubrey Lowe.

Com esta designação, por exemplo, lançou em 2015 na ultra-respeitada Rvng Intl. o álbum We Know Each Other Somehow, projecto colaborativo com o lendário Ariel Kalma, um dos pilares da cena new age. Esse trabalho foi inserido na série FRKWYS, palco para encontros mais ou menos inesperados entre mentes criativas de diferentes planos de existência (Blues Control com Laraaji, Sun Araw e M. Geddes Gengras com os jamaicanos Congos ou Kaitlyn Aurelia Smith com Suzanne Ciani, para citar apenas alguns exemplos). E essa ideia – a de encontros entre mentes criativas de diferentes planos de existência – tem sido central na carreira de Lowe: cantou e tocou baixo nos Singer da Drag City ao lado de Ben Vida e Todd Ritman, tocou tambura em disco e em palco com os poderosos Om de Al Cisneros, colaborou com a banda de black metal Twilight.

 



O líquen a que se refere o alter-ego de Lowe, Lichens, é um organismo de dimensões reduzidas que tem no entanto a capacidade de sobreviver nas mais adversas condições. A metáfora parece servir este artista, que tem construído uma incrível carreira nas margens mais remotas da música experimental. Enquanto Lichens, Aiki Aubrey Lowe acaba de merecer capa da prestigiada revista Wire. Numa peça de título Eternal Now, o jornalista Marc Masters mergulha fundo na identidade artística de Robert Lowe que explica que na música que tem produzido como Lichens encontra a possibilidade de se desligar do tempo e de viver, lá está, num eterno presente, num eterno agora.

Na More Than Human, enquanto Robert Aiki Aubrey Lowe, acaba de lançar Two Orb Reel, um álbum em que explora – uma vez mais através do altamente inspirado uso de sintetizadores modulares, uma ideia muito própria de ficção científica e a sua intersecção com África: tal como Craig Leon que se inspirou na tribo Dogon de África – que acreditava comunicar com extra-terrestres – para a criação do mítico álbum Nommos (originalmente lançado na Takoma de John Fahey em 1981 e entretanto reeditado na Superior Viaduct e regravado – como Anthology of Interplanetary Folk Music Vol. 1 – na… Rvng Intl.), também Lowe viu nas criações artísticas dessa mesma tribo e numa série de escritos de autores africanos modernos uma inescapável fonte de inspiração que lhe permite aliás lidar com questões fundas da sua própria identidade cultural: “enquanto pessoa de cor, acho que muita da ficção científica é muito anglo, muito branca”, explica.

“Há muito para descobrir no sintetizador modular. É um ser com vida própria, por isso é quase como se eu tivesse um colaborador”, explica. Faz sentido: os líquens precisam de algo a que se agarrar, são organismos que parecem viver entre os reinos animal e vegetal e vivem em estado simbiótico. Tal como Lichens, o músico, sempre em busca da transcendência, da fuga do tempo, da fuga deste plano de existência, de uma simbiose com o inexplicável.

 


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Texto escrito para a folha de sala do concerto da ZdB.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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