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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/05/2026

A artista espanhola falou com o Rimas e Batidas antes do concerto em Lisboa.

La Tania canta os seus AMORIOS: “Este álbum mudou a minha vida, relação e carreira”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/05/2026

Um mês e meio após Yerai Cortés nos ter encantado com a sua guitarra flamenca, chegou a vez de prestarmos atenção à sua companheira, a cantora La Tania, nascida há 39 anos em Alicante e radicada em Madrid, que se estreou há dias em Portugal com um concerto na Casa Capitão, em Lisboa.

La Tania lançou em 2025 o seu disco de estreia, AMORIOS. LA VERDAD DE MI COPLILLA, um trabalho sobretudo composto por Yerai Cortés que é o retrato da crise que os dois atravessaram nos anos anteriores. Uma história de paixão e mágoa, traição e reconciliação profunda, que acabou por resultar num disco construído a meias e co-produzido por C. Tangana, colaborador habitual de Cortés. É também um disco que parte da tradição flamenca e que a funde com produções mais modernas e dançáveis.

Horas antes do concerto em Lisboa, La Tania sentou-se com o Rimas e Batidas para falar do seu disco de estreia, do EP Palace que se seguiu, da sua estreia em palcos portugueses e do momento vibrante que a música espanhola atravessa.



É a tua estreia em Portugal. Estás contente por actuar em Lisboa?

Super contente e entusiasmada. É a primeira vez que faço um espectáculo internacionalmente, que saio de Espanha para fazer o meu concerto. Já saí outras vezes, mas para fazer uma canção ou duas, ou quando fiz um festival no México. Mas um concerto meu, mesmo, é a primeira vez. Estou muito entusiasmada e expectante. Acho que vai ser bonito.

E é importante que haja mais pontes culturais entre Espanha e Portugal? 

Acho que sim, devia haver mais sinergia entre artistas. Aliás, eu queria vir aqui trabalhar com artistas locais, mas acabou por não dar, por falta de tempo. Queria conhecer artistas daqui, fazer essa procura.

O teu álbum, AMORIOS. LA VERDAD DE MI COPLILLA, é particularmente invulgar por abordar os problemas de uma relação amorosa com o outro protagonista desta história. Mas obviamente isso também o torna muito especial. Foi algo natural e óbvio para ti desde o princípio, desde o primeiro momento?

Fomos surfando a nossa crise e as nossas coisas. E chegou um momento em que eu disse: “Bolas, tenho aqui um disco”. Então foi o momento de contactar a Sony Music e mostrar-lhes o projecto.

Não foi planeado.

Não, não foi nada planeado. Foi simplesmente uma necessidade, como uma forma de desabafo.

Uma espécie de terapia de casal em forma de música?

Sim, agora apercebo-me de que foi uma espécie de terapia de casal. Mas naquele momento era uma coisa em que nenhum de nós estava a pensar. Simplesmente estávamos a escrever sobre os nossos problemas e sobre aquilo que íamos vivendo. Mas, claro, depois havia uma narrativa, porque tudo isso estava a ser contado ao mesmo tempo que ia acontecendo.

E houve algum momento em concreto, a meio do processo, em que percebeste, ou perceberam, que estavam a fazer este álbum?

Sim, houve um momento em que fui viver para Paris e aí acalmei um pouco tudo o que tinha dentro de mim e percebi que tinha… bem, sim, que tinha um álbum. Então disse: “OK, isto tem uma narrativa”. Depois também apareceu o Pucho [C. Tangana]. Foi mesmo uma mistura, com toda a questão do filme [A Guitarra Flamenca de Yerai Cortés]. Tudo aconteceu de uma forma muito natural e estou muito agradecida. A partir de agora sei que é preciso fazer e escrever sobre aquilo que estamos a viver naquele momento. Este álbum mudou a minha vida, a minha relação, a minha carreira, tudo. Só tenho gratidão para este projecto. Sentia que tinha algo interessante nas mãos, apetecia-me muito cantá-lo ao vivo e apresentá-lo, e foi tudo de forma visceral. Não havia nada de racional, era simplesmente entusiasmo.

E apesar de o Yerai ter escrito e composto o disco, tu foste fazendo alterações nas letras para trazer a tua perspectiva. Imagino que fosse fundamental para ti que o disco tivesse a tua verdade.

Sim, totalmente. Nós sempre trabalhámos juntos em casa dessa forma. Era tipo: “Olha, tenho esta melodia.” “Ah, e esta letra.” É verdade que o Yerai sempre me incentivou muito a cantar e a fazer o meu projecto musical. Então acho que ele, muito inteligentemente, me ia lançando coisas que naquele momento me apetecia cantar, porque para mim era um desabafo. Apeteceu-me reescrever coisas que ele tinha escrito, mas já se aproximava bastante daquilo que eu sentia.

E tiveram muitas canções que ficaram de fora? Que acabaram por não entrar no disco?

Bem, ao longo da nossa vida temos imensas. Porque o Yerai sempre escreveu a vida toda e eu com ele, e em casa era sempre isso que fazíamos. Mas, deste álbum, praticamente entraram todas, como tinha uma narrativa.

E vocês sabiam o caminho dessa narrativa?

Sim, aquilo que mudou mais foi a produção. Isso mudou muito. Porque nós fazíamos as canções de uma determinada forma em casa, com guitarra. Então o disco existia como um disco de guitarra e voz. Depois, pronto, eu estava noutra fase da vida, apetecia-me divertir-me, apetecia-me passar um bom bocado. Então queria transformar essas canções de guitarra e voz em canções mais dançáveis. Ou melhor, em canções que identificassem melhor o meu momento de vida, que era mais físico. E pronto, demos muitas voltas ao nível da produção. O Pucho ajudou-me muito a acompanhar aquilo que eu queria naquele momento. Ele ouviu muito bem aquilo que eu queria e deu forma a essas produções.



E foi fácil encontrar, ao nível dos arranjos, o equilíbrio entre a tradição e uma produção mais moderna, contemporânea?

Sim, acho que foi fácil porque no fim de contas… bem, demos mesmo muitas voltas. Ou seja, não foi assim tão fácil. Mas no fim havia esse caminho. Muitas coisas foram descartadas, como em todos os processos criativos. Mas no fim consegui aquilo que queria, que eram algumas canções mais solenes e outras mais divertidas e mais dançáveis. Então acabou por haver a mistura de folclore que eu queria.

E depois lançaste um EP com as canções “Palace”, “Teteo” e “La Flor”, com outro espírito e ânimo. Como foi esse processo em concreto?

É que depois vivi uma fase de grande expansão comigo mesma e sentia isso fisicamente. Então foi aí que precisei de fazer este tipo de canções. Foi super divertido porque, claro, eu gosto tanto de Manolo Caracol como de Bad Gyal. Então naquele momento era tipo: “Quero divertir-me e libertar-me em palco como a Bad Gyal se liberta”, sabes? Dava sempre esse exemplo porque me sentia essa pessoa, com essa vontade de, pronto, desfrutar de outra forma. Não estar apenas sentada numa cadeira a cantar de olhos fechados e de forma mais solene, não é?

O processo criativo foi muito diferente, tendo em conta a natureza destas canções?

Nessas canções entrou, de repente, o nusar3000, que também é um grande amigo. E foi fácil, ele percebeu-me perfeitamente. Ou seja, no fundo, aquilo que eu fiz foi rodear-me de artistas incríveis e também de amigos que conheciam a forma como eu me sentia. Então foi como: “Pronto, vamos caminhar nesta direcção”. E não tivemos medo de errar ou acertar, porque não havia ninguém à nossa espera, nem nenhuma meta, nem nada. Foi puro prazer. E ao vivo o concerto passa por estes momentos diferentes, também físicos. Para mim o corpo é bastante importante.

Também no próprio processo criativo?

No processo criativo, 100%. Porque se o teu corpo te pede para te expandires e te libertares de alguma forma, isso sente-se fisicamente. Não se pode sentir racionalmente. E quando também estás triste, se ouvires o teu corpo, no fim de contas também se sente fisicamente.

E já estás a pensar em música nova?

Sim, agora estou precisamente metida em estúdio a compor o próximo álbum.

Há alguma coisa que possas dizer sobre a direcção que ele está a levar?

Pois, ainda não sei. Agora sinto-me num momento mais contemplativo, mais tranquila. Mas, claro, isso é agora. Daqui até o disco sair, sabe Deus o que vai acontecer. A minha intenção é continuar a ser, ou tentar ser, honesta com aquilo que vou sentindo. E depois logo se verá o disco que sair. Agora estou num processo de me juntar em estúdio com pessoas, conhecer gente, procurar o amor. Eu digo sempre que é como procurar o amor, porque no fundo é criar com alguém.

Para concluir, sentes que Espanha, em geral, está a viver um momento importante, talvez histórico, de revitalização, de reinvenção da tradição para novos públicos, até internacionalmente? 

Eu sinto mesmo que Espanha está num momento muito bom, porque sinto que finalmente estamos a reconhecer o flamenco e o folclore, que sempre foram coisas muito mais valorizadas lá fora do que pelos próprios espanhóis. Então agora sinto que estamos num momento em que voltámos um pouco a olhar para dentro. E agora sabemos diferenciar o folclore, sabemos diferenciar a música de raiz, o flamenco… Sinto que há muitos artistas a experimentar, que estamos todos a experimentar e que já não temos tanto medo. Porque antes era tipo: ou fazes flamenco, e era tudo muito purista, ou fazes outra coisa. Mas, claro, nós que também mexíamos com o folclore ou a música de raiz não sabíamos onde nos colocar. Era do género: “Mas o que estamos a fazer? Estamos a fazer flamenco mal feito?” E houve uma evolução musical. Por isso, sim, acho que estamos num bom momento, que há muito respeito entre todos os artistas, entre todas as músicas. E estou muito contente. Neste momento sinto-me muito feliz e tranquila. O que quero é dedicar toda a minha vida à música. Quero trabalhar muito para poder continuar, para fazer isto para sempre. E eu digo sempre: dá igual onde me deixarem cantar, eu vou cantar. Mas quero continuar a cantar toda a minha vida. Talvez amanhã, ou daqui a sete anos, faça um disco de reggaeton. Ou seja, que me deixem fazer, quero sentir que tenho a liberdade de poder fazer aquilo que quero.


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