Artista indiano de 32 anos radicado em Lisboa, Kumail Hamid é o autor de uma música neo-soul e R&B, com uma instrumentação orgânica e contemporânea, que recentemente nos presenteou com o disco Mudbrown. O título é inspirado nas águas do rio Congo, que dá nome ao país onde também viveu, a República Democrática do Congo.
Ao longo de uma dezena de faixas — os instrumentais também foram disponibilizados à parte —, Kumail explora melodias fluidas e interpretações contidas, num trabalho aprimorado de elevado perfeccionismo e produção elegante. É um disco em que partilha um tema com o norte-americano Fly Anakin, sendo que já tinha trabalhado com um dos seus colaboradores mais frequentes, Pink Siifu, num projecto anterior, Yasmin, editado em 2019.
Em entrevista ao Rimas e Batidas, o artista residente em Portugal apresenta-se, desvenda a sua história, detalha aquilo que o move, escrutina o seu novo álbum e adianta os próximos passos.
Talvez a melhor forma de começar esta conversa seja perceber um pouco o teu percurso. Sei que és de Mumbai, na Índia. Viveste também no Congo, e agora estás em Lisboa. Entre todas essas diferentes vidas, quando é que começaste a fazer música?
Comecei a fazer música quando tinha cerca de 17 anos. Na altura fazia coisas muito inspiradas pela Ninja Tune, aqueles beats meio tortos, esse tipo de produção. Depois fui evoluindo para uma sonoridade muito influenciada por artistas como Knxwledge, Mndsgn e toda aquela cena dos produtores de beats de Los Angeles. E acho que a trajectória natural acabou por me levar ao ponto onde estou agora, com o álbum que acabei de lançar, que é muito mais R&B, orgânico e contemporâneo. Sempre imaginei que era isto que queria fazer, mas senti que precisava de passar por todas essas outras fases antes de lá chegar.
Portanto, já há algum tempo que fazes música.
Sim, já passaram alguns anos. Nasci e cresci na Índia e foi lá que construí praticamente toda a minha carreira musical. Depois, por altura da pandemia, durante a COVID-19, decidi mudar-me para o Congo, porque a minha mulher é de lá. Ela queria regressar ao Congo para abrir um restaurante e convidou-me para ir com ela. Durante muito tempo recusei, porque não queria deixar tudo para trás. Mas depois chegou a pandemia e deixou praticamente de haver actividade na música. Por isso, pus a minha carreira musical em pausa, mudei-me para o Congo, abrimos um restaurante e trabalhei lá durante cinco anos. Acabei por me tornar o chef de cozinha. Ao fim desses cinco anos, os dois percebemos que estava na altura de mudar novamente. O Congo é um sítio duro para viver e queríamos um recomeço, um lugar mais tranquilo. Ao mesmo tempo, eu queria voltar a dedicar-me à música. Por isso decidimos mudar-nos para Portugal, este belo país. É onde vivo actualmente.
E porquê Portugal?
Viemos cá uma vez de férias. Foi apenas essa visita. Durante essas férias olhámos um para o outro e dissemos simplesmente: “Vamos viver aqui”. Quando regressámos, comecei imediatamente a procurar informação para perceber como podia candidatar-me e tratar da mudança. Fiz tudo o mais depressa possível. A candidatura foi aceite e foi isso. Nem sequer fizemos grande pesquisa. Não estudámos o país em profundidade. Gostámos do lugar e pensámos: “Porque não?”
E quando foi isso? Há quanto tempo te mudaste?
Faz agora exactamente dois anos.
Portanto, imagino que tenha sido também durante esse período que fizeste este disco.
Exactamente. Durante os cinco anos em que vivi no Congo, aproveitava os intervalos do trabalho para criar pequenos excertos musicais. Fazia apenas loops. Escrevia ideias. Trechos de 30 segundos ou um minuto. Nunca mais do que isso. Ao fim desses cinco anos percebi que tinha ideias suficientes para construir um álbum. Quando me mudei para Lisboa telefonei aos músicos da minha banda, que vivem na Índia, e disse-lhes: “Venham viver comigo durante algum tempo. Vamos gravar este disco”. Eles ficaram em minha casa durante quase um mês. Foi nessa altura que transformámos todas essas pequenas demos em canções completas. Foi meio um caos. Imagina demasiados músicos a viverem todos juntos na mesma casa. Mas foi muito divertido. Foi praticamente tudo gravado em casa. A única excepção foram as baterias da primeira faixa, que gravámos num estúdio profissional na Índia.
Como disseste, musicalmente o Mudbrown começou a ganhar forma no Congo, nos tempos livres que tinhas. Mas imagino que tenha havido um momento em que olhaste para aquele conjunto de ideias e percebeste que ali estava um álbum — e que álbum era.
Sim. Na verdade, tudo começou com a primeira canção. Voltando um pouco atrás, essa música começou a ser gravada em 2020. Estávamos apenas eu e o guitarrista, fechados num quarto durante o confinamento. Eu estava sentado no quarto da minha mãe, com umas colunas pequenas que ela tinha, e conseguimos arranjar maneira de ligar a guitarra dele. Estávamos simplesmente a experimentar ideias e acabámos por criar a secção do refrão de “Vultures”. Depois, ao longo dos cinco anos seguintes, sempre que regressava à Índia ia acrescentando mais elementos. Mandava mensagem ao baixista e perguntava-lhe: “Consegues gravar uma linha de baixo para esta música?” No ano seguinte fazia o mesmo com o baterista. Depois, quando o Rhys, que toca os sopros na faixa, entrou no processo, mostrei finalmente a música ao resto da banda. Foi nessa altura que todos disseram: “Meu Deus… isto merece um álbum inteiro à volta desta canção”. Foi essa música que acabou por dar origem à ideia de construir um disco completo. Naquela altura também sentia necessidade de deixar um pouco para trás a produção de beats. Queria começar realmente a escrever música, aprender mais sobre música, tocar com outros músicos, ouvir muitos discos. Grande parte do processo consistiu precisamente nisso. Passávamos horas e horas simplesmente a ouvir música. No fundo, todos os artistas imitam aquilo de que gostam. Retiras uma ideia daqui, outra dali. Estudámos o álbum Voodoo, do D’Angelo, ao pormenor. Analisámo-lo de princípio ao fim. E, se ouvires o Mudbrown, percebes claramente que existe muita influência desse disco. Foi assim que o álbum foi sendo escrito. Foram cinco anos completamente obcecados com música. A tentar perceber de onde podíamos retirar determinadas ideias, que discos devíamos ouvir, a descobrir novos álbuns. Foi esse o processo.
E como nasceu esse interesse tão forte pelo R&B e pela soul? És da Índia, viveste no Congo e agora em Portugal. Imagino que tenhas contacto com muitas outras linhas musicais e conheças muitos outros estilos. Mas essa paixão pelo R&B e pela soul parece ter surgido muito cedo.
Acho que tudo começou quando ainda fazia beats. Na altura fiz uma faixa com o Fly Anakin e o Pink Siifu. Depois, se fores seguindo esse percurso, percebes que eles trabalharam com o Knxwledge, com o Mndsgn e outros produtores semelhantes. A partir daí entras inevitavelmente no universo do J Dilla. E quando descobres o J Dilla, descobres um universo completamente novo. Começas a ir ao WhoSampled para perceber: “Que música é que ele usou neste tema? E nesta?” Foi através desse processo que comecei a descobrir discos antigos de soul bastante obscuros e muitos álbuns clássicos de R&B. Foi precisamente a tentar perceber o que esses produtores samplavam para construir a música deles que o meu mundo se abriu para o R&B, para o funk antigo, para a disco e para a soul. Foi daí que vieram todas essas influências. Claro que também adoro música indiana e naturalmente mantenho-me fiel às minhas raízes. Mas, emocionalmente, foi este universo musical com que mais me identifiquei.
E como reuniste esta banda? Já eram amigos? Já tocavam juntos? Como é que essas pessoas passaram a fazer parte do projecto?
Tocamos juntos há cerca de dez anos. Mesmo nos meus discos mais antigos, sempre que há guitarras ou baixo, são estes mesmos músicos. Por isso, quando me mudei para Lisboa, nem sequer pensei noutra hipótese. Já trabalhamos juntos há tanto tempo. Partilhamos exactamente os mesmos gostos musicais. Gostamos dos mesmos discos. Quando tens essa ligação musical com alguém é muito difícil explicá-la por palavras. Por isso liguei-lhes e disse apenas: “Venham. Preciso de vocês aqui para fazermos este disco”. Foi assim que aconteceu.
Referiste há pouco o Fly Anakin e o Pink Siifu. São participações impressionantes. Como é que chegaste até eles? Como os conheceste?
Através de mensagens privadas no Instagram, à boa maneira tradicional [risos]. Tinha uma lista de artistas com quem sonhava trabalhar. Lembro-me de alguns nomes: Little Simz, Freddie Gibbs, Obongjayar… Passei simplesmente horas a enviar mensagens. Escrevia-lhes directamente, mandava e-mails, contactava os agentes. No caso do Fly Anakin, foi o empresário dele que acabou por nos pôr em contacto. Foi assim que tudo aconteceu. Com o Pink Siifu foi exactamente igual. Enviei-lhe uma mensagem privada. Ele gostou da música. E foi só isso.
Às vezes parece muito mais complicado do que realmente é.
Sim, mas eu sou uma pessoa extremamente tímida. Nunca seria capaz de ir falar com alguém pessoalmente. Foi a minha mulher que me dizia sempre: “O que tens a perder? Manda simplesmente uma mensagem. É só uma mensagem. Se nunca a lerem, nunca a leram. Mas se a lerem, existe sempre a possibilidade de acontecer alguma coisa”. E acabou mesmo por acontecer.
Falando novamente do processo do álbum, foi fácil perceber quando estava terminado e quantas faixas deveria ter? Quando sentiste que já não era preciso acrescentar mais nada? Porque imagino que tivesses muitas outras ideias e, pelo que descreves, pareces ser bastante perfeccionista.
Sinceramente, acho que um álbum nunca está verdadeiramente terminado. Acho apenas que chega um momento em que tens de perceber quando está na altura de o deixar seguir o seu caminho. Se alguém me tivesse dito que não precisava de lançar o disco agora, provavelmente continuaria a trabalhar nele. Mas chega uma altura em que tens de te afastar daquela obra e começar a pensar na seguinte. Como este disco demorou praticamente cinco ou seis anos a fazer, houve um momento em que pensei: “Está na hora. Tenho de o deixar ir. As pessoas precisam finalmente de ouvir aquilo em que tenho estado a trabalhar”. E todas as novas ideias que entretanto fui tendo podem perfeitamente dar origem a um outro álbum. É nisso que estou concentrado agora, no próximo disco.
Já estás a trabalhar em músicas novas?
Sim, já tenho algumas.
E dirias que será uma continuação directa de Mudbrown ou estás a explorar outras sonoridades?
Acho que se pode dizer que é uma continuação. Ao mesmo tempo, é bastante diferente. Sinto que representa uma evolução muito grande. Acho que o Mudbrown foi um disco em que ainda estava à procura desta linguagem sonora. Agora sinto que finalmente encontrei esse som. Sinto-me muito mais confortável dentro dele. Consigo expressar-me melhor. Mas, sim, diria que existem muitas semelhanças entre os dois discos. Acho que todos os artistas, independentemente dos géneros que experimentem ou das direcções que tomem, acabam sempre por ter uma identidade própria, um som que permanece reconhecível. E penso que isso também acontecerá comigo.
Imagino que os teus trabalhos anteriores também tenham sido fundamentais para construíres essa identidade.
Sim, completamente. Mesmo quando volto a ouvir os meus discos mais antigos — coisa que, aliás, não gosto muito de fazer — consigo perceber que, mesmo naquela fase em que fazia música mais etérea, mais espacial, mais virada para o design sonoro, já existiam elementos que continuam presentes naquilo que faço hoje. No fundo, tudo gira em torno da identidade.
Estás agora a apresentar este disco ao vivo na Índia, certo? Quantos concertos vais fazer?
Apenas três. A Índia tem três grandes cidades onde existe uma verdadeira cena de música ao vivo. Como nasci em Bombaim, o primeiro concerto será lá. Esse primeiro espectáculo será bastante ambicioso. Vamos subir ao palco com uma banda de dez elementos. A logística está a dar-me cabo da cabeça, mas acredito que vai valer a pena. Temos uma secção de sopros, percussionistas, coros, teclistas… Enfim, uma formação completa. Depois, para os concertos nas restantes cidades, viajaremos com uma formação mais pequena. Serão espectáculos mais íntimos. Seguimos para Goa e terminamos em Bangalore.
Pergunto também por curiosidade, porque conheço muito pouco o panorama musical indiano: existe actualmente um circuito de R&B e neo-soul na Índia?
Está a começar a surgir. Existe muito hip hop e de enorme qualidade. Aliás, devias ouvir uma artista chamada RANJ. Ela lançou recentemente uma mixtape muito interessante. Explora territórios entre o hip hop, o R&B e a soul. Embora talvez mais centrada na produção e nos beats do que propriamente numa abordagem neo-soul. Mas sim, essa cena está claramente a crescer. Acho que a música mais contemporânea continua a ser um nicho. Ainda não é algo verdadeiramente popular. Mas nota-se uma mudança. Hoje em dia vais a uma festa ou a um concerto e, em vez de ouvires apenas techno, começas também a ouvir house mais soulful, funk e esse tipo de sonoridades. Se tudo correr bem comigo, espero poder contribuir um pouco para essa evolução. Quem sabe… Talvez consiga ajudar esse movimento a crescer.
Espero que sim. E esses concertos decorrem em festivais ou em salas? Que tipo de espaços são?
São todos em salas de concertos. Neste momento ainda não tenho festivais marcados. Mas a ideia é precisamente utilizar estes espectáculos como uma forma de voltar a entrar no circuito dos festivais. Como houve um intervalo tão grande entre lançamentos, perdi muito do impulso que tinha anteriormente. Por isso, estes concertos servem também para mostrar aos promotores que continuo aqui: que tenho um espectáculo ao vivo, que tenho uma boa banda. É preciso recomeçar por algum lado.
Vivendo agora em Lisboa, tens também planos ou ambições de actuar na Europa? Imagino que seja mais desafiante, tendo em conta que a tua banda vive na Índia.
Na verdade tive muita sorte. Quando me mudei para Lisboa, a primeira pessoa com quem estabeleci contacto foi o Fred [Martinho, aka BERA]. Foi através dele que comecei a conhecer músicos em Portugal. A história até é engraçada. Ainda durante aquelas férias, fui a uma convenção ligada à música. Disse à minha mulher: “Vamos lá”. Não conhecíamos absolutamente ninguém. Era dos primeiros dias que passávamos em Lisboa. Vi o Fred e pensei: “Vou pedir-lhe o contacto”. Desde então apresentou-me a muitos músicos. De vez em quando também vou vê-lo tocar na Badassery. Por isso sei que também preciso de construir o meu grupo de músicos em Lisboa. Se surgir a oportunidade de tocar em festivais europeus, quero ter uma banda deste lado do mundo. Ao mesmo tempo, também trabalho como DJ. Tenho feito alguns DJ sets em Lisboa e em Londres sempre que surge uma oportunidade. Espero que essa parte da minha carreira também continue a crescer. Adorava tocar um pouco por toda a Europa.
Como DJ, é um projecto completamente diferente?
Uso o mesmo nome. A única diferença é que, quando apareço num cartaz, fica sempre identificado se se trata de um DJ set ou de um concerto. São coisas muito diferentes. Passo muito funk, muito house, sobretudo soulful house. Também muita música de Detroit e de Chicago. É mais esse universo. O Jitwam, a Natasha Diggs… É esse tipo de sonoridade.
Sentes que viver no Congo e, mais recentemente, em Lisboa também influenciou a tua música ou a tua forma de olhar para a cultura?
Sem dúvida. O Congo influenciou-me muito. Como tínhamos um restaurante, havia sempre música ao vivo. E lá existe praticamente um único grande estilo de música ao vivo: a rumba congolesa. Se ouvires o disco, consegues encontrar algumas dessas influências. Há muitas congas. Não diria que o álbum é propriamente influenciado pela rumba congolesa, mas certamente deixou marcas. Quando passas praticamente 24 horas por dia rodeado daquela música, é inevitável que alguma coisa acabe por entrar na tua linguagem musical. Aliás, uma das pessoas que participam no disco era cozinheiro no nosso restaurante. É ele quem faz o monólogo na primeira faixa.
Ah, a sério?
Sim. Escrevi um pequeno texto e entreguei-lho. Disse-lhe apenas: “Quero que o digas à tua maneira. Fala com o coração. Diz aquilo que sentires”. Foi assim que gravámos essa parte. Quanto a Lisboa, acho que a influência foi diferente. Além dos encontros com o Fred e a Badassery, não tenho assistido a muita música ao vivo. Mas aquilo que Lisboa realmente me deu foi tempo. Tempo e tranquilidade. No Congo nunca conseguia parar. Era tudo demasiado intenso, demasiado caótico. Aqui, pela primeira vez, consegui sentar-me calmamente e concentrar-me em terminar o disco. Essa paz foi provavelmente a maior influência que Lisboa teve neste álbum. Há também uma história engraçada. Tinha uma música praticamente terminada. Era apenas uma faixa com congas. Não tinha uma bateria propriamente dita. Um dia estava a passar pela Feira da Ladra. Tinha a música a tocar nos auscultadores. Ao mesmo tempo havia um grupo a tocar bossa nova ao vivo. Quando passei por eles, o ritmo da bossa nova misturou-se com aquilo que eu estava a ouvir nos fones. Foi um momento curioso. Cheguei imediatamente a casa e alterei completamente o groove dessa música para uma batida de bossa nova. Essa canção acabou por ser a “Money”, que está no álbum. Portanto, claro que viver em Lisboa também acaba por influenciar a música, às vezes de formas completamente inesperadas.
Acho isso muito interessante. Nós vivemos numa sociedade extremamente globalizada. Tu fazes música inspirada em discos como o Voodoo, do D’Angelo, como disseste, e podes estar em Lisboa ou em Mumbai e continuar a fazer exactamente esse tipo de música. Mas, ao mesmo tempo, existem sempre pequenas nuances, pequenas influências dos lugares onde vivemos e das experiências que temos. E isso parece-me fascinante. Ao mesmo tempo, acho que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, que goste de R&B, neo-soul e dessa linguagem musical, consegue ouvir o teu disco e identificar-se com ele. Não me parece um álbum particularmente ligado a uma geografia específica. Percebes o que quero dizer? Imagino que também olhes para o teu projecto dessa forma, sem fronteiras.
Sim, completamente. Acho que este disco tem qualquer coisa para toda a gente. Sinto que é daqueles álbuns que vão crescendo lentamente. Não é um disco que vá tornar-se viral de um dia para o outro. Não é aquele tipo de música que, de repente, toda a gente começa a usar em vídeos nas redes sociais. Não me parece que seja esse o destino dele. Acho que vai chegando lentamente às pessoas. Vai circulando entre ouvintes. Vai encontrando o seu público. Mas também acredito que será um disco que ficará. Que continuará a ser ouvido durante bastante tempo. Acho que, acima de tudo, mal posso esperar para lançar o próximo disco. Está a ficar muito bem. Lembras-te de eu falar daqueles pequenos loops que ia fazendo no Congo? Acho que esse processo acabou por se tornar o meu método de trabalho. Hoje em dia continuo a fazer exactamente a mesma coisa. Concentro-me apenas em criar pequenos excertos de cerca de um minuto. Depois, quando estou com a banda, desenvolvemos essas ideias. Neste momento já tenho uma série desses loops preparados. Por isso, acredito que o próximo disco possa surgir mais cedo do que as pessoas imaginam.
Fazes também muita pós-produção? É um processo longo?
Sim. Acho que é precisamente aí que está a maior parte do trabalho. É difícil dizer quanto tempo demora exactamente, desde o primeiro esboço até à versão final. No caso do Mudbrown, houve muitas interrupções, porque eu ainda trabalhava no restaurante. Existiam grandes intervalos entre as várias fases do processo. Agora isso já não acontece. Por isso acredito que tudo possa avançar muito mais depressa. Continua a ser um processo demorado, claro. Mas depende muito do tempo que tens disponível e, acima de tudo, da paixão que colocas naquilo que fazes.
E, já agora, porque escolheste Mudbrown como título?
No Congo existe o rio Congo. A água tem uma cor castanha muito intensa por causa da lama. É um castanho muito rico. Há uma expressão muito conhecida por lá que diz que, depois de beberes aquela água, regressarás sempre ao Congo. Que o Congo ficará para sempre dentro de ti. Uma parte de mim queria muito sair de lá. Nunca consegui sentir que aquele fosse realmente o meu lugar. É uma realidade muito diferente. Mas outra parte de mim queria também prestar homenagem ao facto de o Congo fazer agora parte da minha vida para sempre. Consegui partir. Mas tudo o que vivi lá acompanhar-me-á sempre. Foi por isso que dei ao álbum o nome do rio Congo. Por causa dessa ideia de que, depois de beberes aquela água, aquele lugar passa a fazer sempre parte de ti. Foi daí que nasceu Mudbrown.