Ikonoklasta e a criação “por impulsos, espasmos, palpitações que tornam urgente comunicar ou exteriorizar sentimentos”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Jorge Vaz Gomes

Ikonoklasta acaba de lançar um novo tema solto. “Meio Demónio” tem produção de Syn e grafismo com assinatura de Pedro Coquenão e Kioko.

Actualmente mais ligado à vertente de activista, Luaty Beirão tem sido um dos rostos principais na luta contra o regime que se encontra no poder de Angola há quatro décadas. Em 2016, editou o livro homónimo que serviu como diário do seu encarceramento em 2015, depois de ter sido formalmente acusado de conspirar contra o presidente José Eduardo dos Santos.

No final de 2017, Ikonoklasta fez o upload de grande parte da sua obra para o canal que gere no YouTube. Um ano antes, Portugal recebeu-o no Musicbox, ao lado de MCK, seu companheiro na dupla Ikopongo, que está neste momento a “cozinhar” um EP, revelou ao Rimas e Batidas.

“Meio Diabo” é o regresso aos temas a solo e com um sabor bastante português: Syn, anteriormente conhecido como Syniko, é um produtor do colectivo eborense Sistema Intravenoso e assina a concepção da batida do tema, ele que é também apontado também por Luaty Beirão como o possível beatmaker para o EP de estreia dos Ikopongo.

 



Começando pelo aspecto prático da coisa: o que é este “Meio Demónio”? Single solto, primeiro passo para um álbum?

Single solto. Continuo a fazer música como sempre fiz, por impulsos, espasmos, palpitações que tornam urgente comunicar ou exteriorizar sentimentos. Não quero ter a pressão do “passo seguinte”. Estou a desfrutar de um novo ciclo criativo e tenho dois ou três projectos com manos nos quais me quero focar.

Estás a voltar a reclamar uma dimensão artística para a tua vida com este lançamento? Em que medida é que tudo o que aconteceu na tua vida nos últimos anos transformou o MC?

Com quase 37 anos que carrego, já não venho mais para reclamar nada (se é que alguma vez o fiz). É terapia. A música iria simplesmente ser colocada no YouTube, sem anúncio nem esta coisa tão oficial se não tivesse sido o meu mano Pedro (Batida), que sempre me dá muito mais crédito do que aquele que me dou a mim próprio e me sugeriu que fizéssemos uma edição digital. Foi ele que fez a ponte com a Suzy d’A Lata, que foi super querida desde a hora “zero” e dinamizou o processo para que eu tivesse, depois de 8 ou 9 mp3chos, uma música “normal”. Tudo o que aconteceu nos últimos anos impactou e vai continuar a impactar a minha arte de forma indelével e absolutamente incontornável. O meu único receio é tornar-me redundante e por isso, se calhar, não sou tão prolífico a nível de colocar música fora com regularidade.

Quem é o Syn que assina o instrumental? Que tipo de instrumental procuraste para este regresso?

O Syn (anteriormente conhecido por Syniko) é um produtor com quem me cruzei há bué de anos quando girava com o meu tropa VRZ. Pertence ao Sistema Intravenoso e produziu muitos temas para a malta dessa crew. Recentemente os nossos caminhos voltaram a cruzar-se, ele continua a produzir instrumentais com uma musicalidade que eu aprecio e eu continuo a fazer rap. Mostrei os beats dele ao MCK e o que se sucedeu é que ele irá provavelmente produzir todos os instrumentais do EP de Ikopongo que estamos a cozinhar. Então tem sido um reencontro feliz. Quanto ao “Meio Demónio”, eu rabisquei umas frases, depois fiz uma demo num instrumental do Kiefer, um artista da Stones Throw, o “Ghosted”. Enviei-lhe a demo a ele e ao Faradai para ver se algum deles me respondia com um original. O Syn enviou-me um beat bem fixe, mas um pouco mais rápido. Ele próprio disse preferir a demo no instrumental do Kiefer do que no dele. Finalmente pediu-me o acapella da demo (tinha gravado no telefone) e no dia seguinte retribuiu-me o primeiro draft do que viria a ser o instrumental final. Foi um processo criativo bué interessante e eu gostei muito do resultado final.

Como observas o que se tem passado no universo do hip hop nestes últimos 5 anos, tanto na galáxia da lusofonia como no universo mais vasto e global?

Infelizmente, nos últimos anos não tive muito tempo para acompanhar a par e passo o movimento, mas constato com algum agrado que a forma como se vê o género/cultura distanciou-se bastante da conotação pejorativa de outrora e os espaços que lhe são concedidos aumentaram vertiginosamente. Parece-me que, mesmo num mercado tão pequeno como é Portugal (e porque a lusofonia ainda não vai nos dois ou três sentidos que poderia ir, pensando no nosso irmão gigante, o Brasil), já começa a haver quem consegue fazer pela vida sendo apenas artista. Apesar de haver uma sensação de saturação, de excesso de bosta que naturalmente acompanha os fenómenos mainstream, há também muitos miúdos novos muito bons. É só lembrar que houve um tempo em que os artistas hip hop praticamente pagavam para cantar em festivais. Fez-se bom caminho.

Finalmente, um meio demónio é também um meio anjo?

Não necessariamente. Pode ser estafermo metade do tempo e apenas um tipo normal, fazendo o que se espera de seres humanos que não sejam demónios completos.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira