Não é todos os dias que temos acesso a um vislumbre do futuro bem diante dos nossos olhos. O passado sábado, 18 de Abril, foi um desses dias, com o palco do rés-do-chão da Casa Capitão a transformar-se numa bola de cristal que nos mostrou como o “amanhã” da pop nacional vai soar. Por entre a névoa que turvava a visão dentro da esfera — não devido a um sistema de emanação de fumo, mas sim pelo vapor de água que ebulia dos corpos presentes (fazemos figas para que haja sistema de refrigeração quando o calor se fizer sentir mais a sério nos meses que se avizinham) — um Herlander confiante acabaria por surgir em cena pouco após a hora marcada para se apresentar diante o público diverso que compunha a sala reservada em seu nome — feito de muitos fãs anónimos, artistas com créditos firmados na indústria, comunidades queer que queriam testemunhar em direto a ascensão de um novo ídolo, hipsters à procura de decifrar a next big thing e amantes da cultura urbana que aceitam a estética (visual e sonora) de Herlander como sendo parte da visão que defendem.
Tinha tudo para ser um acontecimento marcante para a música alternativa em Portugal em 2026 e, em grande medida, confirmou esse potencial. Herlander subiu ao palco com um casaco cheio de tags e cores, apetrechado ainda com um sistema de luzes que piscavam para dar vida a um outfit original — mais um nas contas deste que tem sido um trendsetter a operar nos diversos quadrantes dos circuitos mais marginais da cultura. O objetivo era claro: apresentar formalmente ao vivo a sua tão ansiada CÁRIE, dada a conhecer em disco um mês antes e anunciada não como um álbum de estreia, mas como uma mixtape — uma espécie de derradeiro estágio antes de podermos finalmente ver a borboleta a voar em toda a sua exuberância e magnificência. A arte de Herlander faz parte do “agora” e espelha na perfeição o que vivemos nos dias de hoje, mas fica a sensação de que a mente irrequieta deste criativo está já a traçar os próximos passos e sabe, inclusive, que tem trunfos para abafar este presente com o que nos reserva para o futuro.
Não foi à toa que o concerto chegou ao fim com a plateia inteira a chamar pelo seu nome em uníssono. E nem soou a pedido para um encore, mas mais a um coro de apreço pela ideia vanguardista de música pop que este artista tem defendido. Foi, sem dúvida, um selo de aprovação genuíno, principalmente se tivermos em conta o quão “pequeno” Herlander ainda é — com uns poucos milhares de ouvintes mensais e reproduções divididas por todo o alinhamento de CÁRIE nas plataformas digitais. Não foram poucos — bastantes, até — os espectáculos que já assistimos em que o público parece meio desfasado do que está a acontecer em palco e rapidamente vira costas à primeira ameaça da música cessar. Se para Herlander isto pode ser o viver de um sonho, para nós é bem real e palpável: uma das vozes que vai ajudar a ditar as tendências musicais por cá nos anos que se seguem está bem aqui à nossa frente e soa a autêntico como muito poucos, sem gimmicks, sem novelas, sem pretensões, sem bullshit.
Na sua essência, CÁRIE é um manifesto arrojado de como a música nas camadas mainstream pode conseguir soar quando existe audácia em abraçar a originalidade e cortar pela raíz o pecado da cópia ao vizinho do lado. Herlander soa diferente não porque veio de outro planeta (embora possa até parecer…), mas porque não tem medo de mostrar quem realmente é e não está preocupado com o engajamento fácil. A sua arte soa a algo inédito, mas está recheada de referências que são partilhadas com muitas outras pessoas. É revivalismo Y2K maximalista que nos atira à cara telemóveis antigos da Nokia, Tamagotchis, janelas do MSN Messenger e logotipos de Hannah Montana, ao mesmo tempo que nos esfrega os ouvidos com batidas de clube, samba ou kizomba e um jogo de influências variadas que vai do R&B mais concreto à eletrónica experimental, encontrando beleza moderna em estéticas arcaicas — muitas vezes esquecidas, mas altamente relatable — através de um minucioso trabalho laboratorial tanto ao nível musical como visual. Herlander está a mostrar-nos o terreno que se segue para que possamos dar passos em segurança, mas o seu mapa foi traçado com recurso ao conhecimento arqueológico do que veio antes de si.
A noite só não foi perfeita porque, de certa forma, se assemelhou por vezes ao que poderia ter sido uma listening party mais informal. O estado do microfone não estava digno de um concerto — foram muitas as vezes em que a voz live simplesmente sumia —, e mesmo quando estava, o excesso de vozes pré-gravadas retirava frescura ao momento, soando a uma réplica do que se escuta em disco, e não deixava perceber ao que é que soa afinal Herlander fora do estúdio. Sem banda nem instrumentais recriados em direto, o cantor do Seixal “apenas” adocicou a performance com algumas coreografias e um carisma inigualável para lidar com a audiência e dar expressão aos diferentes sentimentos — da saudade ao amor — que a sua música manifesta. “deixa-me em paz”, “vertigens”, “modo incógnito”, “vai bem.” e “bembang” são temas que vão ficar cravados na cronologia de 2026 da música portuguesa e provam o bom gosto que Herlander tem para escolher singles, havendo ainda pérolas como “dizdizdiZ!” ou “egoooo” e “24” espalhadas pelo alinhamento de CÁRIE e que arrancaram muito boas vibrações do público ao longo do concerto. Já “djeni” foi o oásis que nos permitiu escutar o artista no seu estado mais puro, uma redenção despida de batida e sem as tais vozes “trazidas de casa” para mascarar o que era debitado ao vivo no sistema de som da Casa Capitão.