GROGNation: “Fizemos este álbum como se fosse o último”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [FOTOS] Sara Falcão/Daniel Nicolau [CAPTAÇÃO VÍDEO] Daniel Nicolau [EDIÇÃO] Luís Almeida

Depois das mixtapes Segunda Vaga e Dropa Fogo e dos EPs Sem Censura e Na Via, os GROGNation de Algueirão/Mem-Martins editaram este domingo, 30 de Abril, o seu primeiro álbum, Nada é Por Acaso. Alguns dias antes, o Rimas e Batidas encontrou-se com Harold, NastyFactor e Papillon no estúdio do colectivo que também é composto por Neck e Prizko.

Foi ali que tudo foi gravado, explicam-nos. E também a isso se deve a ausência de quase dois anos — Na Via foi editado em Junho de 2015. O estúdio demorou cerca de um ano a ficar pronto e foi montado pelo próprio colectivo. As primeiras faixas de Nada é Por Acaso começaram a ser preparadas no Verão de 2016 — o primeiro single, “Molio”, foi mostrado pela primeira vez num concerto na Festa do Avante, em Setembro. Até ao final do ano, tudo seria delineado e pensado — incluindo os vários ciclos conceptuais que o álbum tem e que nos foram explicados pelo grupo.

A maior parte das gravações e várias faixas só foram concretizadas a partir de Janeiro, durante os primeiros meses de 2017. O disco seguiu então para ser misturado e masterizado na Superbad. de Here’s Johnny. Além do conceito de Nada é Por Acaso, sentámo-nos para falar com os GROGNation sobre outros pormenores importantes sobre o disco.

 



A palavra álbum traz mais responsabilidade e tem mais peso e por isso é que também fez sentido lançarem quatro trabalhos anteriores, para terem tempo de amadurecerem?

Papillon — Acho que é exactamente isso que estás a dizer. Nós tínhamos a consciência, até começarmos a fazer este álbum, que ainda não era a altura de lançarmos um álbum que fosse intitulado GROGNation. Que tivesse o nosso nome. E acho que, termos tido essa paciência, para chegarmos agora com este projecto, e mostrarmos supostamente este primeiro álbum que se calhar muitas pessoas que não ouviram falar sobre nós até então vão ter oportunidade de ouvir, é a primeira impressão que nós queríamos dar. Foi bom termos tido a paciência para esperar pelo timing certo para lançar este projecto agora. Porque achamos que é a altura em que sabemos o suficiente, temos a experiência suficiente para executar tudo na forma como foi executado neste álbum. Demos praticamente tudo. Fizemos este álbum como se fosse o último. Se não houver outro álbum da GROGNation, fico muito satisfeito com este que fizemos agora.

Já nos estiveram a explicar o conceito que forma o disco. Como funcionam em colectivo para definir essas coisas? Trazem ideias de casa, obrigam-se a sentar para falar sobre isso?

NastyFactor — Os dois. Acontece com o que quer que seja, mesmo até merchandising ou videoclipes. Pode surgir de conversas em viagem, de uma ideia de alguém, pode surgir da ideia de dois ou três ou de quatro a conversar.

Harold — Quem se sentir mais inspirado dá logo a ideia. E isso acontece bué nos videoclipes. Há vezes em que um gajo tem uma ideia para um videoclipe e apresenta e basta o pessoal concordar. Assim como os temas das músicas e tudo mais. Às vezes é em conversa, estarmos aqui no estúdio e lembramo-nos de uma cena que origina ‘olha vamos falar sobre isto’. Outras vezes alguém vem com uma ideia de casa e mostra ao resto do pessoal e avançamos com a cena. Ou às vezes é uma ideia que eu tenho, trago e todos mexemos de tal maneira que criamos uma ideia nova. Acabam por ser vários processos e nunca um só.

Sendo vocês cinco, como escolhem quem entra para rimar nas faixas? Estão a ouvir os beats

P — É orgânico. Entra quem estiver a sentir que pode trazer alguma coisa para o som.

É sempre uma decisão própria, da pessoa?

P — Sim, ninguém vai ser obrigado a entrar onde não quer entrar. Por exemplo, há um som que temos que é o “Distante”. Na altura, todos eles estavam na mesma página, em termos de se expressarem naquela vibe. Eu não estava a sentir, não é porque não gostasse do beat ou do tema. Simplesmente naquela altura da minha vida não estava muito para aí virado, senti que não fazia sentido entrar. Então entraram eles os quatro, fez-se um grande som e é um dos nossos mais fortes. O processo é o mesmo neste projecto. E em todos. Se bem que é sempre uma batalha porque nós somos cinco. Se entramos os cinco a rimar 100 barras tens um documentário [risos]. É complicado. Mas é tentar gerir um bocadinho esses passos que cada um pode trazer, mas ao mesmo tempo também equilibrar com a cena de ser orgânico. Depois é tentar lapidar e ver se entra mais tempo ou menos tempo. Isso é uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo, porque queremos começar a gerir isso um bocadinho melhor. É óbvio que tem de continuar a ser orgânico mas temos de tentar ser um bocadinho mais contidos, vá, e não querer vir cada um com 60 barras.

 


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Em Na Via, foi o NastyFactor que tomou conta dos instrumentais, agora contam com vários outros produtores, tal como em Sem Censura. Aconteceu porque, como era o álbum, queriam ter mais instrumentais de outros produtores, porque também é isso que são os GROGNation e aquilo que vocês fizeram no passado, ou por também ser maior?

H — Estávamos naquela fase de que já tínhamos feito um EP, em que a ideia era ser todo produzido pelo NastyFactor, e estávamos mesmo na cena do álbum já ter várias sonoridades. Se calhar no EP concentrámo-nos numa onda, que é a onda que o Factor produz e que também todos nós nos identificamos, e no álbum acabou por ser um misto de várias sonoridades. Sabemos que há produtores como o Cálculo que têm aquela onda mais soulful e depois temos o Juzicy que sentimos que tem essa onda assim mais fresh, o Fabrice… Então fomos juntar essas cenas que nós sentimos e também producers com que trabalhei no meu álbum, o que acabou por facilitar essa ligação. Mas se tivesse sido tudo produzido pelo NastyFactor, outra vez, podia ter sido. Deixámos a cena acontecer naturalmente e fomos buscar os produtores que nós sentimos, com os quais nos identificamos, fomos ouvir as cenas…

Já os conheciam todos?

H — O único que não conhecíamos mesmo era o NeoBeats.

NF — Que é do Brasil. Porque, de resto, o Juzicy deve ter sido o que conhecemos há menos tempo. Mas ainda assim bulimos com ele já depois de o conhecermos.

H — Tivemos aquela interacção na Big Bit. Estava lá o Lince e a Cat [Boto]. E ouvimos as cenas dele lá e trocámos contactos e tudo mais.

NF — Ainda por cima, na altura ele estava a viver aqui muito perto de nós, até lhe demos boleia para casa e tudo. Pelo caminho deu para estreitar um bocadinho a relação. Entretanto o Harold falou com ele, ele mandou algumas cenas. Mas de resto conhecemos todos os produtores: alguns mesmo já há alguns anos.

Sim, há vários com os quais vocês já tinham colaborado. Em relação a outros possíveis rappers e participações de vozes, só têm a Rebeca Reinaldo…

NF — São umas vozes adicionais só para dar uma caminha…

Porque é o álbum dos GROGNation e então é só o álbum dos GROGNation, é isso?

P — Exactamente, é um bocado isso e também aquilo de que falámos. Porque nós somos cinco e já é difícil gerir cinco pessoas numa faixa. Não é que não possa acontecer e já aconteceu, na maioria das vezes é para fazer refrões e coisas do género, mas tem que fazer mesmo sentido. A pessoa tem mesmo de trazer uma coisa que nós sabemos que é aquilo que nós queremos para meter na faixa. Fora isso, nós podemos fazer qualquer coisa. Já somos cinco pessoas diferentes, com perspectivas e flows diferentes. Normalmente quando se fazem featurings, das duas uma: ou é para haver aquela ligação de sonoridades ou de ouvintes, ou, normalmente, é para a pessoa que vem de fora trazer algo diferente para os sons. Quando chegarmos a uma fase em que os nossos sons já estão a ficar muito repetitivos, se calhar nessa altura faz um bocadinho mais sentido estar a trazer uma pessoa diferente para trazer uma cena mais fresh. Mas, até lá, acho que damos conta do recado.

H — Ao mesmo tempo, também curtimos de trabalhar com outras pessoas. E é uma cena diferente, às vezes darmos essa surpresa ao pessoal de apanharem GROGNation e outra pessoa. Grande parte dos featurings que temos é com pessoal como o Mike Find Mind, Bispo, assim mesmo Grog… e depois só tivemos no nosso EP Sem Censura, o NBC, Landim e o Sir Scratch. E há [uma faixa anterior] com o Pofo, que é o pessoal com que nós começámos a rimar. Mas vai haver mais, de certeza.

 


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A capa do álbum mostra-vos sentados num carro que tem uma ligação especial com vocês. De quem é o carro?

NF — Era meu.

Já não existe?

H — Existir existe [risos].

NF — Não sei se existe ou se já foi [risos].

P — De certa forma, o carro representa o nosso caminho. Nós, enquanto grupo, para irmos a algum lado íamos sempre naquele carro, os skits da Dropa Fogo foram feitos naquele carro. E foi um fio condutor para muitas das coisas que fizemos. Fizemos ensaios ali todos apertados, a meter os instrumentais e a rimar ali, reuniões que queríamos ter e não dava para ser em casa de ninguém… antes de termos isto [o estúdio onde fizemos a entrevista]. Fez parte do nosso percurso durante muito, muito tempo. Até há muito pouco tempo. Isto representa o nosso caminho, estávamos a ir para algum lado e aquilo era o nosso veículo.

Já estão a pensar em apresentar o álbum ao vivo ou não para já?

H — Está a ser estudado. Ainda não temos datas, mas Lisboa e Porto é certo. Vai acontecer.

P — Mas não vai demorar muito tempo até anunciarmos tudo.

Em relação à versão física do álbum, vai estar logo disponível?

H — À partida, na semana seguinte. Correu tudo bem, a única coisa que falhou mesmo foi a questão de recebermos as cópias no dia 30. Mesmo porque a própria fábrica — que é onde fazemos sempre os nossos CD e não queríamos estar a mudar — está naquela época com mais trabalho. Mas as cópias físicas vão chegar e temos o email para o pessoal fazer reserva [grognation.encomendas@gmail.com]. Até porque as primeiras cópias vão ser limitadas. [O preço é 10€].

P — As cópias devem chegar com uma semana e meia de atraso, no máximo.

Em relação a outros possíveis trabalhos vossos, o Harold lançou no ano passado o álbum dele, o Neck está a preparar uma mixtape, o Prizko lançou uns temas a solo, vocês têm aí projectos na calha, ou nem por isso?

P — Estamos a trabalhar para isso. Vamos ver. Agora o foco é neste álbum e é aqui que temos de concentrar as nossas energias. É óbvio que estamos aqui com frequência a trabalhar e a fazer música. Agora que fizemos isto estamos quase sempre aqui. Pelo menos o NastyFactor está quase sempre aqui. O objectivo é continuar a fazer música, seja em grupo ou sozinho. Mas só o futuro dirá o que pode sair por parte de quem. Mas agora temos um álbum grosso com muita substância para consumir e acho que vão ficar satisfeitos até sair outra coisa da nossa parte.

H — Eu devo pôr mais um ou dois vídeos do meu álbum. Pelo menos um. Também ainda não sei datas, mas deverá ser na altura do verão.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha