Nascida em Pereira, na Colômbia, Lucrecia Dalt começou a vida profissional como engenheira geotécnica em Medellín — mas foi também nessa cidade que descobriu a produção musical assistida por computador, num desvio que mudaria o rumo da sua vida. Dois anos depois de terminar a licenciatura, trocava os relatórios de solos por sínteses e sequências. Desde então, construiu um universo sonoro que mistura composição eletrónica, raízes tropicais colombianas e uma voz inconfundível. A Danger to Ourselves, o seu mais recente álbum, foi editado em Setembro do ano passado pela RVNG Intl. e coproduzido com David Sylvian, seu companheiro.
O novo LP representa uma viragem sensível no seu percurso. Em registos anteriores, Dalt habitava narrativas ficcionais e alter-egos artísticos, mas agora vira a câmara para si própria. A Danger to Ourselves nasceu de apontamentos que foi fazendo durante a digressão de ¡Ay! (2022) e nos primeiros tempos de um novo relacionamento, que desaguaram num conjunto de canções sobre o desejo físico e a ligação emocional que acompanha o florescimento do amor.
Lucrecia Dalt está agora em Portugal para duas datas: ontem já atuou no B.Leza, em Lisboa, e hoje passa pelo palco do Theatro Circo, em Braga, onde apresenta ao vivo este trabalho que é, simultaneamente, o mais pessoal e o que mais se aproxima da estética pop em toda a sua discografia. No palco, a colombiana radicada em Berlim traz a sua peculiar fusão de percussões orgânicas e futurismo eletrónico, num espetáculo que conta com a participação do baterista Alex Lázaro e do baixista Cyrus Campbell.
A conversa que se segue atravessa vários dos nós que definem este momento na carreira de Lucrecia Dalt: a recusa de qualquer fórmula fixa como gesto de sobrevivência criativa, o modo intuitivo e físico como aborda a composição, o papel que a arte pode ainda desempenhar num mundo de aceleração e sobre-estimulação, ou a tensão entre a legibilidade e a opacidade como escolha estética — coordenadas importantes para melhor perceber o éthos da criadora por detrás da música que esta noite se escutará na mais emblemática sala bracarense.
Este novo espetáculo ao vivo parece destacar um lado particularmente íntimo e emocionalmente exposto do seu trabalho. No palco, interpretar estas canções é como encarnar uma personagem, revisitar estados emocionais vividos ou algo completamente diferente?
Ambas as coisas. Quando comecei a apresentar Anticlines há alguns anos, descobri um novo lado de mim que só ganha vida no palco. Desde então, tem sido uma questão de encarnar, sentir e fortalecer esse lado de mim. Adoro olhar para o público e observar as suas expressões, ao mesmo tempo que sou levada pelas emoções de cada canção. O objetivo final é ter os aspetos técnicos tão incorporados que me permitam fluir numa sensação de ausência de corpo, focada exclusivamente no som, quase esquecendo-me que tenho um cérebro.
A sua prática oscila com fluidez entre a composição de canções, a composição experimental e a criação de bandas sonoras para cinema e televisão. Quando leva a música para o palco, o espetáculo ao vivo torna-se um ponto de encontro entre essas diferentes linguagens, ou a atuação exige uma mentalidade completamente diferente?
A atuação é algo muito distinto para mim; trata-se de viver plenamente o presente, fluir com a energia do público, gerir o meu próprio estado e responder ao som no espaço.
A Danger to Ourselves parece ser um dos seus álbuns mais emocionalmente diretos e vulneráveis. O que mudou na sua vida criativa que tornou possível este grau de abertura?
Senti uma forma de amor que nunca tinha sentido antes. E foi isso, por si só, que me levou a escrever isto.
Os álbuns anteriores pareciam, muitas vezes, funcionar através de uma distância ficcional, da abstração ou de personagens construídas. Este álbum parece, de alguma forma, menos protegido. Trabalhar nesse registo foi libertador, inquietante ou ambas as coisas?
Não sei bem o que quer dizer com “protegido”, pois sinto-me bastante exposta neste álbum por ter incluído tantos pensamentos íntimos nele.
Há uma tensão fascinante ao longo do álbum entre intimidade e ameaça, ternura e desestabilização. Interessa-se conscientemente por essas contradições emocionais, ou elas surgem naturalmente durante a composição?
Acredito que estas contradições são algo que nós, enquanto artistas, vivemos no nosso dia-a-dia. Por vezes, a poesia desdobra-se diante dos nossos olhos, e pode demorar anos a descodificar o que escrevemos. Escrever também pode, por vezes, ser premonitório, ou pelo menos foi isso que experimentei com este álbum, e é possível descobrir novos significados com o passar do tempo. Por exemplo, depois de ler o incrível livro El pensamiento erótico, de Sara Torres, comecei a sentir que “Agüita con sal” se relaciona com temas explorados nesse livro, especificamente em torno da ideia de delírio nas mulheres apaixonadas. A frase “pone con ardor la vida en el lenguaje, es decir, delira” fala disso.
Este álbum parece ocupar um espaço onde a espontaneidade melódica e o instinto experimental coexistem de forma muito natural. Categorias como “pop” e “experimental” têm algum significado para si quando compõe música, ou são apenas rótulos externos?
De todo enquanto estou a compor, mas recorro a essas categorias se precisar de explicar o que faço. Para este álbum, senti simplesmente a necessidade de cantar e de me desafiar no treino necessário para fluir nessa expressão. Quanto ao rótulo “experimental”, diria que adoro sons e acho fascinante quando ouço algo que nunca tinha ouvido antes. Sempre gostei de música que mistura diferentes formas livremente e sem complexos.
Uma das coisas que mais impressiona na sua discografia é a sua constante transformação — parece nunca estar interessada em se acomodar numa fórmula reconhecível. Isso é motivado pela curiosidade, pela insatisfação ou por uma necessidade criativa mais profunda?
Limitar-me a uma fórmula significaria que estou deliberadamente a deixar de ser artista e, por conseguinte, a matar a minha verdadeira natureza. A mudança e a criação estão no cerne da minha existência, e encontro sentido à medida que aprendo e exploro as possibilidades.
Quando começa a trabalhar com uma nova ideia musical, o que lhe diz que ela contém algo que vale a pena explorar? Essa decisão é intuitiva, intelectual, emocional ou física?
Absolutamente intuitiva e, obviamente, emocional. Às vezes, é física e intelectual nas fases finais, como ao escrever letras ou fazer a mistura.
Estamos a viver um momento de aceleração, sobre-estimulação e ansiedade coletiva. O que acha que a arte ainda pode oferecer, se é que pode oferecer alguma coisa, como forma de resistência ou orientação?
Identifico-me muito com esta ideia, pois sinto que a arte é indispensável neste momento. Ultimamente, quando atuo, ouço comentários de pessoas a dizerem o quanto precisavam de uma experiência como aquela, e isso toca-me profundamente porque me faz perceber o quanto precisamos de momentos de pausa, de imersão e de permitir que o som nos transporte para fora dos enigmas das nossas próprias mentes. Por isso, fico feliz por poder contribuir para isso!
O seu trabalho raramente parece abertamente didático, mas transmite uma forte consciência da corporeidade, da identidade, do deslocamento e da tensão emocional. A arte precisa de responder explicitamente ao mundo que a rodeia, ou basta absorver e transformar a experiência?
A arte pode responder explicitamente, claro! Para mim, parece-me muito mais uma questão de absorver e transformar. No entanto, gosto de pensar que ainda há algo de misterioso nisso. Como alguém que não teve formação em teoria musical, eu simplesmente deixo-me levar. É como uma corrente — ligas-te a ela e, às vezes, ela está simplesmente lá, alta e clara. Outras vezes, só precisas de esperar e, no momento mais inesperado, a ideia surge-te, como um fantasma, na tua cabeça.
Os artistas contemporâneos são frequentemente pressionados a serem sempre compreensíveis, explicáveis e acessíveis em termos de conteúdo. O seu trabalho resiste, muitas vezes, a uma leitura fácil. Será que a opacidade ainda pode ser um gesto artístico — ou mesmo político — significativo?
Não parto da premissa de resistir à legibilidade ou de ser opaca de propósito; simplesmente entusiasmo-me com o que faço e trago-o para o mundo, na esperança de que alguém por aí encontre ressonância nisso. O desafio reside em descobrir como navegar na realidade atual, orientada para o conteúdo. Estou constantemente a debater até que ponto devo envolver-me nela e em que medida isso serve simplesmente para descobrir o que é mais importante para mim — a música.