O álbum de estreia de Tayob J., reconhecido produtor a operar há vários anos no campo do hip hop (mas não só) em Portugal, chegou finalmente esta quinta-feira, 11 de Junho. A Beleza do Erro já tinha sido antecipado com o single “Na Vanguarda de Mim Mesmo”, com participações de Rashid e Dino D’Santiago, e o disco completo pode agora ser escutado nas plataformas digitais.
O músico português, com raízes polaco-brasileiras e indianas via Moçambique, conseguiu unir um leque vasto de convidados, onde se incluem nomes como Criolo, Xullaji, IOLANDA, Bateu Matou, Murta, Djodje, Projota, Vitão, Selma Uamusse, Vinicius Terra, Sir Scratch, AMAURA, Kenny Caetano, MIRZA Lauchand, Visco e Loiro.
Além dos feats ilustres e da visão que incutiu nas diferentes temáticas que percorrem o disco, A Beleza do Erro espelha o amadurecimento artístico e musical de Tayob J., um trabalho construído de forma minuciosa a partir de uma bagagem de oito anos de portas abertas no Estúdio Noiz, período em que trabalhou com incontáveis artistas.
Em entrevista ao Rimas e Batidas, fala sobre a sua estreia discográfica e aborda o ponto de viragem no seu percurso, o momento em que está mais focado do que nunca na sua trajectória em nome próprio.
O álbum chama-se A Beleza do Erro. Tens este título e conceito na mente desde que começaste a pensar fazer um álbum?
A minha ideia de fazer um álbum de produtor já existia há bué tempo. Era uma coisa que já estava na minha cabeça. Desde que comecei a fazer música que havia uma vontade de fazer música em nome próprio. Eu queria fazer beats e dar a outras pessoas, mas também queria o outro lado de ter o controlo criativo das coisas. A parte de ter um nome e um fio condutor do início ao fim veio depois. O título surgiu com a AMAURA. Estávamos a produzir o disco dela, o Subespécie, e o nome surgiu numa conversa. Eu disse-lhe: “Isso é a beleza do erro”. E ela disse que isso era um grande nome para um álbum. E eu disse logo: “É o nome do meu álbum”. Juro-te, foi ali. Portanto, o álbum já está perspectivado há algum tempo. Aliás, até há um artigo antigo do Rimas que menciona este álbum…
Porque tu já estavas a trabalhar num disco, não é? Já estavas com essa ideia, mesmo não sendo este.
Lembras-te de uma cena que fiz chamada Bring The Noiz? Fiz com o Xullaji, a AMAURA, o Beware Jack e o Fizz. Aquilo era suposto culminar num álbum. A seguir seria o Sir Scratch e havia uma série de coisas perspectivadas para aquele projeto. Só que, entretanto, a cena não se deu. Mas era suposto ser o meu primeiro álbum. Depois, pronto, surgiu esta ideia com a AMAURA, de fazer a cena com este nome. Porque também foi o nome que colou a cena. Se eu pensar nisso, A Beleza do Erro tem muitos significados. Lá para 2013 ou 2014, havia um produtor que era o Boon Doc que fazia vídeos de beatmaking no YouTube, numa altura em que não havia muita gente a fazer este tipo de conteúdo. Ele fazia muita coisa com samples na MPC mas também tocava um teclado MIDI. E ele já devia ter algum contexto, de teoria musical ou assim. E lembro-me de achar que aquilo era um caminho, acrescentar elementos tocados aos meus beats. Foi um processo muito longo, de passar de samplar para tocar. Até aquilo soar bem demorou muito tempo, as basslines estavam todas fora de tom, era tudo mal tocado. Se ouvires um beat meu de 2013, está podre, mas está ali um embrião daquilo que viria a ser… Então, A Beleza do Erro é isso. Aquilo foi um erro em que insisti durante bué tempo.
E também é a questão de trazer uma certa humanidade à música, não é? Numa era cada vez mais dominada pela inteligência artificial, em que tudo pode soar super polido.
Sim, na verdade, pode ser um statement, não é? Obviamente que não há nada no álbum que não tenha sido pensado e que não tenha a sua intencionalidade. Não estão ali as minhas primeiras abordagens. Mas é mais… como é que eu posso ser o mais honesto possível em relação àquilo que quero fazer? Nada foi feito para ser a versão mais eficaz, as coisas estão feitas para servir a arte. E é um disco sobre relações humanas, eu convidei muita gente para o disco, pessoas que nem sequer tinha noção de que poderiam entrar…
Lá está, o álbum foi acontecendo. Mas houve uma altura em que, certamente, começaste a pensar mais na estrutura da coisa, no disco como um todo, e a pensar nos convidados certos para os temas. Como é que foi essa parte?
Não houve muito um pensamento de tentar preencher sítios musicais. Acho que isso foi bem fluido. O que eu tentei sempre fazer foi… Por exemplo, no single, “Na Vanguarda de Mim Mesmo”, eu tive a ideia, estava a ver uma entrevista com um artista, e estavam a falar sobre nós, pessoal do rap, muitas vezes não termos formação musical ou qualquer escola de escrita criativa, no caso dos rappers. No final de contas, o que é que temos para oferecer? É uma ideia, não é? E isso é estares na vanguarda de ti próprio. Gostei logo desse conceito e pensei: quem é que vai pegar nesta ideia e desmontá-la da forma mais interessante possível? E lembrei-me do Rashid. E depois ainda há o processo de a pessoa pegar naquilo e transformar em algo maior. Ou seja, tive a possibilidade de chamar os meus ídolos. Deixa-me chamar as pessoas com quem sempre sonhei fazer música.
Já tinhas trabalhado com muita gente, mas existiam muitos outros com quem querias colaborar.
E nunca do ponto de vista de estratégia da indústria, mas foi uma grande forma de chegar a estas pessoas. ‘Bora chegar a elas com um conceito, explicar que estou a fazer o meu álbum e, mesmo que ainda não tenha grandes números para oferecer, musicalmente e artisticamente acho que nos conectamos. Acho que não há aqui ninguém que esteja extremamente fora do meu espectro, não é?
Porque também tens uma versatilidade enquanto produtor.
Mas no disco acho que há um contexto urbano que é transversal a toda a gente. E já me tinha cruzado com várias destas pessoas, na estrada ou onde fosse, mas ainda não tínhamos tido a oportunidade de trabalhar. E a grande cena foi trabalhar com estas pessoas em música onde tentei pôr a minha verdade, as minhas ideias e conceitos. O lado ideológico sempre foi importante para mim e aqui toda a gente está num lugar de respeito. Podemos não concordar em tudo, mas há um respeito mútuo e posso sentar-me a falar de política, de religião, seja o que for, com qualquer uma destas pessoas.
E cada vez que recebeste um “sim” importante de um convidado, imagino que isso te tenha dado motivação para ires à procura de outros.
Esse processo foi acontecendo, sim. Alguns “sim” mostraram-me que tudo era possível. Se já estamos aqui… então não custa perguntar a mais ninguém, não é? Há sempre a dica de “o não é garantido”, mas às vezes ainda não queres arriscar certas coisas. Mas aqui cheguei a um ponto em que a mentalidade já era: “Estamos em jogo”. No máximo, a pessoa diz-te que não, mas é um “até breve” ou “fica para uma próxima”. Ou seja, posso perguntar, tenho segurança em mim mesmo para isso. Alguns “sim” serviram mesmo como essa afirmação de “ya, boy, tu podes”. Se este e aquele artista aceitaram entrar no meu álbum, porque é que os outros não poderão estar? Isso ajudou-me muito a ganhar músculo, coragem, e a acreditar que esta coisa de fazer música em nome próprio possa ser um caminho. Não tem que ser um hobby dentro da minha carreira de produtor, pode ser algo que um gajo faz. Claro que é mais difícil e que há mais desafios, obviamente tens que ser mais criativo, porque o outro lado da carreira, do produtor que é contratado, que é bué fixe e que eu sempre fiz e que tenho todo o gosto em continuar a fazer se for o caso, mas não tem tanta aventura, por assim dizer. Tens que te continuar a instruir, tens que te manter bom e relevante…
Mas aí estás mais a ser um tarefeiro, não é? Estás a executar coisas que são necessárias, também elementos mais técnicos, mas não estás a colocar tanto a tua criatividade e a tua identidade nos projectos. Claro que acrescentas sempre algo, mas não estás a dar a cara por aquilo, normalmente não estás a ir para o palco…
Sim, claro que quando hoje em dia alguém me chama para produzir, acho que também já cheguei a um sítio fixe em que não me apresentam apenas uma referência daquilo que querem, de por exemplo chegarem ao pé de mim para pedir um drill. Com todo o respeito pelo estilo, mas eu nem sequer sou a melhor pessoa para o fazer. A partir de certo ponto, acho que consegui afirmar uma estética e uma forma de produzir… Eu não tapo buracos, já não vou ser o boy que faz tudo. Prefiro fazer aquilo que faço bem. Quando assino uma música, assino com a certeza de que isto é o melhor que consigo entregar. Ou seja, estive sempre a tentar ser esse produtor de assinatura, e foi o que colmatou ao longo do tempo a cena de querer fazer música em nome próprio. E este álbum não aconteceria se não fossem os oito anos de Estúdio Noiz. Mesmo eu não tendo muitos números para oferecer, tenho música e há essa parte do respect. Tu não vens pelos números, vens pela música, por respeito e isso é fixe. O estúdio preparou-me para este caminho todo, deu-me bué frutos que me possibilitaram agora fazer isto. Este álbum tem os convidados que tem e o nível de produção que tem porque estive oito a produzir no estúdio… Daquela coisa de: não interessa se estou inspirado ou não, tenho que produzir alguma coisa para ti.
Foi uma escola.
A criatividade tem que se tornar um músculo, aquela coisa de ter que produzir todos os dias, querendo ou não — então vou encontrar mecanismos para canalizar aquelas ideias que nem sequer estão a fluir naquele dia. Apesar de hoje em dia preferir fazer o inverso e ter uma ligação mais natural e orgânica quando faço música, acho que é fixe ter estado do outro lado e perceber que, se eu tiver que estar ali, eu consigo. Hoje prefiro tailor-make a minha arte, deixar tudo perfeito para quando chegar ao pé de ti e te convidar para o meu projecto, sei que é aquilo que te queria dar.
E à medida que foste construindo o álbum e afunilando as ideias, começaste a pensar melhor nas pessoas que fazia sentido incluir, ou que cada música pedia?
Sim, ou seja, quando estou como produtor contratado, eu posso manter a minha estética mas faço questão de entrar no teu universo. Tu estás a contactar-me porque gostas do meu, mas aquilo que procuras quando me contratas para produzir é a forma como eu interajo com o teu. Quando eu te convido para o meu álbum, também há um bocado aquela afirmação de: agora vens para o meu universo. Mas claro que comecei a pensar em quem poderia interagir bem comigo. E depois tive a sorte, ou o que lhe quiseres chamar, de nenhuma das pessoas que convidei me ter dito: “Ah, olha, não estou a sentir muito este beat, ‘bora para outro”. Acho que não mandei a ninguém, sei lá, três beats para a pessoa escolher. Mandei um som com uma temática para ser abordada. E bateu, o que é muito fixe. Houve dois ou três temas do álbum que não tinham tema, mas a maior parte sim. O que é muito fixe, porque as pessoas não questionaram, “olha, esta é a tua visão, está-se bem, vou embarcar”. Tal como eu depois tentei ao máximo não questionar a visão de ninguém relativamente ao que me entregavam.
Foram generosos, não é? Porque se identificaram e quiseram participar.
Sim, foi bué generoso, a dica é mesmo essa. É muito fixe, enquanto artista, quando te dispões a entrar no universo de outra pessoa sem questionar muito.
E um dos teus objectivos com o álbum também é ires para o palco, mesmo que seja desafiante enquanto produtor. Como é que perspectivas essa parte, neste momento?
Então, eu posso ir para o palco com um concerto de apresentação, com os convidados todos, em que posso fazer uma ou duas vezes, em Lisboa e no Porto, por exemplo, ou mesmo em São Paulo, como tenho vários convidados do Brasil… Mas são três datas. E são três datas que são um investimento meu, e a parte mais difícil são as agendas. Mas acho que aquilo que me abre mais a porta e que solidifica o meu nome é que posso ter projectos instrumentais em meu nome, algo que eu sempre quis fazer e fiz uns quantos ao longo dos anos, mesmo não tendo lançado a maior parte, e que possa tocá-los ao vivo, ou tentar criar um formato com este disco em que tire um bocado o foco da palavra…
Com, por exemplo, os instrumentais deste disco e outras músicas instrumentais que tenhas feito?
Exactamente. Ou usar as participações gravadas, ter os convidados filmados e a serem projectados… Acho que há caminhos para transformar isto e fazer tours. E eu curto bué estar em palco. Eu comecei como DJ, na verdade, então tocar para pessoas foi algo que sempre fiz e que sempre curti.
E deve ser um dos teus objectivos há muito tempo, fazê-lo enquanto produtor.
Sim, e se conseguir fazer este concerto de apresentação com os convidados todos, já vai ser lindo. E depois poder fazer um circuito de rodar o país, ou mesmo poder ir lá para fora em nome próprio. É um passo de concretização artística que estou a priorizar neste momento, é a missão a seguir ao lançamento do álbum. E tal como há bocado estava a dizer que alguns “sim” me deram músculo e confiança para certas coisas, este processo todo do disco também me deu músculo para depois fazer outros projectos. Entretanto já tenho um álbum instrumental quase feito.
Está quase feito e é para existir, não é?
Exactamente. É o next step. Talvez este disco não consiga levá-lo muito além dos concertos de apresentação por causa da questão dos convidados e de ele estar bastante focado na voz e nos temas, mas sei como é que posso continuar a trilhar esse caminho daqui para a frente.
Há outro caminho em que ao vivo és mais autónomo, basicamente.
E é um caminho que curto bué, eu sempre quis fazer música instrumental. Os convidados não precisam de ser apenas pessoas que vêm cantar, podem ser instrumentistas, posso ter uma formação ao vivo com instrumentistas. Daqui a uns projectos quero estar a tentar chamar o Terrace Martin para fazer um som comigo, sei lá. Já consegui uns “sim” super relevantes, por isso, por que não tentar fazer um projecto com gajos que estão a fazer essa mesma cena, como o Venna ou o Yussef Dayes? Estão mais próximos do que parecem, na verdade. Estão à distância de estarmos no mesmo sítio, conversarmos uma beca e as coisas acontecerem, porque todas elas aconteceram assim. Foi a falar. Então acho que é bem possível, pode só depender de uma conversa ou de estarmos no mesmo sítio. Isso tranquiliza-te no sentido de… isto não é só para os outros. O mundo é bem pequeno, podemos estar na mesma sala do que quase toda a gente. E não precisa de ser assim tão difícil chegares àquela sala.
Também te queria perguntar, claro, sobre a presença significativa dos convidados brasileiros neste disco. Certamente que sempre ouviste bastante música feita no Brasil, seja rap ou não, mas pergunto-te se foi importante para ti teres essa presença no álbum, tendo em conta as tuas raízes brasileiras e a nossa ligação histórica àquele país com quem partilhamos a língua?
É engraçado, porque foi a música com que cresci em casa e na rua. Racionais MC’s, Facção Central, MV Bill… Sempre fizeram parte daquilo que considero o meu ADN musical. E como este álbum é bem sobre isso, sobre ir buscar os meus sonhos e os meus artistas de sonho, o people que curti ouvir desde sempre, tornou-se natural ir buscar alguns deles. E, nos últimos anos, do ponto de vista da produção, surgiram algumas pontes. Comecei a trabalhar com o Vinícius Terra, depois com um produtor que é o Devasto, que é de São Paulo e trabalha muito com o Rashid, e foi quem fez essa ponte. Naturalmente comecei a encaminhar-me para esse lado, tendo acesso a mais pessoas e existindo essa vontade desde sempre.
Claro, foi natural, mas também fazia sentido, tendo em conta a tua história.
E isto também abriu um bocado as portas para eu ir para outros sítios de onde também sou. O meu pai é indiano, mas nasceu em Moçambique. A ligação com Moçambique é uma que nunca nutri assim tanto. Nunca fomos assim tanto para lá, enquanto no Brasil… Nunca vivi lá, mas passei muito tempo no Brasil, ia quase todos os anos. Com Moçambique nunca tive essa relação, mas ao mesmo tempo é um sítio que reconheço que tem uma cena de rap. O pessoal vive mesmo o rap, com as roupas largas e tudo o mais. E também curti a ideia de abrir as portas para navegar por esses sítios. Eu cresci com bué música brasileira e indiana. Lembro-me de que todos os domingos de manhã havia um programa de música indiana na Orbital [Swagatam Som do Oriente]. Era a música pop indiana, muito de Bollywood, e era aquela coisa de o senhor, sei lá, Salim, dedicar esta música à dona não sei quantas. É um programa para a comunidade indiana, seja a hindu que tem o templo em Lisboa ou a comunidade muçulmana que é aquela de que faço parte. E era uma comunidade ainda com alguma expressão e lembro-me muito de ouvir essas coisas em puto da parte do meu pai. Da parte da minha mãe, era muito música brasileira.
Portanto, um dia também queres explorar mais essa herança do lado do teu pai…
Sim, e já há um tema no álbum que vai um pouco por aí… Há dois temas no álbum que abrem caminhos. Há um que me abre o caminho para a música instrumental de que estávamos a falar, dá-me esse mote, que é o “Wabi Sabi” com o Kenny Caetano. E depois há outro que é sobre abrir espaço para esta questão das raízes e de explorar a música destes sítios. Estou a falar do “W”, que junta a Selma Uamusse, de Moçambique, os Bateu Matou — sendo que o Ivo e o RIOT têm raízes em Goa, na Índia — e o Vinícius [Terra], que é do Brasil. ‘Bora juntar intencionalmente pessoas que colem esta cena.
Está aí o teu caldeirão multicultural, não é?
Só me falta a Polónia, da parte da minha mãe, mas é longe, longe, longe. Acho que estamos fixes aqui, neste sítio. Mesmo musicalmente, eu não cresci com nada cultural da Polónia em casa. Acho que assim está fixe e funciona.
E sobre os restantes convidados do disco, houve alguma história curiosa relacionada com a participação de algum deles?
A cena de o Criolo ter entrado no álbum foi fixe… Eu fui ao Coala [Festival] ver o concerto dele. O primeiro disco dele, o Nó na Orelha, é mesmo parte do meu ADN. E lembro-me de o encontrar lá no backstage e nem sou muito de pedir para tirar fotos, mas é o Criolo, então vou pedir uma foto. E ele olhou para mim naquela de “estás a tirar uma foto comigo dentro do backstage, quem és tu?” Então comecei a falar com ele e a explicar-lhe minimamente quem eu era e as pessoas com quem já tinha trabalhado, algumas eram amigos dele, e aproveitei-lhe para dizer, caso ele estivesse em Lisboa mais uns dias, que curtia que ele passasse no meu estúdio. Uma semana depois, o Criolo estava no estúdio a ouvir o som, o beat que eu tinha produzido quando soube que ele vinha. E na verdade foi o som que ficou. Ele chegou ao estúdio, passámos tempo, trabalhámos noutras coisas e, a certo ponto, no último dia que tivemos em estúdio, tive a coragem de lhe mostrar esta. Ele ouviu uma beca, pediu-me um microfone de mão e disparou. Foi lindo. Estás a ver quando o Rick Rubin fala da energia que está parada no universo e que tu podes canalizar…? Ele destilou assim um som de primeira, com as palavras certas, com a melodia certa, para o beat certo. Foi tipo um presente divino. Essa foi muito fixe, foi daquelas em que fiquei: que grande corte no Matrix, isto aconteceu mesmo. E é engraçado porque, quando antes disso me tinha candidatado ao Fundo Cultural da SPA, tinha enviado uma pré-lista de convidados, de artistas que eu queria convidar, e já estavam lá o Criolo, o Dino, o Rashid, o Vitão… E nenhum deles estava confirmado no disco nessa altura, nem sequer tínhamos feito a ligação, isso foi muito antes. Portanto, manifestem, porque o universo conspirou bem a favor da cena. Todos estes nomes entraram.
De forma orgânica, foram-se cruzando no teu caminho para entrar no álbum. Nem sequer foi necessário um esforço para de alguma maneira forçar essa ligação.
Não, foi natural, foi conversado, foi humano. Lá está, voltando ao título de A Beleza do Erro, era sobre isto, sobre falar e, se a energia clicar, a gente faz. Sobre ser humano. E foi muito fixe que a energia clicou com as pessoas com quem tinha maiores expectativas de fazer música. Acho que isso também significa algo maior: se falarmos de artistas como o Criolo ou mesmo o Xullaji, nós crescemos a ouvi-los, então a nossa formação de carácter, de posições, etc., também vem um bocado deles. São artistas relativamente mais velhos que de alguma forma nos instruíram, crescemos a ouvir a obra deles e não é só música; é política, é ética, são princípios. Então, é natural que vá bater certo quando estivermos a conversar com eles. É um full circle.
E acho que a questão dos convidados, o espectro alargado que tens aqui, também diz muito sobre o músico e a pessoa que és… Digamos que não há muitos álbuns onde o Xullaji, o Vitão, a IOLANDA e o Djodje, por exemplo, pudessem entrar. Ou seja, isso também te representa.
É engraçado porque é a primeira vez que estou a pensar sobre isso assim, nunca tinha olhado para a tracklist e pensado: que espectro tão largo. Acho que o que liga o people todo é o respeito pela arte, que se levam muito a sério, que levam o seu output artístico muito a sério. Acho que esse é o grande elo de ligação. E depois há a parte boa do trabalho de estúdio, de me pôr a fazer música com pessoas bué diferentes e sair da minha zona de conforto. Eu venho do rap, mas quando tenho um estúdio, sou produtor e estou a trabalhar para artistas, não posso só trabalhar com pessoal do rap. Há outras propostas musicais e eu estava confortável com isso, em quebrar essas barreiras.
Até porque a chamada música urbana é bastante influenciada pelo hip hop.
Exactamente. O próprio trabalho de estúdio fez-me quebrar essas barreiras que nós, involuntariamente, do rap, acabamos por construir. A gente ergue ali uns muros: onde é que vou artisticamente? Onde é que eu deixo de ser real? E isto é uma forma fixe de ir lá partir os muros: tipo, deixa-me ir ali. Não sou menos real ou menos produtor, conceptual ou artístico, por ir ali. E descobres que há arte em todo o lado. O trabalho real é desconstruir essas barreiras e este disco também é o resultado disso, e de conseguir agregar. É fixe olhar para trás e perceber que consegui ser uma ponte entre diferentes universos. Noutro dia vi uma cena do Alchemist que adoptei, acho que ele falava em ser o “colaborador profissional”, o gajo que leva a arte da colaboração a sério, com mestria. Tens de ser essa pessoa para conseguires esta tracklist.
Tens de ser esse mediador, esse conciliador, não é?
E fazeres isso sentindo que estás a continuar a ser verdadeiro com aquilo em que acreditas. E unires estas pessoas todas na mesma sala, no mesmo disco, no mesmo projecto, no mesmo contexto… E, se tudo correr bem, no mesmo palco, eu acredito que sim. É um achievement, esta junção do pessoal tem esse sabor de vitória no final.