FMM Sines’19 – 27 de Julho: polifonia, rap interventivo e marrabenta para a despedida

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Inês Sofia Pereira

Na manhã de domingo, vemos Sines com lunetas diferentes. No exterior da igreja, o brique-a-braque de cabelo, cor e artesanato que era parte da nossa rotina deu lugar ao vácuo, a ondulação do mar como pano de fundo somente para um doce vendedor de calendários e almanaques. A rua estreita em direcção ao castelo, que era conglomerado humano com pouco espaço de manobra, vê agora um carro a fazer marcha-atrás o mais lentamente possível. O castelo — as suas acomodações e portas sinalizam-no — descansa. Vamos voltar.

Quarto e último dia pelo FMM, dia que se torna noite e noite que se torna dia (para alguns). É a última vez que tentamos não fazer destes textos um postal verbal do pitoresco, das caras felizes e tudo mais. Directos para a acção: um dos grandes cartões de visita da África do Sul prepara-se para a formação.

Nelson Mandela outorgou-lhes a função de embaixadores culturais da sua pátria; mais de duas décadas depois, os Ladysmith Black Mambazo carregam uma tradição polifónica de 59 anos. Do ser pro-activo e político, celebrando os 25 anos da democracia sul-africana e aquele a quem a devem, numa “Long Walk to Freedom” aos motes puros, ideais mais corriqueiros: só mesmo ouvidas as harmonias e modulações, e vistas as coreografias, que fazem sobre o simples cortejar de uma rapariga. Mas cada vocalista é também humano, e extravasa os seus romances e vaidades com um humor e um sentido de oportunidade que os faz transcender a mostra vocal, frequentemente tão séria. E tudo volta às rapsódias cuja única verdadeira âncora é o refrão — uma biblioteca de vozes que se faz concertina, caixa de ressonância, luz ofuscante com ameaça de abismo profundo.

Mergulhamos nesse abismo pela lupa de Pedro Coquenão e Luaty Beirão. O produtor mais conhecido por Batida e o activista feito rapper Ikonoclasta unem-se sob o toldo dissidente de IKOQWE — projecto acerca do qual são económicos nas palavras, mas nem por isso esbanjadores na performance. É deliberadamente desconcertante, para não dizer mirabolante, como quando Batida canta de forma débil um sample vocal de “Psycho Killer” dos Talking Heads enquanto o formidável dançarino estremece num cantinho e Beirão… bem, não sabemos bem o que Beirão está a fazer neste momento, mas apoiamos.

De resto, sempre lacónico o primeiro alienígena, remetido para a instrumentação que executa em cima de grades de água engarrafada, em contraponto ao stream of consciousness do segundo. E esse tem um manancial de alvos, os suspeitos de “uma emergência no planeta Terra” que fazem a nave dos IKOQWE aterrar em solidariedade com os “terráqueos”. Convenhamos que o conceito é do mais mastigado possível em toda a produção artística desde sempre. Convenhamos também que não passa de um móbil para coisas que realmente doem.

Condena-se o conflito armado — “o povo era atirado para a frente de combate, matando-se entre si, neo-, ex-colonos e muito pato fizeram da guerra um dos mais longos e lucrativos bodes conhecidos até hoje”. Vilifica-se o assobio para o lado. A vaidade de “que todos somos vítimas” dá azo a uma crítica mista aos queixumes da classe artística a quem “falta ajuda, falta apoio, falta show… falta o caralho”: “o mundo ‘tá a morrer e o dinheiro é um carrasco/ mas sem dinheiro não há instrumentos, nem viagens, nem espectáculos”; “a rádio só é uma porra se não é artista playlistado”; “artista faz o som e aí termina o activismo”. No caso dos IKOQWE, queremos crer que a voz dissonante se estende, só que este incómodo precisa de mais definição na performance, mais contenção no tempo e mais mãos-largas na empatia. Não deixa de ser um incómodo necessário. “Faltam soluções que garantam igualdade”? Sempre.

Duas actuações restam para concluir a jornada, quando disparos de luz nos trazem à memória um keffiyeh, uns óculos de sol e um bigode talhado como filigrana. Oh, Omar… Porque é que nos fizeste isso? Tudo o que fizeste — e foi tão gloriosamente o mais exíguo essencial — faz empalidecer as propostas que te seguem. Enfim. Em momentos de fraqueza, o palco mantém-se vivo, com actos que não esmorecem nem um pouco. Que o digam os próximos na programação: os últimos expoentes do afrobeat de Brooklyn, na linhagem dos Antibalas, que veremos num FMM dele bem abastecido.

O nome dos Underground System quer dar um ar de oxímoro, evocando a anarquia do desconhecido antes de a subordinar a alguma disciplina, algum controlo maior. Podíamos tentar ler isso numa performance que consegue melhor, e mais incomodamente, outro balanço: o dos préstimos sanguinários de uma banda disposta a roubar corações e o de um residual anonimato. A personalidade promana da afro-italiana Domenica Fossati, que lidera com voz e flauta, dança e poder, juba à Tina Turner e o olhar mortífero, engraçado com que repreende quem ousa não seguir as suas instruções para bater palmas.

A entrada com o uptempo “I Need to Keep This Up” revela o trunfo, uma política de entrar logo com as armas todas — mesmo no build-up já a batida se discerne muito bem — e continuar a desferi-las, porque é isso que todos querem. Há musicalidade para dar e vender, sendo curioso como este afrobeat pende menos para os sopros (exceptuando a flauta da líder), mas não se renova muito o stock de esqueletos electrónicos com suplemento instrumental. A tradução de carisma para personalidade nem sempre é linear, contudo, e o grupo sabe o que faz, mas quando tudo acaba belissimamente, após um encore da sempre bem-vinda “Blue Monday”, não deixam grande bichinho para saber mais.

Começámos com embaixadores da África do Sul e representa-se agora Moçambique por uma das suas vozes maiores. Depois das 2h30m, já o Castelo suspira de alívio, e a romaria faz-se à Avenida Vasco da Gama para os longos embalos de António Marcos. Nascido em 1950, no activo desde a infância em que praticava numa viola de lata, a sua marrabenta é corpulenta, cantada com aspereza e… dançada, senhores. Dançada.

Se por mais nada valesse — e tanto que vale —, Marcos ginga como ninguém, e encarna o sex symbol que merecemos: a boina, a camisa branca de poliéster trancada pelas calças negras de cabedal. De tema em tema, Sines (e a sua mancha cirrótica que naturalmente, a estas horas, apareceu) espelha os seus movimentos angulares de anca. Está num modo sumamente imperturbável e a festa é toda dele. Deixe-se estar, mestre Marcos, as canas apanhamos nós.

E quando tudo chega ao fim, o que dizer? As questões do início continuam lá, mas quatro dias já nos dão alguma convicção. De que forma é que Sines pode estar a reproduzir o irónico afunilamento em que desagua a globalização dos sons? A proposta do FMM, ao longo de tantos anos, continua a justificar-se pela sinergia ininterrupta de sons, ouvintes e organização; se algo, convidam-se outros eventos (maiores) a emular os traços mais disruptivos deste tipo de programa e a assimilar uma dispersão da qual também terão de ser conspiradores.

Dedicar um festival a tendências por vezes ainda vistas como exóticas na Europa é um exercício diferente de meter todas as obras com uma cara étnica no mesmo saco. Porque é diferente ter um evento que procura, no seu esforço individual, promover cada nome tendencialmente inserido na world music, esse conjunto de pobre definição. Dar visibilidade e iluminar a identidade anulam o monstro do “outro”. Venha daí 2020 para outro Festival de Músicas do Globo, queremos dizer, do Mundo.


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