[eupn[ée]a] como transcrição fonética — palavra que remete para uma respiração inapta, natural e sem esforço. É como se, e logo mesmo na passagem para a vida extra-uterina, déssemos o ciclo de encher e esvaziar pulmões como garantido. Torna-se vital saber respirar e começa nesse acto libertador acompanhado de um choro ao nascer. Respirar permanecesse involuntário e quase inconsciente em cada dia. Ter consciência desse ritual é aumentar-lhe o valor e visualizar esse propósito revela-se preponderante.
A compositora Vera Morais reuniu um ensemble de três vozes e duas flautas para o efeito de um respirar próprio e apropriado. Além da própria na composição, voz e texto, nele encontramos Līva Dumpe e Sarah van Eijk nas vozes, Teresa Costa e Ketija Ringa-Karahona nas flautas transversais e nas deliciosas piccolo. Aqui onde o ar se canaliza como elemento primordial na função, onde os pulmões são fonte de impulsos sonoros, onde vozes e o sopros rasantes se tornam léxico efectivo. EUPNEA é disco do catálogo da Carimbo PortaJazz editado em Fevereiro último. Nele estão contidos sete preciosos andamentos para voz e flauta. Morais sucede assim à sua trajectória de escrita para voz que encapsulou em março de 2025, lançamento digital contendo os primeiros exercícios tornados públicos, como num desprender de pétalas da árvore. Dela escutámos em redenção a forma ousada e profundamente criativa como abarcou o comando do Ensemble Mutante #1 para o 14.° Festival Porta Jazz, e que se deu à edição com é apenas um pouco tarde (Carimbo, 2024).
O ciclo que o gnration faz orbitar para fora do lugar emitiu no passado dia 22 de Abril o seu quadragésimo episódio, em que o ensemble e programa EUPNEA entraram em “órbita#40”. Uma transmissão remota, a fazer lembrar os tempos pandémicos quando ir a concertos era não sair a lado algum e tudo receber à distância de um clique através de um ecrã. Mas este modo de difusão, permite alcançar mais públicos e podendo ser retomado sempre que a vontade mande. Um ciclo que teve a sua estreia com Sarnadas + Inês Castanheira em Setembro de 2021. Quase volvidos cinco anos de programação todo o propósito se mantém. Mantendo todos os episódios disponíveis. Uma iniciativa sem grandes paralelos, há as sessões do Tiny Desk Concerts ou as da rádio de Seatle KEXP, mas no “órbita” são mostradas peças em estreia (em grande medida), literalmente num sentido emergente e de vanguarda na música.
EUPNEA arranca numa cadência de respiro, entre respirares fundos, profundos e com soluçares. Como que a transparecer que há memória no vivido numa tessitura. Os intercalares com flauta e voz sabem a patamares de epifanias. Assim prosseguem alternando nesse “breathing” até que as vozes se tornam concretas nas palavras para afirmarem em muito o processo de construção criativa — causas e efeitos. Desde uma Meredith Monk escutou-se, em seu dia em “Little Breath”, contido em impermanence (ECM, 2008), uma ideia concreta disso mesmo. Contudo e sem falta de originalidade, Morais e o ensemble ampliam-na e acrescem-lhe instrumentação e possibilidades, estruturando o respirar até um final quase em apneia vocal, a desvanecer o tema.
Com “atlantic” prestam-se a tornar a sua construção plenamente cinematográfica. São igualmente as palavras nisso facilitadoras da mensagem. Encanto dos uníssonos das vozes que vão discorrendo o poema que dá conta da mudança de paradigma. “Unlike my ancestors / I do not wish to conquer you / I am merely interested in watching you” refletindo um sentimento artístico na contemplação da beleza, até em nome da mesma arte poética nem vê o lixo transbordante que transporta. “I ignore the plastic bottles and packages in the sake of poetry” — o lixo comum, como um tema de reflexão. Um piscar de olhos com a ecopoética contemporânea ou a dita poesia de “aterros”, em que escritores passam a ver a natureza transitória do plástico — a sua tendência para reaparecer como resíduo — como uma fonte de intensidade artística, como acontece em “Facts about Things” de W. N. Herbert. Morais toma os poemas como campo fértil sonoro. Foi assim com Consider The Plums (Carimbo, 2022) onde com Hristo Goleminov (saxofone) partem do filme Paterson de Jim Jarmusch, indo colher a poesia de William Carlos Williams. Ou quando se serve da poética de Adília Lopes ou de Alexandre O’Neill — outro projecto de Vera Morais que dá pelo nome de Novelo Vago, onde também milita a flautista Teresa Costa que tem neste “atlantic” uma voz preponderante no piccolo lá mais para o seu desfecho, até ao aviso “stay away from the plastic bottles and packages for the sake of poetry”.
Para o desfecho, o medo de cair — caindo num idílico “revolutionary ideation”, que começa pé ante pé, em certeiros passos — andando. Entra a herança filosófica do transcendentalista Henry Thoreau em “Walking”, e a poesia minimalista de Robert Lax. “Walking became simple / when you don’t think about it” é o ponto, em torno do qual se joga a métrica das palavras. No encadeamento, de cada uma como de passos em volta fossem. O lugar onde as frases nas flautas surgem como marcadores que sublinham as mais importantes. Subidas e descidas, nas escalas, que nem uma vereda de pedestrianismo. Quando uma sobe sobem todas, assim de fácil — orgânica liberdade, sentindo o medo, o medo de cair, decair, caindo…
Uma versão reduzida de EUPNEA, onde os três dos sete temas apresentados neste quadragésimo “órbita”, bem ilustra o que Vera Morais tem como identidade na composição. Uma autora em rota destemida e que vai marcando a voz como instrumento de proa, dando-lhe novas possibilidades e afirmando-se como uma das vozes que mais importa seguir de perto no campo da música contemporânea, num pós-jazz. Morais que em Amesterdão desenvolve e prossegue um trabalho de criação musical. É a condutora do Queer Choir Amsterdam, dirigido pelas artistas Shreya de Souza, Mylou Oord e Sarah Naqvi. Recentemente foi uma das duas convidadas para o programa “Tremor Todo-o-Terreno” no seio do Tremor’26, numa performance site-specific ligando a paisagem exterior ao interior através da voz. Aquando do último Festival Porta Jazz Rui Miguel Abreu resumia em palavras que “EUPNEA mostrou como a delicadeza pode ser radical”.