[Estreia] Transparente é o novo EP de SER

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

SER acaba de editar Transparente, o EP de estreia, que pode ser escutado em primeira mão pelos leitores do Rimas e Batidas. Oriundo do Porto, SER é a materialização artística de Diogo Tavares, de 24 anos, que se apresenta como alguém que “já vivia o hip hop” ainda antes de inscrever o seu nome pela primeira vez nos “livros” da cultura.

Editado em 2017, Beats With Soul foi a primeira jogada de SER num tabuleiro cada vez mais populado, um projecto instrumental e introspectivo que serviu como teste final antes do grande passo: Transparente é o seu EP de estreia, cujo single de apresentação “Não Estacionário” chamou a atenção da equipa do ReB, uma agradável recriação do clássico “In A Sentimental Mood”, na versão de Duke Ellington e John Coltrane.

Em Transparente, a gravação, mistura e escrita dos temas ficou a cargo do próprio SER, que assinou também a produção de quase todo o alinhamento. Beiro, Zé Nando (Dekor), Aras, Francisco Sá Fernandes e Bu são as participações escolhidas pelo rapper e beatmaker do Porto.

 



Quem é este SER?

SER é um rapaz pacato, de 24 anos, que ama fazer música. Cabeça no ar e facilmente inspirado por tudo o que o rodeia, SER é a ferramenta que eu utilizo para materializar a minha arte.

Como foi o processo evolutivo desde que começaste a escrever letras com 15 anos, até os materializares em temas?

O processo foi muito natural. Depois do primeiro encontro com a guitarra, a necessidade de aprender, de compor e de me expressar através de palavras surgiu por si.

A partir de que momento é que decides ir para a frente com um projecto? Houve alguma fase em que tenhas sentido um clique para levar isto com a devida seriedade?

Decidi ir para a frente quando me senti suficientemente confiante e satisfeito com o que estava a produzir. Senti que devia levar as coisas mais a sério quando fui para a faculdade e tive de fazer uma escolha. Posto isto, decidi ir trabalhar e, a meu ver, “focar no que realmente importa”.

Imagina que tens um manifesto, como praticante do hip hop. O que é que não faltaria na tua lista de “deveres” para com o “movimento”? O que é que consideras que te distingue do que já se faz de momento?

O meu manifesto é diário, está inserido na minha maneira de ser, na minha forma de ver as coisas e na forma de como quero passar a mensagem às pessoas. Esse, para mim, é o verdadeiro manifesto. Como músico, como SER e acima de tudo como pessoa, vejo na base de algum tipo de “movimento” o respeito, a entreajuda e, acima de tudo, o cultivo da verdade. Todos nós somos distinguíveis pela nossa visão, pela nossa personalidade e pelo que passamos às pessoas. Eu não sou excepção.

Lançaste uma beat tape no ano passado. Qual foi a tua abordagem à produção? Que tipo de equipamentos utilizas e o que é que utilizas e o que quiseste transmitir com aquelas sonoridades?

Do sampling à síntese, dos sintetizadores aos pianos e das batidas secas à percussão espacial, procurei incutir na beat tape uma mistura estilística desde o fado ao hip hop, soul e electrónica. Foi tudo produzido em Fruity Loops e, a nível de equipamento, a minha única companhia é o teclado MIDI V49. Ao nível do conceito, a ideia da beat tape foi tocar as pessoas apenas com o lado musical. O Ser Humano, a liberdade e a esperança são, sem dúvida, as ideias centrais da tape.

Fala-nos do teu single de estreia. O que te levou a samplar um tema tão clássico do cancioneiro jazz norte-americano, e que tipo de mensagem é que procuraste passar com o “Não Estacionário”?

Gosto muito de ouvir jazz, mas não sou grande conhecedor. Sei que numa das sessions de sample diggin‘ que costumo fazer antes [de produzir] encontrei o ”In A Sentimental Mood” e cativou-me logo. A inspiração tratou do resto. “Não Estacionário” reflecte a persistência e a força precisa nos momentos mais débeis. É quando nos sentimos a desistir que temos que nos focar no que é importante e lutar por aquilo que queremos. “Não estacionário” significa “em movimento” e é assim que eu e os meus estamos, focados e a trabalhar.

Sobre o EP de estreia: há alguma história por detrás desse conjunto de temas? Qual foi a ideia base que se manteve presente durante toda a concepção desse projecto?

O EP é um projecto de dois anos, foi construído muito devagar e muito espontaneamente. Tem uma base muito humana e focado no “eu” mas também tem o seu carácter interventivo. A ideia era que o EP fosse uma mistura equilibrada de sonoridades e acho que isso foi conseguido.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira