pub

Fotografia: Tomicornio
Publicado a: 29/04/2026
Tags: Enchufada

Desconstruir a noite numa tarde de um domingo que recusou ser domingo.

Enchufada no M.Ou.Co.: 20 anos a não pertencer a um só lugar

Fotografia: Tomicornio
Publicado a: 29/04/2026
Tags: Enchufada

Num domingo improvável, a Enchufada trouxe ao Porto mais um capítulo da sua história que começou em Lisboa — e que, vinte anos depois, já não pertence a um só lugar. Um capítulo que se prolonga no novo álbum de compilações chamado A Lisbon Club Story. No cartaz, a palavra Lisboa aparecia rasurada, substituída por Porto. Não era bem uma correção, mas uma expansão. Como explicou Kalaf, “Lisboa foi o lugar onde tudo começou, mas o Porto é parte muito importante dessa história”.  

O apelo não era o mais evidente para uma tarde de sol. Entrar numa sala subterrânea às cinco da tarde de um domingo, na ressaca dos festejos da revolução, não era, à partida, o cenário ideal para o que se anunciava. Talvez para esbater isso, Kalaf iniciou o DJ set com as cortinas das janelas abertas ao sol. Essa luz solar desenhava na sombra da pista de dança um yin-yang, como se o dia e a noite disputassem o mesmo espaço. Ali também se celebrava uma revolução com 20 anos. Partiu de Lisboa, é certo, mas as ondas de choque atravessaram todo o país. Abrir uma pista é sempre a tarefa mais difícil. É preciso quebrar uma certa inércia colectiva. Rasgar hesitações. O espírito da Enchufada e da sua gente é esse também – desbravar caminhos, cruzar culturas e criar uma identidade múltipla. Kalaf — que, no prefácio à edição portuguesa de Música Negra de Amiri Baraka, já assumia ter fixado “residência num afro-futuro de possibilidades infinitas” — parece continuar por lá.

As pessoas estavam a chegar e iam-se espalhando pelos cantos. A eclética seleção musical ora cruzava “Gostava Tanto de Você”, de Tim Maia, com o drum and bass da dupla Marky & XRS, ora abria espaço para temas como “Num Tá Bom”, de Deejay Telio. Quase no fim da sua hora, e depois de pintar a sala com as cores primárias da paleta da editora e não só, Kalaf usou o microfone não apenas para agradecer, mas para sublinhar a ideia de um aniversário em que o bolo era a música. Convocou o público acantonado para a frente da mesa de mistura. Aproximou os corpos do som e fechou com “Teu Filho Também Tava no Apupu” de John Trouble. Uma forma generosa de acarinhar a kasule Maribell que, segura e confiante, abriu o set com um kuduro invasivo, seco e direto. Começou por desfazer todas as hesitações e mostrou logo ao que vinha. As cortinas fecharam-se como um pôr do sol. Poucos minutos depois, era já nos domínios da noite que entrávamos. Maribell mostrou ousadia nas misturas – como quando juntou o clássico da Crystal Waters, “Gypsy Woman” com o poderoso afrobeat do kuduro – revelando uma destreza assinalável na mesa. Pulso firme enquanto continuavam a entrar mais pessoas. Dançar tornou-se na inevitável forma de estar. Fechou com “Aura” de Lowzen.

Branko pegou no testemunho quando a pista já estava feita. Avisou, desde logo, que “apenas” iria tocar música da Enchufada, “numa tentativa de desconstruir a noite numa tarde”. Passou por temas clássicos dos Buraka Som Sistema, reconhecidos pelo entusiasmo do público, até ao reencontro com uma geração. Uma geração que assistiu ao sismo e se fez adulta por entre as réplicas. “Yah!”, “Nessa Rua”, “Puro Mambo”, de assinatura própria, ou “Kissange”, de Djeff, foram alguns dos momentos que marcaram o set. Antes de passar a pasta a Pedro da Linha, fez questão de sublinhar – com palavras e passando “Onda de Som” – a importância de Sara Tavares em toda esta história. Um gesto simbólico e emotivo que despertou memórias.

Pedro da Linha fez jus à sua imagem com um set de autor, subversivo e mais frontal, que levou a energia para outro lugar e colocou a pista dentro de uma madrugada imaginária. Com forte presença de originais, passou por “Stuck On You”, “MPTS” e pelo mais recente “Força”. A resistência esmoreceu e a sala entregou-se inteira. A vibe estava certa e, por isso, Branko e Maribell voltaram à mesa para uma deriva partilhada de quase mais uma hora. Depois dos míticos “BaBaBa” e “Kalemba” ninguém mais queria ceder. A festa parecia interminável. Aceitar que eram 22h de um domingo era difícil. 

A revolução levada a cabo pelos capitães Branko e Kalaf, em 2006, não tem um símbolo único, como o cravo vermelho. É, antes, um ramalhete onde cabem flores de todas as espécies e cores. Essa história que começou a escrever-se em Lisboa faz-se agora em todas as pistas de dança, num movimento que não se detém. Já não é um lugar nem uma hipótese — é um tempo em curso.


pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos