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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/07/2026

Um jovem compositor enquanto proeminente vibrafonista.

Duarte Ventura sobre Blurred Image: “Uma narrativa sem hierarquias, com foco na variedade da instrumentação”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/07/2026

A noite de abertura (dia 9 de Julho) das notas azuis no Parque de Santa Catarina (Madeira) estará envolta em dois nomes do vibrafone actual, vindas de cada um dos lados do Atlântico. O grande palco do Funchal Jazz’26 vai ser um lugar de encontro, com o timbre das lâminas vibrantes. Duarte Ventura é vai ser o primeiro músico a fazer as delicias com as baquetas na mão — sim, nessa forma mirabolante dos vibrafonistas, quando lhes cabem quatro ou mais entre os dedos. 

Foi em 2023 que o quinteto de Duarte Ventura venceu o Prémio Jovens Músicos (Antena 2/ RTP2/ Fundação Calouste Gulbenkian) na categoria de Jazz Combo. Além de Ventura, com Miguel Valente no saxofone alto, José Almeida no contrabaixo e Luís Possollo na bateria apresentaram-se como quarteto há quatro anos. Um conjunto de jovens músicos da cena jazz lisboeta dispostos a dar o seu contributo. Na procura de um suporte harmónico o quarteto passa a quinteto com a entrada do pianista Miguel Meirinhos em 2023. É desde então uma formação em expansão dos limites musicais.

Nesse mesmo ano de 2023 gravariam, sob a produção de João Barradas, Blurred Image para o selo catalão Fresh Sound New Talent. Jorge Rossy, nas liner notes do disco, deixa vertido que estes músicos exploram novos territórios, mas sempre com convicção, intenção e clareza. Referindo-se directamente ao talento do compositor, na sua forma de tocar, refere como sendo “versátil e cheia de nuances, sempre bela, sempre em sintonia com o som da sua banda”. Ficamos com a noção que, depois da entrevista que se segue, haverá que esperar da actuação em palco um resultado mais além, precisamente porque e como responde Duarte: “Vou também levar novas composições, para que se possa notar a evolução do grupo desde o seu primeiro lançamento”.



O músico, compositor e acordeonista João Barradas afirmava sobre ti como um músico de uma “linguagem actual e uma capacidade de composição fora do comum”. Mais do que pedir para falares sobre a tua arte a compor pedia-te para começarmos por situares o vibrafone na linguagem actual, e o que se poderá entender como “comum” no jazz de hoje.

Sendo o vibrafone um instrumento peculiar historicamente no jazz, ao contrário do piano e saxofone, existe uma procura diferente da linguagem no vibrafone. Existem muitas poucas referências tanto a nível de vibrafonistas improvisadores como da presença do timbre do instrumento em diferentes estéticas musicais no panorama do jazz e da música improvisada. O timbre do instrumento traz uma sonoridade fresca para o ensemble, destacando-se dos instrumentos mais tradicionais. Penso que o meu principal objetivo com este grupo é trabalhar as composições, de modo a valorizar os diferentes timbres dos cinco instrumentos e desenvolver a narrativa das improvisações, para que não exista aquela separação comum entre a composição e os solos, mas sim que as improvisações façam parte da própria composição. Havendo hoje em dia tantos vibrafonistas com um nível técnico e de improvisação tão elevado, não deixando isso de parte, o meu foco está em procurar a frescura nas minhas composições usando o timbre do vibrafone de forma a destacar o grupo dos restantes.

Essa citação vem do final do ano de 2024, tinhas sido convidado a estrear uma peça na Festa do Jazz no CCB, precisamente numa curadoria de Barradas. Essa peça foi “Reperio” e levaste a tua formação numa versão alargada, juntando as vozes de Joana Raquel e Marta Rodrigues, o violoncelo de Adéle Viret e a percussão de Iúri Oliveira. Foi uma incursão ocasional ou que poderás retomar a qualquer altura?

É um projecto que já andava na minha cabeça antes de surgir a encomenda para a Festa do Jazz. Foi uma excelente oportunidade para escrever para essa formação, reaproveitando o meu quinteto nesse contexto. É um projecto que quero muito retomar, continuar a trabalhar nele, melhorar as composições, escrever mais música e, possivelmente, até alargar a formação.

Depois disso, já neste 2026, surge o teu disco de estreia Blurred Image pela Fresh Sound New Talent, com o teu quinteto, que já era a base nesse mesmo “Reperio” que referíamos. Este disco é esse primeiro compromisso e revelação que um jovem músico sonha uma dia começar por fazer?

Acho que o primeiro disco é sempre o nosso cartão de visita quando se começa uma carreira. É o primeiro registo em nome próprio como líder, mostrando não só as competências técnicas, mas também a capacidade de composição e a estética musical. É uma afirmação estética. Ainda assim, há imensos músicos com carreiras invejáveis sem nunca terem gravado um disco em nome próprio.

Quantos anos há de composição em Blurred Image? Ou talvez perguntar quanto tempo autoral está guardado neste disco. Respeita a um passado muito recente ou mais até a ideias que tens vindo acumulando ao longo da tua trajectória, ainda que recente? 

O álbum Blurred Image foi o resultado de termos ganho o Prémio Jovens Músicos 2023, o que nos levou a concluir a gravação dentro dos prazos estabelecidos. O processo teve aproximadamente dois anos de trabalho. As composições foram sofrendo alterações ao longo do tempo. Muitas notas foram apagadas e reescritas. Foi também o reflexo do meu gosto musical ter variado bastante durante esse processo. A ideia clara do que eu queria fazer no início foi-se diluindo com outras estéticas e formas de composição. O nome do álbum reflete precisamente essa procura de ver a imagem nítida do que poderá vir a ser o percurso deste grupo no futuro. Destaco a preciosa ajuda do João Barradas, que produziu o disco e esteve connosco em estúdio a puxar pelo nosso potencial. Foi, para mim, uma pessoa muito importante, estando presente desde o início do Prémio Jovens Músicos e acompanhando-nos desde o começo da banda até ao lançamento do disco.

Até que ponto “A Life of a Procrastinator”, segundo tema em disco, nos aponta, de uma certa maneira, para esse processo de escrita e compromisso?

A segunda faixa do disco veio refletir o meu interesse pelo papel ativo da secção rítmica, tanto na melodia como nos solos. É algo que está presente em quase todas as composições, mas nesta tem um impacto especial, cruzando os polirritmos do piano com a energia da bateria. Foi uma composição muito influenciada pela música de Steve Lehman, em particular pelo tema “Il Calam and Ynnus”, do álbum The People I Love, que mudou significativamente a minha escrita e a trajetória do grupo.

A tua formação musical é como vibrafonista, um instrumento que tem hoje destaque na cena jazz nacional, lembramos a propósito Eduardo Cardinho, que aliás tem um disco na mesma editora pela qual lançasteComo está o panorama actual, há mais novos nomes a esperar nesse instrumento?

Penso que somos poucos, mas cada vez mais. E, pelo que tenho vindo a reparar, a classe de vibrafone jazz em Portugal está bastante saudável. Uma grande razão para isso será talvez o professor que todos tivemos em comum, Jeffery Davis. Teve um papel importantíssimo no desenvolvimento do meu percurso.

Vais apresentar-te em quinteto de nome próprio, e com honras de abertura, no Funchal Jazz. Nessa noite onde em seguida toca outra referência actual do vibrafone — Joel Ross. Como recebeste esse convite e que outros nomes são referências para ti no panorama internacional actual?

Recebi o convite do Paulo Barbosa, diretor artístico do festival, para apresentar o meu grupo no Funchal Jazz. É uma honra poder abrir um festival com o meu quinteto, onde estarão tantos músicos que são referências para mim. Destaco o Joel Ross e o Immanuel Wilkins, por terem influenciado bastante a escrita das composições do meu álbum.

Para esse concerto tens preparado um alinhamento especial, ou mesmo a vinda de outros músicos, algo que queiras ou possas revelar?

Para este concerto, além de apresentar música do álbum Blurred Image, vou também levar novas composições, para que se possa notar a evolução do grupo desde o seu primeiro lançamento. Andamos em tour e, nos concertos mais recentes, temos explorado diferentes direções na música, de modo a descobrir o que este grupo poderá vir a ser no futuro.

Espero que se possa escutar esse “Night Shift” sob um céu estrelado no Parque de Santa Catarina no Funchal, seria magnífico, ou mesmo “Menino (ode to innocense)”. Para um momento nocturno onde habita um piano de Meirinhos, entre o mistério e a revelação que o tema discorre. Quando estás a compor qual o instrumento preferencial que usas, vibrafone ou piano?

Maioritariamente uso o piano quando componho. No vibrafone, por vezes, é mais difícil ter noção do potencial harmónico que a composição pode ter. O piano acaba por ser mais útil nesse aspeto. Normalmente só passo para o vibrafone quando a composição está praticamente terminada, para corrigir questões de registo ou perceber se aquilo que funciona no piano também funciona no vibrafone.

Como se escuta em “Views (from de ground floor)” ou em “To Break”, no teu vibrafone há essa procura em chamar pelos demais instrumentos, convocando o piano, ou o saxofone. Há uma linguagem que vai dos uníssonos em duos até aos convites vários para solos. Há esse propósito de proposta na tua composição: de lugar ao outro também. Quanto de improviso cabe (e deixas) nos músicos que te acompanham ao interpretarem a tua música? Há seguramente esse espaço…

Gosto de pensar que o meu papel neste grupo foi apenas escolher os músicos, escrever a música e orientar esteticamente o grupo de acordo com a minha visão. De resto, todos têm espaço para intervir da forma que acharem melhor. Confio totalmente nos músicos para fazerem o que entenderem com a música. No fundo, acho que o mais importante é isso: dar espaço para todos intervirem e comunicarem entre si, transformando cada composição num momento inédito, diferente de todos os concertos anteriores.

Atrevo-me a afirmar que a tua música é em muitos momentos verdadeiramente altruísta, como nesse fulgurante “Blurry”, passando a estar dedicada aos outros e onde o vibrafone fica como que obliterado na instrumentação, como vês isso, concordas?

Apesar de ser um disco em meu nome, o vibrafone não tem de ter mais destaque do que os outros instrumentos. Dou a conhecer o meu grupo, uma narrativa sem hierarquias, com foco na variedade da instrumentação, tanto a nível da escrita como dos solistas. Daí o vibrafone não ter que fazer sempre um solo. É semelhante à forma como se gerem os solistas num concerto: se o vibrafone fizer um solo em todas as composições, perde-se o impacto que poderia ter noutros momentos.

Com certeza que, e para quem compõe, cada tema tem uma razão suprema no nome. O disco fecha com “Rift”, um tema amplo, diverso e mesmo telúrico — de mão cheia! Poderias contar o que está por detrás da escolha geológica no nome?

“Rift” foi a última composição escrita para o álbum e, por se distinguir das restantes no seu processo de escrita, acabou também por levar o grupo para outro rumo. Um rumo que começou a fazer muito sentido para mim desde então. O processo passou por escrever partes para todos os instrumentos, realçando a variedade tímbrica, as dinâmicas e a abstração. É uma escrita muito cuidada, que levou muitos dias até ficar concluída. É uma composição com melodias abstratas, tanto do ponto de vista rítmico como melódico, contrastando com o contraponto da secção rítmica. Destaco a preciosa ajuda do Miguel Meirinhos na escrita dos voicings de piano, sem a qual não teria sido possível enriquecer a harmonia daquela forma. Unindo a escrita do início e do fim da composição, surgem dois momentos de improvisação livre, um do vibrafone e outro do saxofone, com o contrabaixo e a bateria a apoiarem ambos os momentos. É também o único momento do disco em que se ouve o vibrafone a acompanhar um solo. O nome da composição veio precisamente salientar essa quebra de estética e de direção que o grupo estava a viver e que, a partir dessa composição, passou a seguir na procura de algo diferente.

E claro, tudo isto é Duarte Ventura em nome próprio, como compositor e vibrafonista. Conhecemos de ti outras colaborações, nomeadamente Godua — quarteto com Hugo Ferreira, João Fragoso e João Cardita; o duo que tens com o saxofonista João Gato; fazes parte do sexteto com alguns músicos madeirenses como Guilherme Fradinho, Tomás Noronha, Henrique Pinto, Emanuel Inácio e Francisco Coelho, editaram Dracaena Draco (Timbre Melro Preto); tocas num outro quarteto com Zé Cruz, Francisco Brito e João Lencastre; e ainda nestes dias ocupaste lugar entre os dezasseis músicos do Omniae Large Ensemble dirigido pelo baterista e compositor Pedro Melo Alves. Que outros projectos que te ocupam devamos ficar a par?

Além desses projetos mencionados, estou agora a trabalhar no meu próximo disco, em formato trio, com Bernardo Tinoco no saxofone e João Pereira na bateria, com uma música muito diferente da do primeiro disco com o quinteto. Trata-se de um trio sem contrabaixo, com pequenos apontamentos escritos para que a improvisação seja o foco. É também um projeto onde o vibrafone se irá estrear com recurso à eletrónica, através de pedais de efeitos. Nos próximos tempos vou também começar a preparar um segundo disco em parceria com o saxofonista João Gato, com dois convidados muito especiais. Além disso, vou continuar a trabalhar no material para gravar o disco de estreia de “AVC”, um coletivo com João Almeida no trompete e António Carvalho na bateria.


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