Vinnie Sperrazza e Jacob Sacks juntam-se a Michael Formanek em Lisboa para duas noites — a 5 e 6 de Maio — no clube Távola, onde tocarão a música de Elmo Hope.
O projecto Play Elmo Hope chega a Lisboa num formato especial. O trio que tem estado em digressão com o contrabaixista Masa Kamaguchi — com quem gravou recentemente — apresenta-se agora com Michael Formanek, numa configuração que, longe de ser um desvio, reforça as ligações profundas entre os músicos. “Quando estas datas em Lisboa começaram a ganhar forma, falámos com o Masa, mas não era possível. A nossa primeira reacção foi: então não fazemos. Mas foi ele próprio que sugeriu que tocássemos com outro contrabaixista”, conta Sperrazza ao Rimas e Batidas a partir de Barcelona, onde o trio acabou de se apresentar. “E isso faz todo o sentido no jazz. E depois há o Michael que, para mim, é um mentor, alguém muito importante mesmo, tanto para mim como para o Jacob, e para a nossa música”.
Formanek, que vive em Lisboa há cerca de três anos, surge assim como uma escolha natural: “É uma oportunidade para reencontrar alguém com quem tenho uma ligação muito forte. Normalmente, quando toquei com o Michael, foi sob a liderança dele. Aqui é diferente: é trazê-lo para o nosso mundo”. A ligação entre os três é antiga e multifacetada, cruzando projectos, gravações e colaborações em Nova Iorque ao longo dos anos, o que faz deste trio “uma espécie de ponto de encontro de várias histórias”.
O cenário não podia ser mais adequado: um clube pequeno, onde a proximidade amplifica a música. “O Távola deu-nos duas noites, o que não é habitual. Disseram-nos basicamente: ‘Para vocês, tudo bem’. Isso é muito especial para nós”, diz Sperrazza, que conhece bem o contexto português. “Lisboa, Porto, Guimarães… há uma comunidade de músicos que sempre nos recebeu muito bem, que se interessa mesmo pelo que fazemos. Tocar em Lisboa é uma honra”. Apesar da alteração no contrabaixo, o funcionamento do trio mantém-se simples e directo: “Falamos das músicas que queremos tocar, enviámos alguns charts, o Michael ouve o disco… não podia ser mais simples. Ele é um dos contrabaixistas mais realizados do jazz contemporâneo”.
No centro destes concertos está a música de Elmo Hope, uma figura que Sperrazza não hesita em classificar como “muito obscura”, mas cuja importância é fundamental. “Há várias razões para isso. Os pianistas de jazz negros, de forma geral, nunca foram muito conhecidos. Há algumas excepções óbvias, como McCoy Tyner, Herbie Hancock ou Thelonious Monk, e se recuarmos mais, Count Basie e Duke Ellington, mas são poucos”, argumenta o baterista. “E depois há a própria vida dele, que dificultou a construção de uma carreira consistente”, explica ainda, referindo-se aos problemas de adição e aos períodos em que esteve preso, facto que o levou a perder a sua licença para tocar em Nova Iorque e que o obrigou a relocalizar-se em Los Angeles.
Elmo Hope (1923–1967) foi um pianista e compositor central na génese do bebop, frequentemente associado a Thelonious Monk e Bud Powell, com quem conviveu de perto no início dos anos 1940. Apesar dessa proximidade, o seu nome ficou à margem da história mais visível do jazz. Ainda assim, a sua obra revela uma personalidade musical única, marcada por uma escrita altamente individual, tanto do ponto de vista harmónico como formal. As suas composições desafiam convenções e exigem uma escuta atenta, revelando uma lógica interna muito própria. Como Sperrazza escreveu no seu Substack Chronicles, evocando esse período formativo: três jovens — Monk, Powell e Hope — “andavam juntos quase inseparavelmente em 1942… três rapazes a sair de casa, a contar piadas, a apanhar o comboio, a estudar música, ainda a viver com os pais, com uma música transformadora prestes a acontecer. O transcendente e o quotidiano coexistem sempre — e dependem um do outro.” Para o baterista, Hope foi “uma parte essencial da geração que criou a música que amamos” e, sobretudo, “um compositor com C grande”.
Essa dimensão de compositor é decisiva. Peças como “Eyes So Beautiful As Yours”, com a sua estrutura invulgar, ou “De-Dah”, cuja identidade nasce de um simples motivo rítmico inicial, mostram uma escrita onde tudo parece inevitável, como se melodia, harmonia e forma emergissem de um mesmo gesto. “É uma música em que tens mesmo de mergulhar. À primeira audição soa a jazz — e é. Mas quando desces um nível, percebes o quão singular, pessoal e bela ela é.” É precisamente esse mergulho que o trio procura em palco. “Não é respeitoso tentar tocar como o Elmo Hope. Tocamos como nós próprios. E vamos aprendendo o que a música significa à medida que a tocamos. Não as notas, mas o que ela sugere, as possibilidades que contém”. Sperrazza descreve esse processo como uma exploração contínua: “Às vezes essas possibilidades são totalmente exploradas, outras vezes apenas sugeridas. Aqui, sentimos que estamos a caminhar por esse caminho, a ver onde nos leva.”
Play Elmo Hope afirma-se assim como um espaço vivo de descoberta, uma homenagem sentida, mas também um pretexto para um reencontro entre músicos profundamente ligados e uma obra que continua a abrir caminhos, noite após noite.