Pontos-de-Vista

Hugo de Oliveira

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Sobre o hiperindividualismo e a morte do colectivismo.

Courney Love vs. o cock rock dos anos 90: a feminista antifeminismo que adoramos odiar

Kurt Cobain morreu várias mortes desde 5 de Abril de 1994, dia em que se matou com um tiro de caçadeira. Fez a travessia do deserto, perdendo, durante alguns anos, o magnetismo cool, para, como Moisés, renascer ícone semi religioso, sacralizado numa pureza ascética que nunca reclamou. Paralelamente, ressurgiu também na forma de autêntica mercadoria desprovida de história num mundo sem outra história que não a da mercadoria, com o rosto estampado em t-shirts vendidas pela Inditex e usadas por gerações que nunca ouviram, nem desejam ouvir a sua música, mas que mesmo assim aceitam que ele os represente.

Com o apagar da sua história e com a reinvenção dos anos 90 nos novos anos 60 que nunca foram, mas aos quais se assemelham em comparação com o assoberbamento digital contemporâneo — quem esteve lá, sabe-o — perdeu-se, com Cobain, toda a mitologia em redor dos Nirvana, boa e má. Esse extravio permitiu a Courtney Love ressurgir neste milénio como feminista, ao invés de reduzida à esposa libertina, desequilibrada e à mãe terrível que tanto se aproveitou de Kurt como o conduziu ao abismo, no que foi, afinal, apenas mais um reencenar do mito de Adão e Eva, reproduzido com Lennon e Yoko Ono ou Sid e Nancy.

Courtney Love foi a materialização perfeita não apenas da complacência, mas do estímulo da cultura machista, racista e xenófoba pós-babyboomer, da década de 90. Soterrada no virar do século sob a película da elegância milenarista, reintroduziu-se como o novo normal retrochauvinista que agora habitamos.

Reconhecer Love como vítima dessa cultura falocêntrica paparazzi dos 90s, onde o escândalo tinha primazia sobre a arte, não obriga — essa é uma armadilha do idealismo — a apresentá-la como santa, ou sequer como figura indefesa. Embora também seja vítima, nunca aceitou a categorização, fazendo questão de o demonstrar através de comportamentos escandalosos em figuras femininas, mas corriqueiros quando praticados por homens, sobretudo no mundo cock rock. Por isso e pela simplificação imberbe com que as mulheres eram e ainda são encaradas, Courtney foi demonizada durante décadas e utilizada como o padrão negativo da mulher.

Os anos 90 carecem ainda de uma avaliação profunda da sua cultura artística e musical, assente numa objectificação da mulher glorificada nos resquícios do hardrock da década anterior, no gangsta rap, no pop, no pimba e até em expressões mais progressistas como o grunge, mesmo que este apenas tenha existido enquanto fabricação mediática.

As Hole, vilipendiadas desde logo como banda sem talento, nunca se coibiram de abordar o trauma do ponto de vista pessoal e feminino, e viram imediatamente secundarizada a sua música face à própria Courtney. Muito porque as atitudes não eram facilmente reduzidas ao binómio patriarcado versus feminismo, que evitou, ao recusar a sua instrumentalização por qualquer dos campos, também devido à agenda própria.

Então, no campo oposto, Kathleen Hannah, vocalista das Bikini Kill, uma das bandas seminais das Riot Grrrl — elas sim, ideia premeditada — foi introduzida como a histórica e involuntária némesis de Love, com quem chegou ao confronto físico. Hannah, como a própria reconheceu, deu por si instrumentalizada pelo movimento que ajudou a criar, ao ponto de se ver forçada, um pouco como Ian McKaye com o straight edge, a uma ostracização autoimposta.

Onde Love se pautou por um feminismo individualista e pessoal, negando as responsabilidades colectivas erguidas pelas Riot Grrrl como bandeira, ridicularizando-as em entrevistas e músicas, Hannah reivindicava um feminismo interseccional, num período onde a libertação feminina era um ideal agregado ao privilégio branco. Hannah contribuiu assim para a politização das ideias, para o alastrar da cultura DIY e rejeitou ceder o poder narrativo aos meios de comunicação mainstream, agenda que Love nunca negou.

Essa cisão no modo de estar foi influenciada também pela história pessoal de cada uma. Hannah rejeitou qualquer exposição até publicar a sua biografia, Rebel Girl, já Courtney viu ser-lhe negada toda a sua história de abuso e confronto, onde se incluem várias famílias de adopção, expulsões de escolas por lutar, roubos em lojas e uso de drogas, conduta que, mais uma vez, num protagonista masculino, seria utilizada para atenuar a culpa e como explicação das gritantes fragilidades e falhas humanas. Nessa lista de fragilidades, está também a problemática relação de Courtney com a beleza, segundo a própria reconheceu numa entrevista nos anos 90, tentando recuperá-la durante anos através de cirurgias plásticas, depois de considerar tê-la perdido na puberdade.

Hannah e Love coincidem na raiva contra os papéis de género e na corporização consciente, propositada e literal dos ideais feministas, tendo ambas sido strippers, como forma de ganhar a vida, sem jamais enveredarem por qualquer discurso de autoculpabilização ou vitimização judaico-cristão. Nessa utilização do corpo feminino, tomando controle da sua sexualização ao invés de se sujeitarem a leituras alheias, ambas reconheceram essa inevitabilidade.

Mas onde Hannah prestou, desde o início, tributo às mulheres que a antecederam — a escritora Katy Acker e as L7 são dois exemplos —, Love sempre negou a inscrição em qualquer panteão, parecendo aspirar a um lugar unicamente seu. Isso tornou-se mais óbvio no discurso de Love, num episódio recente do podcast de Billy Corgan, vocalista dos Smashing Pumpkins, em que surge numa versão (mais) polida e requintada, talvez fruto dos seus 61 anos. 

Apesar de Corgan tornar, como o faz sempre, tudo sobre si, e a maioria da conversa estar embrenhada duma nostalgia pós-adolescente de quem passou da puberdade para celebridade, Courtney coloca o dedo na ferida, apresentando os seus detractores, passados e presentes, como homens brancos hétero incapazes de lidar com mulheres confiantes sem se sentir ameaçados. Mas antes de alguém se sentir tentado a elevá-la a ícone neofeminista, assume, como sempre assumiu, não ter qualquer amor pela cena independente, acusando-a de snobismo, encarando-a apenas como um veículo, sem qualquer prurido em atacar Kim Gordon como a guardiã da legitimidade indie a quem teve de agradar para vingar no ambiente pré-mainstream.

Esse ambiente é apresentado por Courtney à luz de um sistema de classes, traído pela própria na sua obsessão com a fama, desejo que também atribui, embora velado, a Kim Gordon. Sem qualquer prurido, Love sempre assumiu seguir o modus operandi do caminho para a fama edificado por Madonna, curiosamente também ela originária da cultura DIY, embora em 1979, enquanto baterista da banda The Breakfast Club, no lendário CBGB.

Courtney antecipou não só o hiperindividualismo e a morte do colectivismo que se lhe seguiu como tendência global, mesmo nas esferas alternativas e contraculturais, mas também o esbatimento de fronteiras entre independente e mainstream, espaço que veio a originar diversas leituras feministas diferentes.


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