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Fotografia: Geraldo Ferreira
Publicado a: 01/06/2026

Um artista que não cansa repetir.

Bruno Berle no B.Leza: delitos de amor

Fotografia: Geraldo Ferreira
Publicado a: 01/06/2026

Quando Lisboa vira capital do Reino dos Afetos, sua alteza Bruno Berle é convocada ao palco para nos iluminar com as palavras, notas e ritmos que vertem do seu coração. Em tempos tumultuosos, não dava para faltar à chamada de mais uma passagem do músico brasileiro pela capital portuguesa, que valeu um concerto na passada sexta-feira à noite (29 de Maio) no sempre atento clube B.Leza.

A plateia estava bem composta, mas não deixa de soar criminoso que um espetáculo destes por apenas 10€ não esgote. Bruno Berle é um dos mais interessantes músicos a agitar a atual cena indie brasileira, com músicas a ecoar um pouco por todo o mundo, e também símbolo de uma resistência que teima em reclamar um pouco da luz dos holofotes para o que se vai fazendo fora dos dois grandes eixos culturais do seu país — São Paulo e Rio de Janeiro. O crime é ainda mais grave se tivermos em conta que na estrada se faz acompanhar por outros três músicos que são também eles próprios autores de excelência, responsáveis por edificar alguns dos discos mais entusiasmantes da esfera lusófona nos últimos anos — Batata Boy, Nyron Higor e Phylipe Nunes Araújo. A banda que iria subir ao palco após o ato de abertura a solo de Rita Cortesão era, por isso, uma espécie de Nordeste All-Star, e o privilégio de os poder ver atuar todos juntos é uma barganha impossível de recusar. E ao contrário das outras datas do músico brasileiro pela Europa, esta tinha tempero especial pelas mãos de Manuel Pinho, percussionista que tinha feito parte da banda portuguesa criada de propósito para acompanhar Bruno Berle na sua segunda vinda a Portugal, antes de se poder dar ao luxo de andar em digressão com a sua própria formação. A ligação de Pinho à música do brasileiro foi tão grande que prontamente se voltou a colocar ao serviço desta nova vaga da MPB que tem sido veiculada com a ajuda londrina e infalível Far Out Recordings. Ficaram a ganhar tanto o repertório apresentado, como também os nossos corpos pela riqueza rítmica adicional, que soava à de um grupo que toca junto desde sempre.

Até agora, os concertos de Bruno Berle em Portugal têm sido sempre diferentes, quer na formação em palco, quer nas dinâmicas impostas pelos diferentes “momentos” da setlist. O artista de Alagoas surge maioritariamente à frente e ao centro, destacado dos colegas com voz e violão, mas tem momentos em que recua ligeiramente para interpretar algumas músicas nas teclas — que maioritariamente pertencem a Batata Boy —, bem como adota uma postura de MC para apontar versos mais diretamente aos nossos corações, como acontece com o rap melódico e lo-fi de “Quero Dizer”, onde a voz desce a um registo quase íntimo, como se estivesse a confessar um pequeno delito. Já mais ou menos a meio, Bruno fica sozinho em cena para uma redenção à boleia de um par de canções mais despidas, como que a dar-nos o segundo pôr-do-sol daquele dia. “Olhar Pra Você” e “Arraiada” foram executadas com o violão a respirar devagar, cada acorde suspenso no ar húmido, originado pelo calor humano que se sentia no B.Leza, antes de cair suavemente sobre o público; as letras, murmúrios cúmplices entre o palco e a sala, confirmaram que a ligação entre Berle e Lisboa se tem realmente consolidado desde a sua primeira passagem por cá, em 2023.

Naquela que considera ser uma das suas cidades favoritas em todo o mundo, Bruno voltou a conquistar a audiência com o repertório dos seus dois primeiros discos — os volumes 1 e 2 de No Reino dos Afetos —, e aproveitou também para levantar um pouco o véu daquele que será o seu terceiro álbum, Sem Fronteiras, que levará novamente o selo da Far Out Recordings e sairá no dia 10 de Julho. Os maiores êxitos — “Te Amar Eterno”, “Até Meu Violão” ou “Tirolirole” — chegaram com a inevitabilidade de canções que já pertencem a quem as ouve, cada uma cumprindo a sua pequena sentença de beleza antes de anunciar o fim do show perante uma chuva de aplausos e pedidos por mais música. O encore era inevitável e foi generoso: o cantautor de Alagoas interpretou mais um tema antes de ceder o centro das atenções a Phylipe Nunes Araújo, a mais recente coqueluche do indie brasileiro, que fechou a atuação com duas das canções que eternizou no seu ainda novo e homónimo LP de estreia. A última, “Santa Cruz”, foi executada com alto nível de tecnicidade: uma base rítmica veloz e exigente que “obrigou” o próprio Berle a juntar-se a Nyron Higor na bateria, os dois a erguer juntos o andamento até deixar toda a gente a dançar. Que também Phylipe Nunes Araújo possa em breve pisar um palco português em nome próprio.


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