Bristol Som Sistema

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

A versão, sabe bem quem conheça a cultura musical jamaicana, resulta de um compromisso entre a apropriação de matéria alheia e a impressão de uma marca autoral sobre essa mesma matéria. No caso específico dos sound systems jamaicanos, eco-sistema (literalmente…) carregado de regras, é sobre as frequências e as pistas cozinhadas por produtores nos estúdios de Kingston que essa marca se imprime.

Ontem, no Campo Pequeno, em Lisboa, na primeira de duas noites em que Mezzanine é o prato forte, os Massive Attack — ou a sua versão mais recente — apresentaram-se como uma espécie de sound system, com Robert “3D” Del Naja como o seu operador.

As origens bem documentadas dos Massive Attack encontram-se no Wild Bunch, um colectivo de DJs que procurou erguer uma linguagem a partir dos pontos em comum — ou opostos… — dos discos de dub reggae, soul, hip hop, electro ou pós-punk que eram cruzados em subterrâneas festas de Bristol. Encontram-se nesses cruzamentos os traços de ADN do grupo que depois da edição de Mezzanine se depurou como um duo, com “3D” e Grant “Daddy G” Marshall a sustentarem a carreira subsequente.

O sound system vive de um organigrama muito bem definido: o operator, como Sir Coxsonne Dodd, por exemplo, orquestra um colectivo feito de selectors, que escolhem os discos, toasters, que assumem os microfones, engenheiros, que desenham e constroem as caixas, e até rude boys, que controlam o yard. Del Naja é o Coxsonne Dodd deste sistema de som, assumindo teclas e microfone, e fazendo-se rodear de dois bateristas e um baixista, mais dois guitarristas, outro teclista, e, claro, de um pontual Daddy G que não se percebe bem o que faz, além de exibir a sua imponente e icónica figura, e ainda das vozes de Horace Andy, a ligação directa do colectivo à tradição jamaicana, e Elizabeth Fraser, a lendária voz dos Cocteau Twins que no terceiro álbum dos Massive Attack assumiu o papel que já tinha pertencido a Shara Nelson ou Tracey Thorn em registos anteriores.

Pode, portanto, pensar-se neste colectivo como uma expandida versão dos Massive Attack para 2019, já que o conceito tradicional de banda nunca assentou neste fluído colectivo. Antes de mais, Massive Attack é uma ideia ou conceito que foi sendo crescentemente orquestrado — ou operado, lá está — por 3D, o pensador do grupo, mente irrequieta e criativa, que pensa tanto em termos sonoros como visuais e que sempre foi o responsável por definir o espaço moral e ideológico dos Massive Attack.

Não se pode, por isso mesmo, estranhar o peso no alinhamento do concerto das versões. Temas como “I Found a Reason” dos Velvet Underground, “10:15 Saturday Night” dos Cure, “Where Have All The Flowers Gone” de Pete Seeger ou “Rockwrok” dos Ultravox justificam a sua presença nesta viagem conduzida pelos Massive Attack porque as suas versões originais foram sampladas nas sessões de Mezzanine. Mas há mais: “See a Man’s Face”, original de Horace Andy, reforça a ligação directa à herança recebida da Jamaica, “Bela Lugosi’s Dead”, dos Bauhaus, representa, mais ou menos a um terço do concerto, a matriz original de cruzamento do pós-punk com a estratégia de manipulação de estúdio imposta pelo dub, e “Levels” de Avicci é um assomo fugaz de ironia que se conecta directamente com toda a dimensão visual pensada pelo documentarista Adam Curtis e que é parte fundamental deste Mezzanine XXI.

Líderes mundiais — de Trump a Putin, de Saddam Hussein a Tony Blair ou à Família Real Britânica (curiosamente só uma dessas figuras foi apupada…), ícones pop — Britney, por exemplo — entretenimento, jornalismo, guerra, capitalismo, vítimas de tudo e todos, bombas e assassinatos, imagens da CNN ou de circuitos fechados de televisão são usadas para uma estonteante e caleidoscópica representação do mundo nas últimas décadas, com comentário em várias línguas — a dimensão moral e política do próprio grupo — sobreposto, como um aviso. E uma das mais fortes mensagens passa mesmo pela ideia de controle, exercida por exemplo a partir das redes sociais. Que tanta gente erga os telemóveis, alimentando o loop que o grupo critica, para despejar nas suas redes imagens de “Angel” ou “Teardrop” não deixa de ser profundamente irónico.

Esta versão 2019 dos Massive surge bastante musculada, procurando no seu som presente traduzir o impulso original de derivação em Mezzanine da matriz soul-hip hop-dub de que se fez o arranque da carreira do grupo para um pulsar mais próximo do pós-punk, um terreno que foi igualmente fértil em Bristol, muito graças ao Pop Group de Mark Stewart. Sem pausas para conversas de ocasião, sem interacção de espécie alguma, o concerto vive mais da dinâmica própria de um DJ set (e talvez isso ajude a explicar a passagem pelo “cancioneiro” do malogrado Avicci — e eles bem avisam que vivemos rodeados de fantasmas…) do que um tradicional show rock. Tantos anos depois, portanto, os Massive estão bem mais próximos dos Wild Bunch do arranque do que dos U2 do presente, no sentido em que abdicam voluntariamente das premissas perfomáticas rock clássicas em favor de uma injecção directa e, bem…, massiva de uma ideia que permanece tão disruptiva como no momento em que Blue Lines os revelou ao mundo, já lá vai mais de um quarto de século que se fez de radicais transformações. O que não significa que abdiquem de uma bem recheada banca de merchandising: certas lições da indústria parecem, afinal de contas, ter a sua utilidade…

O “concerto” termina com um apelo ao futuro, ao futuro transformado em que todos temos obrigação de investir. Lá iremos, mal consigamos levantar o olhar desses instrumentos de controle massivo com que postamos muita coisa. Como estas palavras, não é?…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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