Pontos-de-Vista

Ricardo Vicente Paredes

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Em nome da Liberdade.

“Boots On The Ground”: murros no estômago dos Massive Attack e Tom Waits

A música como lugar de intervenção directa — sem apelo nem agravo! Os Massive Attack fizeram uso do seu espaço de intervenção ao lançar o tema “Boots On The Ground”. Música que Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall criaram em certo dia com a inestimável colaboração de Tom Waits na voz. Tema só agora surgido, porque há vezes em que são as ocasiões que pedem as canções que esperam pelo momento certo para serem lançadas.

Londres, 11 de Abril de 2026, Trafagar Square. Mais uma (parecem não ser as suficientes) manifestação de apoio à resistência palestiniana face à ocupação genocida do seu território às mãos do inventado estado de Israel. Robert Del Naja é preso pelo simples facto de expressar a sua opinião. Uma pancarta nas suas mãos com a frase “I oppose Genocide. I support Palestine Action”. Del Naja e mais uns 500 manifestantes levados ao carcel, porque as suas expressões foram (e são) motivo de incómodo. Já na manifestação de 7 de Setembro de 2025, cerca de 900 pessoas tinham sido detidas no Reino Unido por apoio demonstrado ao grupo Palestine Action.

Há que não esquecer a história, e lembrar que a Grã-Bretanha colonizou a Palestina, após expulsar o Império Otomano do território, tornada nova força colona aquando da Primeira Guerra Mundial. Em 1917, a Grã-Bretanha emitiu a Declaração Balfour, pró-sionista. Os britânicos assumiram à época o controlo territorial, apelando então à criação de um país para o povo judeu na Palestina. Estava dado o primeiro passo para o que viria a ser conformado como um novo estado, absolutamente inventado — Israel. Aos dias de hoje, a Grã-Bretanha prossegue cúmplice na  destruição de territórios ocupados como Gaza e Cisjordânia às mãos sangrentas de Israel.

Por outro lado (sendo o mesmo do problema) os Estados Unidos da América, como força armada de supremacia mundial, têm actuado, pela actual administração, numa falsa ideia pacificadora da (des)ordem mundial através da falácia da “guerra em nome da paz”.  Nesse propósito estratégico, o uso de intervenções militarizadas têm-se esquivado ao cunhado termo de “boots on the ground”. O mesmo será dizer de uma renovada estratégia de não comprometimento de tropas no terreno — antes tudo pelos ares.

Contudo, a criação de policiamento militarizado interno, para perseguição e controlo de migrantes — Immigration and Customs Enforcement’s (ICE) passou a actuar efectivamente com botas no terreno. O intensificar da actuação do ICE fez tombar à vista desarmada vidas que se opuseram à sua presença. Lembramos Renée Good, morta a tiro a 17 de Janeiro, e Alex Pretti a 24 de Janeiro, ambos nessa Minneapolis sitiada pelas tropas do ICE. Até Março de 2026, oito pessoas pareceram como vítimas directas do ICE ou sob a sua costódia. Em memória expressa de Geraldo Lunas Campos, Luís Gustavo Núñez Carceres, Luís Beltran Yanez Cruz, Parady La, Heber Sánchez Domínguez e Victor Manuel Díaz.

Com “Boots On The Ground”, os Massive Attack relembram o estado de sítio actual, fazendo das botas no terreno um terror generalizado ameaçando ideias, liberdades de expressão e a própria vida. As  mesmas botas no terreno que asfixiam até à morte. A 25 de Maio de 2020 era morto na rua o cidadão negro George Floyd aos joelhos e botas do polícia branco Derek Chauvin, em Minneapolis. Ou Breonna Taylor a 13 de Março de 2020 em Louisville — mencionada nas imagens do videoclipe.

Entre 1980 e 2018, de acordo com a publicação The Lancet, nos Estados Unidos padeceram às mãos e botas da polícia (mais ou menos militarizada) mais de 30.000 pessoas, mais de metade com justificações incorrectas como causa de morte. O vídeo que acompanha o tema “Boots On The Ground” é uma compilação do artista thefinaleye, fotógrafo norte-americano que encapsula seis anos de protestos contra o estado autoritário e de repressão policial militarizada nos EUA. As imagens também dizem respeito ao outro lado dos comandados repressores e mais adiante vitimas, com a realidade a apontar aos cerca de 33.000 sem-abrigo de hoje, outrora militares ao serviço da guerra — agressores descartados tornados vítimas.

As botas que não souberam, puderam ou quiseram descalçar pesam-lhes hoje (e muito) no andar. Parecem só haver duas tonalidades possíveis, o rubro flamejante e o negro. Até Fevereiro de 2026, das mais de 68.000 pessoas detidas pelo ICE, cerca de dois terços não tinham quaisquer antecedentes criminais. Estima-se que mais de 8.000 vistos de permanência de estudantes tenham sido revogados e relacionados com com actividades pró-palestinianas. Em 2020, como acrescento às forças policiais, mais de 43.000 militares foram empregues no controlo dos protesto do movimento Black Lives Matters. Contra factos, quais os argumentos?

Como se tudo isso fosse só uma triste realidade a que nos habituássemos a ver pelo ecrã num país distante. Não esqueçamos que em Março último mais uns agentes (sete), além dos dois já anteriormente detidos, estão sob suspeita de práticas de tortura, sodomia e abuso de poder na Esquadra do Rato perante migrantes sem-abrigo em Lisboa. Como casos bem recentes e revoltantes a juntarem-se a outros que compõem o rol de vítimas face à brutalidade repressiva de forças policiais ao serviço do estado. Não passarão em claro! Como os que dispararam à queima-roupa — a matar — sobre Odair Moniz na Cova da Moura, numa versão envolta em reles disfarces de encobrimentos. Ou ainda do envolvimento de elementos das forças (tidas como) de segurança em redes de exploração e tráfico de migrantes em contexto (neo)esclavagista rural. E o que ficou afinal por saber e contar da verdade sobre a morte de Ihor Homeniuk — cidadão ucraniano morto sob tortura em Março de 2020 no Aeroporto de Lisboa às mãos de inspectores do então Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Ou como Aissa Ait Aissa poderia estar vivo se, em Março de 2024, não tivesse sido vítima de espancamentos por dois agentes da PSP de Olhão.

Haverá que dizer que não é ficção que também manifestantes foram sujeitos a termo de identidade e residência por terem organizado protestos contra o genocídio em curso na Palestina em Portugal. A somar aos casos concretos de demonstrações de expressão de solidariedade com a Palestina durante a Volta a Portugal em bicicleta em Agosto de 2025. Quando, à passagem da Volta pela Nazaré, duas dezenas de pessoas sofreram abusos policiais, com intimidação, empurrões e identificações impostas por segurarem bandeiras da Palestina e cartazes críticos do regime sionista de Israel. Ora fossem bandeiras portuguesas as que erguiam e tal não teria sucedido. Ou na passagem pelas Caldas da Rainha, onde uma pessoa acabou detida por igual motivo. E ainda aquando da etapa final em Lisboa, na ponte pedonal entre o Cais Fluvial de Belém e o Museu dos Coches, polícias da PSP não permitiram que 14 pessoas atravessassem por estarem com bandeiras da Palestina. Daí até à cena final do pódio sucederam-se mais episódios de controlo e repressão policial sobre os manifestantes pacíficos.

Ou ainda o inverosímil relato do suposto envio de um “engenho incendiário” contra manifestantes da Marcha pela Vida em frente à Assembleia da República no dia 24 de Março último. Ora a PSP foi lesta em prender e em comunicado ter levantado a hipótese de se tratar de um “atentado anarquista”. Ao dia de hoje, esse suspeito está em prisão preventiva e putativamente relacionado como militante socialista. Tendo-lhe sido agravada a medida de coacção sem novos factos ou comportamentos o justificassem. Soa a estratégia política para um móbil que logo no primeiro instante levou a manobras para levar a propor a acção de grupos anti-fascistas como terrorismo contra o estado. Lembrar que foi o movimento anti-fascista que lutou extensivamente contra o Estado Novo e trouxe a liberdade que enterrou o fascismo. Foram os e as anti-fascistas quem deram muitas das vezes a própria vida para que a Liberdade se tornasse uma conquista, e que aos dias de hoje continuam em acção porque os ressurgimentos do fascismo ameaçam essa mesma Liberdade conquistada para todos e todas nós.

As palavras escritas, e recitadas na rouquidão denunciadora de Tom Waits, recordam também as   outras em “Boots” de Rudyard Kipling em 1915. Evocativas da marcha lenta e torpe dos soldados, e lida por Taylor Holmes. Tanto “Boots” como “Boots On The Ground” esvaziam o heroísmo belicista, rementendo a cadência das palavras subjugadas ao ritmo marchante a um sentido ignóbil da violência e repressão. Quando Waits declama, meio que a cantar “Well something goes tink when the cartridge is spent / Where do you think all your cartilage went”, parece desarmarem-se as tropas… assim fosse fácil. Contudo fica exposto ao que vão e o que valem. Talvez um dia essas botas (todas elas) não mais marchem e manchem o chão que pisam.

“It’s cold and hot, as Satan’s hoof
Spinning on the world I’m hiding on a roof
I kill a brown man I never ass knew
Choked on spit and then he turned blue
He spattered black blood, he rolled fin out
He died right here I got the pearl from his snout
A puff of gray smoke from the tongue of a cloud
He rotted in the sand and all that they found was his
boots on the ground, boots on the ground, boots on the ground”


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