Black Taffy // Elder Mantis

[TEXTO] Manuel Rodrigues

Dizer que a música tem uma função terapêutica pode parecer por vezes algo poético ou de dimensão estritamente espiritual. É mais do que isso, na verdade. Em Setembro de 2017, o site Pitchfork publicou um artigo, intitulado Can Music Heal Trauma? Exploring the Therapeutic Powers of Sound, que explora a fundo a faceta terapêutica do som e consequentemente da música. Jayson Greene, o autor da peça, começa por abordar os momentos que se seguem ao nascimento de um bebé e mais precisamente o trabalho de Christine Vaskas Churba, uma terapeuta da música que exerce no hospital Mount Sinai, em Nova Iorque.

Vaskas Churba trabalha na unidade de cuidados intensivos para neonatos e tem como principal missão tocar música para crianças recém-nascidas. Não o faz através de música reproduzida com recurso a altifalantes mas sim presencialmente, ao vivo. “O nosso objectivo é criar os sons do útero”, revela Christine nesse mesmo artigo, “o processo é sempre ao vivo, porque pode haver a necessidade de mudar a música no momento. Quando a frequência cardíaca aumenta podemos ir ao encontro desse batimento e diminuí-lo”. Para que tal seja possível, Churba utiliza vários instrumentos. Um deles é a Gato Box, uma caixa que permite simular os batimentos cardíacos da mãe; o outro é o Ocean Disc, uma espécie de bandeja com pequenas contas que recria o vaivém de fluídos no interior do útero.

Ao ouvirem sonoridades que lhes sejam familiares, os recém-nascidos amedrontados acalmam-se e começam a respirar com maior naturalidade. O processo de amamentação atinge melhores resultados e adormecem com mais facilidade. Há estudos que indicam ainda que tal familiarização poderá garantir também uma maior concentração de oxigénio no bebé. Não é normal associarmos comportamentos primários como a respiração, os batimentos cardíacos e a alimentação à música, mas a verdade é que estão. E esta é apenas a ponta do icebergue abordado pelo interessantíssimo artigo da Pitchfork que se estende, igualmente, a pessoas de idade adulta.

Elder Mantis, o álbum de estreia de Black Taffy, produtor norte-americano e antigo baixista da banda This Will Destroy You, tem uma certa e inexplicável dimensão terapêutica, capaz de penetrar no sistema nervoso e reduzir os batimentos cardíacos para valores muito próximos dos que os neonatos na unidade de cuidados intensivos do hospital nova-iorquino conseguirão atingir. Na origem desse processo poderá estar um resgate a todo o imaginário post-rock do colectivo do qual fez parte, onde se esculpem livremente intensos e evolventes ambientes, contudo, existe neste disco um tratamento especial e singular que vai muito além de uma vulgar articulação textural.



Em Elder Mantis, Donovan Jones explora um amplo universo de cordas e embebe-o em batidas simples e secas, o leito ideal para os restantes instrumentos se alongarem enquanto se expressam harmoniosamente. Ao longo dos 12 temas que compõem a obra, é possível ouvir guitarra, piano, harpa e koto – um instrumento tradicional de cordas japonês com uma sonoridade muito específica que muito rapidamente faz com que o ponteiro da bússola rode para oriente. Importa a variedade injectada na obra mas importa ainda mais a forma como estes elementos surgem organizados, sem nunca chocarem entre si, como se a malha resultante tivesse sido entrelaçada por um experiente marinheiro de águas pacíficas.

E é precisamente de paz que Elder Mantis trata. Uma calmaria que vive ancorada à dimensão espiritual e à profunda meditação mas que também mexe directamente com o corpo, regrando a pulsação, auxiliando a respiração e aliviando a tensão muscular. “Geraldine”, o single do álbum, faz-se valer de um loop de harpa para nos transportar para um paraíso idílico repleto de criaturas aladas e outros seres que só o domínio da fantasia consegue recriar, rodeados de cortinas de água que se deixam atravessar pela luz e vegetação policromática. “Divining Rod”, o tema que abre o disco, carregado de grave e com uma batida propositadamente incerta e algo manca, serve de preâmbulo para uma “Corridors” onde os tempos se acertam e através da qual o álbum encontra um trajecto luzidio que desemboca naturalmente no single.

O trajecto de cordas segue até chegar a “Switchback”, canção que medeia o disco. As batidas continuam a desempenhar um papel crucial na trama, mas desta vez é a flauta que interpreta o guião principal, imprimindo assim um sentimento nostálgico no preciso momento em que o disco passa para a sua segunda metade. “Jaguarundi” marca o regresso ao enredo inicialmente proposto e abre caminho para o interessante jogo de aceleração e desaceleração de “Private Shows”, onde se pode escutar também uma interessante secção de violinos. O exercício de pára-arranca repete-se em “Lantern Flies in Mist” e junta-se a uma sublime mistura de cordas para criar o tema mais relevante da recta final do disco, rematado pela suavidade singular de “The Empty Mirror”.

Elder Mantis não é um álbum de grande dinâmica instrumental e muito menos uma colecção de bangers para reproduzir com as colunas da aparelhagem no máximo. É, isso sim, um projecto para saborear calmamente no conforto do lar depois de um árduo e agitado dia de trabalho. Elder Mantis afasta o stress, recoloca a tensão arterial nos níveis considerados normais, relaxa a mente e prepara-nos para uma noite de sono calmo e profundo, que nem um bebé estendido numa confortável alcofa e embrulhado em lençóis de flanela. São horas de ir dormir.


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