Alessio Natalizia aka Not Waving: “O Mark Lanegan tem uma atitude incrível perante a música”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Robin Sinha

Alessio Natalizia tem, de forma consistente, construído um dos mais sólidos percursos dentro da electrónica menos, digamos, conformada: entre o techno, o electro primitivo, abstraccionismos de inspiração kosmische, derivas industriais e um som que justamente se pode e deve descrever como exploratório, Alessio como Not Waving editou já uma dúzia de títulos, incluindo colaborações com outros musonautas inspirados como Pye Corner Audio, Powell ou até Jim O’Rourke, nomes com que repartiu algumas edições.

O caso presente é, no entanto e a vários títulos, diferente: o novo álbum de Natalizia, Downwelling, é creditado a Not Waving & Dark Mark, sendo que o Marco Sombrio é, nada mais, nada menos, do que Mark Lanegan, músico que conhecemos de outros universos musicais. Lanegan foi membro fundador dos Screaming Trees, uma das bandas que nos anos 90 foi associada ao grunge, passou pelos Queens of the Stone Age, colaborou com Isobell Campbell dos Belle & Sebastian, formou os Gutter Twins com Greg Dulli dos Afghan Whigs e trabalhou, já mais próximo do universo da electrónica, com os Soulsavers ou com os UNKLE de James Lavelle. E isto para lá de um sem fim de colaborações pontuais que o atiram para múltiplos pontos do mapa musical, numa carreira que realmente só parece obedecer a um generoso impulso criativo. Ainda assim, descobri-lo numa edição da Ecstatic de Natalizia, editora que além de Not Waving ou Pye Corner Audio tem lançado material de gente como Abul Mogard, Jay Glass Dubs ou, entre outros, L/F/D/M, não deixa de ter o seu grau de surpresa.

Alessio Natalizia, no entanto, considera “preguiçoso” encarar estes encontros como simplesmente “inesperados” e prefere sublinhar os pontos de contacto e as sintonias que ao longo dos tempos foi descobrindo com o músico com quem agora lançou o bastante nocturno Downwelling, trabalho com nove faixas em que Lanegan soa nobre, magoado, desenrolando palavras carregadas de simbolismo que abordam a religião e a espiritualidade, a morte e o vazio, muitas vezes num único tema, como é o caso da poderosa abertura com “Signifying The End”, ponto de partida para uma intensa viagem em que a voz ocupa sempre o centro e a música de Not Waving não faz, ainda assim, qualquer tipo de concessão, soando funda e experimental, séria e exigente, procurando quase sempre o desconhecido.

Natalizia respondeu a um email com algumas perguntas e lança sobre esse sombrio novo registo em que trabalha sobre as vozes de Mark Lanegan alguma luz. Para lá disso, ainda aborda o lançamento recente do trabalho que Bruno Silva, colaborador pontual do Rimas e Batidas, assinou como Serpente para o catálogo da Ecstatic, Parada, uma singular e oblíqua homenagem ao Prince de Parade.



A primeira questão é óbvia: como é que aconteceu esta colaboração? Como é que se conheceram?

Há alguns anos, eu recebi um e-mail do Mark a dizer, entre outras coisas incríveis sobre a minha música, que o meu álbum tinha sido o seu álbum favorito do ano e a perguntar se eu queria fazer uma remistura para ele. Eu fiz uma remistura horrível. Quando saiu, os fãs do Mark odiaram e eu pensei que seria ali o fim da minha relação com ele. Mas mantivemos o contacto por e-mail, falando bastante sobre a vida, a política, a música e, eventualmente, enquanto trabalhava no meu álbum seguinte e pensava em quem convidar para cantar em algumas músicas, achei que seria cool perguntar ao Mark. Ele disse-me que o faria, mas que eu teria que lhe enviar algumas faixas para ele escolher uma. Enviei-lhe seis e ele respondeu-me a dizer que tinha adorado todas e que devíamos fazer um disco juntos. Passado poucos dias, enviou-me as vozes e as letras todas.

Uma das colaborações mais naturais que já fiz. Assumo que seja inesperado mas, se pensares bem, é tão preguiçoso definir as coisas como inesperadas, como se estivesses a meter limites nas possibilidades e na criatividade. É aborrecido.

A música foi escrita e gravada nos últimos cinco anos na minha casa em Londres. “A4” foi gravada na casa dos meus pais em Vasto (Itália) enquanto “B1” e “B4” foram gravadas em Paris. O Mark gravou em Los Angeles.

O Mark estava a par da tua música antes disto?

Sim. Ele tem sido um apoiante da minha música e tem todos os meus discos. O Mark tem uma atitude incrível perante [o mundo d’] a música. Ele trouxe de volta vários feelings positivos na forma como vejo a música e o lado do negócio que lhe está associado. Especialmente ao trabalhar na bolha da música electrónica, eu acho que é fácil tornares-te negativo e estratégico e falhar o verdadeiro ponto de criar música e criar algo que te faz sentir bem. Estou grato ao Mark por me ajudar a desapegar das más vibrações e por me dar força para acreditar no que faço.

Não és estranho às colaborações mas nesta aqui mostras estar disposto a ir mais além daquilo que é o teu “habitat natural,” por assim dizer. O que te levou ao Mark Lanegan em primeiro lugar?

Nada me leva até ninguém, as coisas apenas aconteceram porque sim. Cada colaboração se tem desenvolvido de forma natural, com base na amizade e respeito mútuo.

De que forma foi construído o álbum? Enviaste-lhe pistas, chegaram a estar juntos no estúdio em determinado momento? Algumas das músicas soam inspiradas nos próprios textos. Tiveste acesso a eles ou o Mark falou-te das letras previamente?

Não. O Mark escreveu as letras quando ouviu a música. Ele ficou verdadeiramente inspirado pela música e escreveu tudo muito rapidamente.

Vamos poder ver isto a acontecer ao vivo?

Sim, nós vamos tocar o nosso primeiro espectáculo no Atonal, em Berlim, no final de Agosto, e depois fazemos mais alguns festivais até ao final do ano. Seria giro fazermos uma digressão conjunta em algum momento mas vamos ver onde o destino nos leva.

A Ecstatic editou recentemente um projecto de um produtor português, o Bruno Silva. Isso foi também uma surpresa… Como é que aconteceu? Vão editar mais coisas vindas de Portugal?

Eu conheci o Bruno quando toquei com ele no espantoso espaço da ZDB, em Lisboa. Amei aquele lugar e desejo lá voltar! Jantei com o Bruno e a sua namorada e eles foram super simpáticos. Toda a gente que eu conheci foi fantástica. Amei absolutamente Portugal. Já aí passei férias há três Verões e fiquei impressionado. De qualquer forma, gostei imenso do espectáculo do Bruno e mantivemos o contacto. Um dia ele enviou-me as faixas do Parada e eu fui-lhe enviando algum feedback, até que decidi que elas deveriam sair pela Ecstatic. Ele está a trabalhar em mais material com vista a editar mais pela label.

A Ecstatic aproxima-se da 50ª edição: há alguma coisa de especial planeada?

Há muita coisa a ser estudada. Eu não sou muito bom a planear e não gosto de gerir a editora de forma “profissional”, o que não quer dizer que eu não a leve a sério. De facto, sou extremamente sério em relação a ela. Todas as edições são especiais para mim, claro. Não estou interessado em seguir tendências ou a saltar de um comboio para o outro. Quero que os ouvintes conheçam os artistas e não a editora. Não estou à procura de transformar a editora numa marca. O termo “marca” deixa-me enjoado. A Ecstatic é uma plataforma para que as pessoas conheçam a música e a malta que eu adoro. Mantém apenas os teus ouvidos abertos e, esperançosamente, eu consigo baralhar as tuas expectativas.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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