Parte do futuro do hip hop mora na Dreamville

[TEXTO] Samuel Pinho [FOTO] Direitos Reservados

Recursos humanos são o factor preponderante de toda e qualquer empresa, agência, equipa ou crew que pretenda singrar nos dias de hoje. A bem de uma correcta renovação geracional, ou simples substituição de activos, é imperativo que esses ajuntamentos detenham uma política de contratações bem delineada e uma estratégia clara no que à captação de novos talentos concerne. Por norma, essa política não surge evidenciada no manual de normas caseiro ou no manifesto mais óbvio. Por vezes é tácita, nem sempre declarada, embora sempre perceptível no médio e longo-prazos.

No hip hop são por demais evidentes as adições a labels que acabaram completamente goradas, para não mencionar as que saíram furadas. Nos tempos recentes, quantos rappers acabaram por “morrer” na G.O.O.D. Music? Quantos outros iniciaram contenciosos com a Def Jam Recordings, espelhando uma insatisfação pouco comum?

A Frank Ocean, Chance The Rapper ou Joey Bada$$ não lhes veneramos somente a música. Hoje, idolatram-se os casos de sucesso que ousaram permanecer independentes. Mais que um símbolo de rebeldia, louva-se-lhes a coragem na hora de virar a cara a apoios logísticos e a ajudas de custo, bem como a empréstimos avultados, potencialmente hipotecadores. Pesados os prós e os contras, as labels actuais são olhadas como potenciadoras de vantagens e constrangimentos em doses semelhantes, mais ainda num mercado em que a excepção celeremente se faz norma vigente.

Porém, e se levarmos à letra o tão típico dito português cada tiro, cada melro, há alguém muito atento às tendências musicais e ao seu próprio público-alvo. Mais vital que tudo isso, possui talvez a visão mais lúcida do jogo, comparativamente a outros jogadores do seu calibre e estatuto. Falo de J. Cole, o produtor feito rapper, tornado scout e co-fundador da Dreamville.

Ninguém espera que a label reivindique para si o papel ou a preponderância de uma TDE, nem mesmo o mediatismo da famigerada OVO Sound. Por sua vez, é expectável que apresente um cardápio variado e consistente, aliando uma grande execução técnica a um conteúdo rico, em linha com a mais fina tradição de storytellers do género. E isso tem sido alcançado com relativa destreza. De resto, tamanho feito – atingido com mensurável sucesso – só poderia derivar de alguém com a obstinação de Jermaine, tão rígido quanto aos meios, tão hirto quanto aos fins, tão resoluto no seu próprio modus operandi.

A lista de contratações parece assentar numa premissa simples: activos promissores, longe de estarem consolidados, donos de um estilo próprio e oriundos de uma realidade que lhes permita capitalizar a oportunidade conferida. Sem pressão, sem obrigações, sem prazos esgotados. Num artigo da Forbes, Cole é citado a propósito de uma declaração de intenções atípica, no mínimo: “I’m not putting any pressure on my artists to chase radio singles. It’ll take longer for them to break, but they’ll have long, sustainable careers”.

Ao assegurar alguns dos storytellers mais capazes da geração vindoura, J. Cole não só garante um produto musical endereçado às mentes dos fãs mais atentos, como não descura a admiração dos que prezam um estilo de rap mais leve, mais focado nas sonoridades e menos no conteúdo. Contrariamente ao seu mentor, não poucas vezes mensageiro por via de instrumentais de dureza acima do recomendável, tanto J.I.Dcomo os EarthGang são capazes de aliar conteúdo potente a formas habilmente cativante. Fazendo-o de forma consecutiva e continuada, garantem um lugar no futuro do rap.

 


[BAS]

Filho de pais sudaneses, viveu em Paris até aos 8 anos. Podíamos nunca ter escutado um verso dele, caso um colega não o tivesse coagido a rimar, lá para 2010. Ingressou na label numa das primeiras fornadas. À data era um perfeito desconhecido. Com o selo Dreamville já conta 3 projectos, com justificado destaque para Too High To Riot. O álbum trata e reflecte, numa inflexão face ao predecessor, os sacrifícios e efeitos laterais da vida fantasiástica levada pelos artistas em geral e pelos rappers em particular. É um compêndio de aprendizagens dado à luz em forma de contos soltos. Para todos os efeitos, é um álbum pesado e um tanto sombrio. Amargo e bruto, de uma extrema consciência. Mas real, genuíno e autêntico. (É tão estranho que isto sirva como elogio a qualquer um que se dedique a criar arte.)

 


[LUTE]

Na escola, competia com os amigos para averiguar quem detinha os melhores dotes rimáticos. As resmas de folhas infindáveis, que a mãe sempre julgou serem cartas de amor, contêm os versos de uma adolescência inteira. West Pt. I, mixtape lançada em 2012, foi relativamente bem recebido, tendo até captado alguma atenção, ainda que sem imediato retorno financeiro ou mediático. O lirismo está todo lá e o ow é hábil, facilmente moldável. Tudo isso é audível no 1º projecto.

Esteve muito perto de abandonar a música: com uma filha em casa e obrigado a sustentar ambas – a filha e a casa – estava no seu expediente de trabalho na Walmart quando lhe foi dito que J. Cole havia apreciado as suas faixas. O mais recente projecto foi lançado em Setembro do ano corrente e legitimou todas as fichas nele apostadas. West Pt.2 é uma porta aberta com visão privilegiada para os últimos anos da sua vida.

Com a habilidade de um contador experiementado, leva-nos pela mão e mostra-nos um interior ímpar apoiado em beats suaves, facilmente assimiláveis. Olho e ouvidos neste menino.

 


[EARTHGANG]

Devo admitir que a seleção hierárquica foi tudo menos inocente mas, caramba, já ouviram este duo? Já sentiram esta energia? Nadaram nesta vibe? Versos frenéticos, letras apuradas e instrumentais feitos à medida da hiperactividade destas duas personagens. Doctur Dot e Johnny Venus são a prova viva de que nem sempre o meio que nos circunda leva a melhor sob as pretensões pessoais: oriundos de Atlanta, essa distinta terra tão regada a trapalhada, surgem empenhados em re-colocar o estado no mapa do rap.

Soam a algo novo, dificilmente antes ouvido, apesar de fazerem música há praticamente uma década. Um hip hop fresco, regado a soul e funk nas doses certas, é a receita predilecta deste par. Apesar de (ainda) configurarem um segredo bem guardado, os dois mais recentes EPs (Rags e Robots) mereceram menção em algumas das mais renomadas publicações dedicadas ao género. Não deixa de ser espantoso que os lançamentos ocorreram entre finais de Outubro e fins de Agosto, altura em que assinaram pela Dreamville. Os elevados índices de produtividade, quando conjugados com tão inegável qualidade, auguram algo promissor…

De momento, encontram-se em digressão com J.I.D e a sua Never Had Shit Tour.

 


[J.I.D]

Chegámos, por fim, à pérola mais bem guardada e, porventura, a prova de que as últimas contratações foram mesmo as melhores. Ah, e a última prova da indiscutível pontaria do gabinete de scouting da label. Igualmente oriundo de Atlanta, engrossou as hostes no presente ano e já lançou um dos projectos mais relevantes de 2017. The Never Story tomou tudo e todos de assalto, exibindo de forma inequívoca os dotes líricos e o seu estilo ímpar. Mais uma vez, encontramos uma sonoridade tão exímia que o conteúdo nem nos soa tão cru.

Nascido e criado como o mais novo de 7 irmãos, é um anti-trap inveterado: refere que o género deixou de ser o nicho à-la-blues da classe operária, para se transformar num antro de posers embebidos em materialismo. Para além disso, abomina todo o lifestyle propagandeado. Da minha parte, para além de tal dizer muito acerta da personalidade, não poderia estar mais de acordo.

Rolling Stone, Complex, Pigeons and Planes e Pitchfork são algumas das publicações a lançar o repto para que o mantenhamos debaixo de olho. Já agora, o Rimas e Batidas também recomenda.

 


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