Landim: T$D, do boom bap ao trap e a Linha de Sintra

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Trap’s Drama aka T$D, a quarta mixtape assinada por Landim, é uma produção que deriva para outras margens sonoras quando comparada com as compilações presentes no portfolio do rapper de Mem-Martins. De uma abordagem estética assente no boom bap dos anos 90, Osvaldo Landim, nome próprio, passou para uma meada mais electrónica dentro dos limites do hip hop, coleccionando beats trap que escutava nas malhas de artistas norte-americanos que lhe servem de referência (como A$AP Rocky – percebem agora o T$D face a L$D?) para depois se lançar às suas rimas.

“Num formato trap posso e sei que chego a outro tipo de ouvintes, quebrando a barreira linguistica através do som.” Afirmação do MC da Linha de Sintra que coloca T$D sobre uma perspectiva que extrapola a mera abordagem rítmica: os beats têm aqui uma relevante dimensão até na própria língua aplicada ao discurso. “Já não interessa se é rimado em crioulo ou em português, basta ter qualidade e as pessoas vão ouvir.”

Se há elemento que prevalece no rap de Landim é o selo street, que só se adquire com o desenrolar de uma história de vida cujos cenários são sempre as mesmas paragens. Landim nasceu em Cabo Verde, passou parte da infância em Matarraque, Cascais, e cedo se mudou para Mem Martins, crescendo para a vida nas ruas que se interceptam como uma teia em toda a Linha de Sintra e testando-se a rimas há 10 anos atrás. Os relatos de rua são, assim, pungentes exposições nas faixas de T$Dmixtape que se coloca bem ao lado de produções made in Linha de Sintra que se têm destacado por uma semelhança estética – NGA, Gheez,… – e que nos questionam se estamos perante um carimbo singular de território nacional no que diz respeito às produções hip hip.

 

Já lá vão dois anos desde a última produção a solo. Como é que foi regressar ao estúdio?

Foi muito bom, senti-me em casa no Weshtudio, em Cascais. As saudades de estar no ambiente de produção, de criação, com os meus manos por perto no estúdio já eram muitas e foi quase como um alívio. Finalmente posso gravar.

“Trap” está no título e em toda a sonoridade da mixtape. O que te levou a criar uma esta compilação de meadas electrónicas dentro do hip hop e como é que foi a adaptação na escrita de rimas a esta sonoridade?

Digamos que já andava a fugir das minhas vontades há muito tempo. Em todos os trabalhos que compilei, muito marcados pelo estilo 90s boom bap, sempre houve um ou outro instrumental num estilo diferente, em tempos diferentes, que me permitisse abordar flows diferentes. Exemplos disso são sons como “Deus é Grande”, “Kaminhu Funeral”, beats de Brotha Lynch e Soulja Slim. Em relação ao Trap’s Drama, foi basicamente juntar o ouro e o azul: agarrei em algumas letras, fiz algumas alterações para poder ter uma métrica curta e ao mesmo tempo conseguir sempre transmitir uma mensagem ou um fio de pensamento em cada faixa. No início do processo foi difícil a adaptação lírica, deixou-me mesmo com algumas dúvidas, mas não há nada mais gratificante que ouvir o trabalho na sua totalidade e sentir-me realizado.

De facto há aqui uma grande mudança em termos de som comparando com Kamikaze. O que é que a sonoridade trap tem que aprecias nela?

Em termos de letras, entre o projecto Kamikaze e este T$D não há muita diferença. Vivi para depois escrever sobre. Agora, num formato trap posso e sei que chego a outro tipo de ouvintes, quebrando a barreira linguistica através do som. Já não interessa se é rimado em crioulo ou em português, basta ter qualidade e as pessoas vão ouvir, vão consumir, pode até tocar no club ou num concerto e meter toda a gente a curtir. Ao nosso estilo, KsDrama.

E o que é que te tem influenciado nos últimos dois anos que se reflecte na sonoridade desta mixtape?

Acima de tudo sou um grande adepto de rap e gosto de estar sempre em cima das novidades, quer no panorama nacional quer internacional. O trap atingiu-me de uma forma especial, ao seguir artistas como A$AP Rocky, Bankroll Fresh, Nipsey Hussle. Senti que havia uma nova brisa onde podia reinventar-me e voltar novamente a fazer música da maneira mais livre possível.

Evolui o som ao ritmo da vivência, do dia-a-dia. O que é que mudou na vida do Landim nos últimos dois anos?

Muita coisa mudou, mas no fundo a essência também se manteve. Depois de nove anos de rap há agora uma necessidade e vontade de encarar um novo desafio, algo que realmente puxe pela minha mente. Sempre fiel a uma conduta, a um certo tipo de vocabulário que nos diferencia, e que também nos carateriza, como sendo street.



As ruas e a Linha de Sintra continuam a ser a tua fonte de inspiração na escrita? Que abordagem temática traçaste para esta mixtape?

Sem dúvida. A faixa “300”, com a participação do mano Vado, é uma demonstração disso mesmo. Somos dois filhos da Linha de Sintra, de zonas distintas mas com um background similar. Muito do que canto são ensinamentos das ruas, para as ruas e não só. Tentei que os temas representassem um estado espírito diferente neste panorama do rap crioulo.

Em toda a mixtape só colaboras com dois rappers – Vado e LL. Pretendias criar uma mixtape de assinatura única ou não encontraste mais ninguém que se encaixasse neste teu trabalho?

Nem por isso, também tive outros MCs em mente para o projeto, como Mota Jr e Lalas. As circunstâncias fizeram com que não fosse possível, mas quem sabe talvez fique para um segundo volume da mixtape. Foi muito fácil e rápido trabalhar com o Vado, superou todas as expetativas. Foi só enviar o beat e um rascunho do tema “300” e passadas duas semanas já estávamos a gravar no Wesh. Quanto ao grupo LL, estamos a falar de três manos praticamente desconhecidos mas com muito rap para dar e, como temos gostos muito parecidos em relação à música e à vida no geral, o processo no estúdio a escrever e depois a gravar foi quase automático. Em pleno Bairro Alto, “Melodias di Street”. Quem esteve presente sabe. Estes manos ainda vão dar muito que falar, sem dúvida.

Foste tu quem produziu a mixtape no seu todo, incluíndo os beats?

A maioria dos instrumentais fui encontrando ao longo do tempo. Enquanto ia ouvindo algumas faixas de trap que curtia, ia reunindo os respectivos instrumentais. Foi um processo demorado, porque mesmo fazendo um estilo trap havia uma sonoridade específica que queria fazer passar e abraçar. Os únicos beats originais são dos sons “Intro” e “Melodia”. Foram produzidos pelo mano Scum 49, do Algarve, mas quem me mostrou os beats foi o mano C.R.E.A.M, “LL”.


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O rap na Linha de Sintra é muito simples, porque relata a realidade. Há uma linha de respeito entre os MCs e os bairros que prevalece porque quase todos passámos ou partilhámos experiências aqui na nossa Linha.


Não sei será mera coincidência, mas de há uns meses a esta parte tenho reparado que as produções mais empolgantes da Linha de Sintra são de trap puro, como não se ouve no resto do país – falo de faixas como “Normal” de NGA, “Dope Lyrics” de Gheez a agora a tua mixtape. Sentes que está a nascer uma sonoridade muito própria da Linha de Sintra que se vai distinguir do restante hip hop que se faz em Portugal?

Com todo o respeito a todas as outras zonas, creio que toda a gente sabe o que representa a sonoridade proveniente da Linha de Sintra. Todo o hip hop português ou rap tuga, rap crioulo, etc., está de olhos postos em nós. Sabem tudo o que fazemos e seguem os passos que damos.

Como é que defines o hip hop made in Linha de Sintra?

O rap na Linha de Sintra é muito simples, porque relata a realidade. Não é só aqui que isso acontece, mas nesta zona é sempre assim. Há uma linha de respeito entre os MCs e os bairros que prevalece porque quase todos passámos ou partilhámos experiências aqui na nossa Linha. Há uma proximidade entre artistas e seguidores, fãs, admiradores, é algo quase familiar. Mas em relação ao rap, a Linha de Sintra é muito simples e directa. Fake MCs não andam de comboio.

Que impacto esperas que esta mixtape tenha no hip hop da Linha de Sintra e em Portugal?

Espero que esta mixtape mostre aos ouvintes que o rap é sempre aquilo que o MC decidir escrever e passar na sua mensagem. Quero que mostre que não há limites nem regras. Espero que sintam os sons tanto como eu. Esperem o inesperado, sempre.

Como é que a malta pode adquirir uma cópia da mixtape?

Podem adquirir na loja Son of a Gun, que fica na Rua da Rosa, Bairro Alto. Caso queiram receber através dos CTT Correios, basta enviar uma mensagem para a minha página do Facebook, ou um email. Morada, nome completo, código postal… E já é. Landz, one love.

 

Trap’s Drama (aka T$D) está disponível para download gratuito aqui e para escuta no SoundCloud.

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.