Joaquim Paulo (Mad About Records): “O mercado de vinil vive um período extraordinário”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Procura-se uma Virgem de Erlon Chaves marca a estreia formal da Mad About Records, editora criada por Joaquim Paulo, coleccionador, autor dos livros Jazz Covers e Funk & Soul Covers e activista sónico que tem o seu espaço de divulgação semanal na Antena 3. Tal como podemos ler no site da rádio, Matéria Prima é “um mergulho profundo na grande música negra. Do jazz ao funk, do afrobeat à soul, com o Brasil sempre à espreita. Joaquim Paulo traz da sua colecção discos raros, clássicos, obscuros e fundamentais. Música de um outro tempo que ainda hoje é influente e procurada. Exclusivamente em vinil.”

Da rádio para a edição de discos, o salto não foi fácil, mas nada que não se tenha resolvido com uma paixão gigante pela música. “A batalha de obtenção de licenciamentos foi longa. Foi sem dúvida o trabalho mais complexo. Convencer majors a disponibilizarem direitos é uma tarefa tremenda. Por outro lado, tentar chegar a micro-editoras desaparecidas é trabalho de detective”, revelou Joaquim Paulo em conversa com o Rimas e Batidas.

Depois da reedição do álbum de Erlon Chaves (que já está esgotado), a MAR tem a agenda preenchida para os próximos meses: com lançamentos marcados para Agosto e Setembro, respectivamente, o LP homónimo de Toni Tornado e Som, Sangue e Raça de Dom Salvador e Abolição estão já disponíveis para pré-compra no Bandcamp.

O ReB trocou algumas impressões com o fundador do selo e falou sobre a génese e filosofia do projecto, os cuidados técnicos que uma reedição requer ou a preferência pelo “Brasil mais swingado”:

 



A Mad About Records prepara-se então agora para uma estreia formal com a edição do álbum de Erlon Chaves. Antes de falarmos sobre os lançamentos, conta-nos primeiro como foi a “pré-história” deste selo: como surgiu a ideia, que passos deste, etc.?

A ideia de ter uma editora especializada em reedições sempre esteve na minha cabeça. Como coleccionador e comprador compulsivo de discos parecia-me ser um passo lógico e interessante. Trabalhar de forma a colocar discos raros no mercado e, na maior parte dos casos, longe das bolsas dos compradores. Com uma dose de romantismo e com pragmatismo q.b., lancei mãos ao trabalho. Ao longo dos anos fui trocando ideias e aprendi com muitos amigos que tinham editoras independentes especializadas. Absorvi todos os ensinamentos, conselhos e os melhores caminhos a tomar. Assegurei antes de tudo uma boa distribuição dos discos, algo fundamental, e uma fábrica que desse garantias de total qualidade e rigor. Encontrei essa fábrica na Holanda, mercado tradicional na produção de discos de vinil, e de alta qualidade. A partir daqui a batalha de obtenção de licenciamentos foi longa. Foi sem dúvida o trabalho mais complexo. Convencer majors a disponibilizarem direitos é uma tarefa tremenda. Por outro lado, tentar chegar a micro-editoras desaparecidas é trabalho de detective.

Muitas das reedições que hoje inundam o mercado são feitas com poucos cuidados técnicos, muitas vezes a partir de restauro sofrível de cópias de vinil e não, como deveria acontecer sempre que possível, a partir de fitas master originais. Como se posiciona a MAR nesse campo?

A MAR trabalha com um engenheiro de som altamente experiente e tecnicamente espantoso de seu nome Colin Young, especialista da BBC em restauro de áudio. O acesso às masters tapes é fundamental, mas na maior parte dos casos totalmente impossível. Ora porque as editoras perderam os masters, ora porque não localizam as mesmas. E na maior parte dos casos isto é o que acontece. A única alternativa que resta é o restauro a partir do vinil. Mas mesmo assim conseguem-se resultados fantásticos. No caso do disco do Toni Tornado tive acesso às master tapes transcritas no Brasil. Quanto ao disco do Erlon Chaves, elas não existem. O restauro foi feito a partir de uma cópia de vinil. Mas estou de acordo quando dizes que o mercado está inundado com material de má qualidade onde vale tudo, desde discos de vinil que são feitos a partir de audio de CDs, o que é de lamentar. Já para não falar de editoras que adulteram completamente o trabalho gráfico original de selos clássicos como Blue Note, Prestige, Impulse.

A estreia com um registo de Erlon Chaves de 1971 recupera para o presente uma raridade absoluta, disco que se costuma vender à volta dos 500 euros. Como é que o descobriste e como te foi possível chegar aos masters?

Este disco acompanha-me há muitos anos, décadas mesmo. Um dos primeiros discos que comprei na minha primeira visita a São Paulo, e confesso que foi comprado a um preço irrisório, como quase todos os que se compravam no final dos anos 90. E este sempre foi um dos meus discos favoritos. Foi muito complicado obter o licenciamento deste disco, mas, ao fim de alguns anos de insistência, a CID autorizou. Não o reeditei unicamente pela raridade, mas porque gosto muito dele. E este é um ponto fundamental para mim: só reedito discos que gosto.

Tens ainda planeadas edições de Vitor Assis Brasil, Dom Salvador e Toni Tornado até ao fim do Verão. Há uma linha clara aqui que se prende com um lado mais swingado da música do Brasil. Será essa a linha da MAR?

A linha editorial da MAR é clara: essencialmente vou reeditar jazz, soul/funk, Brasil mais swingado como muito bem referiste. Mas, e no seguimento da minha máxima de editar somente discos que gosto, não descuro fazer outras incursões por géneros e áreas que também sejam do meu interesse pessoal, como África ou até mesmo gravações pioneiras da música electrónica/experimental. O campo de trabalho é imenso.

Que nos podes dizer sobre as restantes edições até agora planeadas? Todas feitas a partir de masters originais? Quais as raões por trás de cada uma dessas edições?

Exceptuando o disco do Arman Ratip do qual será feito restauro a partir do vinil, todas as outras edições felizmente são a partir do master original. Tenho a consciência de que foi uma sorte conseguir as fitas. Tal como já referi, por detrás das reedições está acima de tudo o meu gosto pessoal. O facto de gostar muito do disco. Não tenciono reeditar discos com os quais não me sinta confortável. E sei que tenho de ser fiel a este princípio, caso contrário ter uma editora com estas características sem uma relação quase visceral à música que se quer editar não faz sentido.

Estás a usar o Bandcamp como uma das tuas plataformas de distribuição. Terás outras?

Vou continuar com o Bandcamp. Uma plataforma muito interessante, de grande agilidade e de gestão muito intuitiva, além de que me permite estar em contacto com uma “comunidade”.

Até ao final do ano, pretendes editar mais discos? Podes revelar o que aí vem?

Até ao final do ano tenho já várias edições licenciadas e em trabalho de produção. Logo a seguir à edição do Erlon Chaves e Toni Tornado, vou editar entre Agosto e Setembro o disco Som, Sangue e Raça do Dom Salvador e Abolição, o grande disco de 1972 de Robson Jorge, o único e genial disco do pianista Edson Frederico, Edson Frederico e a Transa e por fim Nem Paletó, Nem Gravata do Osmar Milito. Do jazz em Outubro vou editar um disco extraordinário do pianista turco Arman Ratip, The Spy From Istambul, muito raro, nunca reeditado. A edição original foi muito limitada. E um dos maiores discos do jazz sul-africano, Jazz Fantasia, de Gideon Nxumalo.

O boom do vinil continua para durar? Ou acreditas que o futuro trará novidades a esse nível?

O mercado de vinil vive um período extraordinário. Tenho sempre muita dificuldade em ter opinião formada sobre fenómenos pontuais. Penso que vivemos um desses momentos. Prefiro concentrar-me no mercado de coleccionadores que nunca abandonou o formato. É para esse mercado que espero trabalhar.

Que editoras inspiraram o posicionamento e a filosofia da MAR?

Muitas, mas não posso deixar de referir duas em particular: a Jazzman e a Superfly. E porque além de tudo ambas são dirigidas por pessoas fantásticas, profundos conhecedores e que tiveram a generosidade em partilhar informação e dar conselhos fundamentais. O meu agradecimento ao Gerald da Jazzman e ao Paulo da Superfly Records.

O Gilles Peterson é um dos apoiantes da primeira edição da MAR. Já há mais feedbacks de outros notáveis?

Converso com o Gilles há muitos anos, sempre muito acessível e entusiasta. Quando apresentei a editora, ele, de forma completamente desinteressada e generosa, enviou-me um email com uma lista de discos que adorava ver reeditado, e no meio da lista lá estava o Erlon Chaves. Ele queria partilhar o entusiasmo por finalmente esse grande disco ser reeditado. Falo com muitas outras pessoas a quem apresento a editora e o feedback não podia ser melhor. Rainer Truby, Frederik Lavik, Gerald, o pessoal da Mr Bongo, entre muitos outros.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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