O entusiasmo contagiante de Fuse e os ritmos quentes de Rocky Marsiano no Musicbox

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTOS] Hélder White

Em noite de Benfica sagrado tetra, depois de atravessar a custo uma cidade sitiada pelo ruído ensurdecedor de buzinas festivas e o espalhafato de cachecóis rubros, de herculeamente penetrar multidões de adeptos extáticos (e visivelmente intoxicados) e de dizer não aos habituais traficantes de droga a tentar ganhar a vida, finalmente cheguei ao Cais do Sodré, repleto de fiéis seguidores de hip hop tuga, sem cachecóis à vista, mas com muitas t-shirts do seu rapper favorito.

Casa cheia para receber Fuse, o rapper de Ramalde que esperou mais de dez anos para lançar o seu terceiro álbum de originais, Caixa de Pandora, apresentado ontem à noite no Musicbox em Lisboa.

E não veio só: a acompanhá-lo, DJ Flip nos pratos, Relax a aquecer o público. O DJ inaugurou a noite a girar os pratos com uma selecção de clássicos de rap tuga, cortesia de Sam The Kid, Regula, Expeão, Chullage, Sagas, Mundo Segundo, Dealema e o próprio Fuse, além de clássicos do hip hop americano como Naughty by Nature, M.O.P. e Ice Cube.

 


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Foi então a vez de Relax tomar as rédeas com muita atitude e confiança em palco, patente nas suas dicas de battle, cuspidas num cerrado sotaque nortenho em registo simultaneamente agressivo e jocoso (não sei porquê, mas a que me ficou na cabeça ao chegar a casa no final do concerto foi “‘Tás nisto em part-time tipo mulher a dias, mas eu não ando aqui há dois dias”). Veio do Norte brindar-nos com singles do seu primeiro álbum a solo, como “Capoeiro”, “Limpinho” e “Faroeste”, a fechar com chave de ouro. Set curto, mas swag para dar e vender, não haja dúvida.

E eis que chega o artista da noite, Fuse. Como experimentado mestre de cerimónias que é, soube dominar o público do princípio ao fim, convidando-o a ser espelho dos seus gestos e movimentos. Muito crowd work, muito call and response, muitas mãos no ar, muitas palmas. Até conseguiu pôr-nos a saltar ao som de “Revolucionário”.

Soube também temperar o vigor da música com interlúdios no meio das canções em tom confessional, que anteviam e comentavam o tema da faixa iminente, como antes de “Campos Sem Concentração” (“As crianças já não brincam na rua, já não têm amigos”), “Sangue Frio” (“Os putos de hoje em dia já não ouvem músicas do princípio ao fim. Não ouvem discos, ouvem playlists”) e “Revolucionário” (“Esta é dedicada aos que vão fazer a revolução sem sair do sofá”). Muito moralismo, e por vezes até mesmo humor à mistura (“Alguém sabe como se compra visualizações no YouTube? Tava mesmo a precisar”).

Houve ainda tempo para um regresso ao passado, com temas de Sintoniza (“Eterno no Teu Ouvido” e a remistura de “A Outra Face”), “Juntos Como Um Só”, da compilação Poesia Urbana Vol.1, e os clássicos de Dealema “Escola dos 90” e “Léxico Disléxico”, bem como alguns cameos no meio do público, para quem esteve atento, entre os quais Valete e Maze.

 


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Em termos de tom, a escolha de temas foi sabiamente equilibrada, repartida entre os dois discos e os universos que os mesmos habitam. Do primeiro, cantou “Caixa de Pandora”, “Livra-me do Mal”, “Campos Sem Concentração”, “Sangue Frio” e “Revolucionário”.

Mas foi sobretudo o segundo disco, radiante e benévolo, a dominar a noite, desde “Deusa Gaia”, “Excalibur”, Além do Mais e Provavelmente a um dos pontos altos da noite: o poder salvífico de “Gaspar”, dueto com a voz melíflua, humilde e sincera de Dino D’Santiago. “Paixão Que Fulmina”, o encore com que se despediu, marcou um concerto carregado de positivismo. A última frase que nos deixou antes de sair de palco foi “Sejam felizes”, o que não deixa dúvidas sobre qual o seu estado de espírito nesta fase da vida em que se encontra. E saiu grato (“É assim que se faz uma festa de hip hop”), ao som de fortes aplausos.

 


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Mas a noite ainda estava a começar.

Depois de um warm-up set a cargo de Collignon que oscilou entre house mais tradicional a synth techno que por vezes evocou Aphex Twin e o seu drill’n’bass, foi a vez de Marko Roca aka Rocky Marsiano pisar o palco com o seu Meu Kamba Sound, uma mescla de música africana e brasileira com ritmos de hip hop e música de dança.

Em palco, nada menos que uma banda: Rocky Marsiano na mesa de mistura, ajudado por Sr. Alfaiate nos pratos e um percussionista africano ao leme de duas altas e imponentes congas, bem como duas sensuais e convulsas dançarinas angolanas.

Ofereceu-nos um set que começou por misturar samples de vozes cabo-verdianas e angolanas (incluindo a do grande Bonga) com ritmos de hip hop bem pronunciados, e que no final da noite evoluiu para compassos bem mais acelerados e dançáveis, como kuduro, entrando em território dos Buraka Som Sistema.

Um set de alcance internacional e multi-étnico e de sabor quente e tropical, que nos levou do sol de Cuba às savanas de África, e que pôs a dançar um grupo de jovens mulheres com antenas de joaninha a condizer junto ao palco, o que evidenciou uma simetria engraçada: embora tenha começado quase exclusivamente masculina, com fãs de rap hardcore de calças folgadas e brinco na orelha (facto também salientado pelo meu colega fotógrafo), a noite acabou bem mais feminina, com meninas bem vestidas e bem comportadas, mas atrevidas, a fazer a festa toda, sem precisar de homens para se divertir.

Como acompanhamento visual para ainda mais (como se fosse preciso) hipnotizar a audiência, na tela atrás do palco, foram sendo projectados pequenos loops de breves segundos de golpes de capoeira ou gestos de danças africanas. Scratch no áudio, e scratch no vídeo. Uma feliz combinação.

O som de um berimbau às 4 da manhã anunciou a passagem para o DJ holandês, de volta à mesa, desta vez em dueto com o produtor luso-croata, numa celebração do ritmo, desde a sensualidade da morna ao frenético kuduro e ao drum’n’bass, para aquecer a pista. Muito “uélélélé”, muito “amaruaua”.

All in all, foi um concerto recheado de nostalgia, com clássicos a bombar em palco e nomes maiores do hip hop tuga na plateia, mas também virado para o futuro, cimentando o seu estatuto e impulsionando o movimento para a frente em novas direcções saudáveis e positivas.

O hip hop tuga continua vivo e recomenda-se.

 


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