Emicida e Rael: Para quem já mordeu um cachorro por comida, até que chegaram longe

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Direitos Reservados

Numa viagem pelo canal de YouTube de Emicida, Rael é um nome constante, estando presente desde o primeiro trabalho do rapper de São Paulo. A dupla nunca teve nome enquanto duo, mas agora ambos são parte de uma causa maior: a defesa da língua portuguesa.

Se há quem dispense apresentações no rap brasileiro que saltou fronteiras e atravessou oceanos, esse alguém é Leandro de Roque Oliveira, aka Emicida. Não há dúvidas que o rapper nascido no Jardim Fontalis, um dos bairros mais carenciados da zona Norte de São Paulo, é hoje a cara do hip hop brasileiro no mundo. Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe, poderia dizer. A chegada deu-se assim mesmo, há quase 10 anos. A história ultrapassa a literatura: “Eu mordi um cachorro. Não tinha nada para comer. Comia pão com açúcar. Aí, um vira-lata tirou o meu pão e eu, na raiva, dei uma mordida nele”, contava ao UOL em 2012 a propósito do título da sua mixtape de estreia.

A mixtape vendeu 3 mil cópias e, todas, com promoção boca-a-boca e pelas mãos do próprio rapper, garantindo-lhe massiva cobertura dos media. Comprou o papel, desenhou o molde, cortou, carimbou a capa, gravou o CD no computador e ainda o retirou de algumas lojas onde havia distribuído, por achar os preços demasiado elevados: “Eu achei que isso não condizia com a ideia do projecto e retirei das lojas”, diz. “Carimbei o preço no CD e levei para outros lugares”. Na altura, com 23 anos, Emicida criava, ainda, aquele que viria a ser o selo responsável por todos os seus lançamentos, o Laboratório Fantasma. Para além de distribuir os seus álbuns, Laboratório Fantasma hoje já vende roupa e outros produtos idealizados pelo MC.

 



Em 2010, seguia-se a quase homónima mixtape Emicído e o crescimento foi, inevitavelmente, assassino. Emicida, fusão das palavras “MC” e “homicida”, é um nome-título, prémio ganho nas constantes vitórias em batalhas de rap. Mais tarde, nasce a sigla Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte. A carreira fugiu, claramente, do padrão tradicional no Brasil – ficou conhecido ainda sem ter qualquer trabalho editado, usou a Internet a seu favor e lançou duas mixtapes e dois EPs antes sequer de lançar um álbum de estúdio.

É o rapper do realismo, um optimista duro. Em entrevista ao Público, disse uma vez que a sua grande busca era aproximar a poesia do rap e tentar subverter o impacto que ela tem, não falando apenas de ódio. Em O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2014) aproximou-se da MPB com “Alma Gémea” e “Sol De Giz De Cera”, com a participação da cantora Tulipa Ruiz, e do e samba em temas como “Trepadeira”, “Hino Vira-Lata”, “Samba Do Fim Do Mundo” e “Ubuntu Fristaili”.

 



Disse, em algumas ocasiões, que apenas produziu os seus últimos álbuns para corresponder à imagem estabelecida pela indústria musical mas aproveitou-o para levantar questões raciais. O lançamento do sexto trabalho, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015), surge depois de uma importante viagem a África. “Mudou tudo. Tem um Emicida antes e depois de Cabo Verde e Angola. (…) É muito difícil odiar a África e os africanos sem que, em algum ponto, você se odeie a si mesmo. Esse bagulho ficou girando na minha cabeça”, revelava ao portal Terra, no pré-lançamento do álbum. A travessia fez-se à procura de novos elementos onde basear as suas músicas e até a própria vida. No último álbum, voltou a aproximar-se da MPB e contou com participações de Caetano Veloso e Vanessa da Mata e de rappers como Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzikke e Raphão Alaafin. Em 2016, o trabalho seria nomeado para um Grammy Latino, na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana.

 



Há algo em comum em pelo menos três – agora quatro, se falarmos do projecto transatlântico Língua Franca – dos seus trabalhos. Um elo da corrente de seu nome Rael. Parceiro de primeiríssimo dia de Emicida, o rapper da zona Sul de São Paulo colecciona parcerias com grandes nomes do hip hop e da MPB. Precoce, aos 16 formava Pentágono – um dos grupos mais duradouros do rap brasileiro- com Apolo, Massao, Dodiman, Paulo M. Sário e DJ Kiko, à frente do qual lançaria quatro álbuns de estúdio e seria nomeado para o prémio Hutúz na categoria de “maiores revelações da década”.

 



A solo, foram cinco os trabalhos lançados pelo rapper, entre 2010 e 2016. Filho de um sanfoneiro de forró que ganhava a vida como pedreiro e de uma cantora de igreja, Rael cresceu com a ideia de ser artista e a influência de uma miríade de estilos é marca visível nas composições de um dos MCs mais r&b do Brasil. “Sempre curti essa coisa de misturar, tanto no sentido de compor com outras pessoas quanto na ideia de quebrar barreiras entre ritmos”, dizia em entrevista à Folha, em 2012.

Seria também em 2012 que lançaria um segundo álbum a solo, Ainda bem que eu segui as batidas do meu coração, com produções de Beatnick e K-Salaam, responsáveis por assinar discos de Talib Kweli, Mos Def ou Sizzla, além de Doozicabraba e a Revolução Silenciosa, trabalho de Emicida em que também participou, e onde rap, reggae e samba andam de mãos dadas. Nesse mesmo ano, o rapper juntava-se oficialmente a Emicida, como artista exclusivo da Laboratório Fantasma.

 



Mais de 10 anos depois do início da sua carreira, Rael lança Coisas do Meu Imaginário (2016), disco em que canta o amor, a fé, a estrada e, inevitavelmente, as relações que mantemos em rede. Com produção de Daniel Ganjaman, conta com a participação de Black Alien e Mano Brown no vídeo “Minha Lei”.

A dupla brasileira faz parte do colectivo Língua Franca, supergrupo em que também se encontram Capicua e Valete. O quarteto unido pela língua portuguesa e o rap actua amanhã no Super Bock Super Rock.

 


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