Da Chick e a “vontade de aprender, errar, mas nunca parar de criar”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Nash Does Work

Don’t Feel Like Talkin’ é o título da mais recente mixtape que Da Chick partilhou discretamente no seu Mixcloud (podem fazer o download gratuito aqui). Estivemos à conversa com a artista da Discotexas sobre o seu actual momento criativo e o regresso a Austin, Texas, para tocar na edição deste ano do SXSW.

Da Chick descreve este canto na nuvem como o seu “recreio”. É pelo Mixcloud que a cantora nos dá a conhecer o lado mais descontraído da sua obra, local onde goza de uma maior liberdade criativa e um total descompromisso para com a perfeição — o mais importante é dar asas à imaginação e aprender com as pequenas falhas que advêm desse processo mais solitário na composição de “canções embrionárias”, que podem servir de base ou ponto-de-partida para algo de maior dimensão.

Numa altura em que os sentimentos lhe fluem melhor através de sons do que de palavras, Teresa de Sousa agarrou-se a um Volca, um Microkorg e uma guitarra para compor estes cinco temas no Ableton Live. Don’t Feel Like Talkin’ é o primeiro sinal de que a Primavera está realmente a chegar — brisa soul acidificada, daquelas que não corroem mas nos abrem os portões da percepção e das sensações.

Da Chick sobe ao palco do SXSW no dia 17 de Março, tal como a igualmente recomendável Surma. Holly também faz parte da comitiva nacional no festival e apresenta-se em Austin no dia 16.

 



Não há maneira de o tempo melhorar, mas a tua música parece já estar em pleno Verão — sunset em regime chillout e um cocktail para acompanhar. Em que te inspiraste para compor esta mixtape?

Esta mixtape surge da vontade de tentar produzir beats há algum tempo. Comprei um Volca Korg, pedi emprestado o Microkorg ao meu teclista Gui Salgueiro, peguei na minha guitarra e abri o Ableton Live. Basicamente queria expressar-me de uma forma diferente. O ambiente tinha de ser chill e minimalista… e eu estou sempre no Verão!

Que fase artística é esta que atravessas em Don’t Feel Like Talkin’?

Não me tem apetecido falar muito. É mais tentar tocar instrumentos, experimentar coisas novas e soltar sentimentos assim. Nem sempre me apetece escrever, mas continuo a ter muita música para soltar cá para fora e partilhar com quem quer ouvir.

Aqui estás por tua conta. Produzes, escreves, cantas. É algo que passa pelos teus planos, envolveres-te também na parte criativa da produção da faixa?

Eu, na verdade, sempre estive envolvida na produção criativa da minha música, mas totalmente a solo não. Eu costumo usar o meu Mixcloud para vibes destas em que não há grande preocupação com a produção ou a “música” ficar finalizada, mas mais fazer jams, curtir. Aquelas de que me orgulho o suficiente, solto-as cá para fora.

Olhas para este projecto apenas como uma brincadeira ou achas que daqui podem nascer temas para tocares ao vivo ou, quem sabe, virar bases para canções futuras?

A minha ideia é continuar a experimentar novas formas de me expressar e umas coisas edito, outras se calhar mais pessoais e ingénuas, vou soltado assim em mixtapes. Na minha página de Mixcloud também gosto de descobrir artistas e músicas novas e misturo-as nuns sets de funk, soul e disco, a que chamo de Diggin’. Adoro passar som e é também um lado que quero explorar e melhorar. Acho interessante enquanto artista, ir mostrando o meu estado de espírito e desenvolvimento criativo. É importante mostrar ao público em geral que ninguém nasce ensinado, e que o que conta é a vontade de aprender, errar, mas nunca parar de criar.

Vais em breve para o Texas, de regresso a um palco que até já conheces. Que memórias guardas do SXSW?

Na verdade, uma das razões de voltar este ano é porque no ano passado não consegui aproveitar o festival como queria, porque estava em tour com a crew da Discotexas, e não conseguimos ficar muito mais que 8 horas em Austin, com voo para LA nessa madrugada. Foi uma tour muito intensa, mas motivante e que me trouxe ainda mais vontade de arrancar nesta aventura para LA. Adoro o conceito do SXSW, e desta vez vou ficar 5 dias, para entrar bem no espírito e interagir com todo um Mundo que por lá anda, em busca da mesma coisa: partilha.

Como foi a reacção do público? O que esperas deste concerto, agora levas o Call Me Foxy na bagagem?

O ano passado correu super bem, e a reacção à minha música nos Estados Unidos costuma ser muito positiva, não andasse eu a consumir desta cultura há anos. É engraçado porque o público acha que eu sou de cá, ou que vivo cá, e quando digo que sou born and raised em Portugal eles ficam um bocado confusos. Na verdade, eu própria não sei bem porque é que a Da Chick é assim. Porque é que sempre escrevi em inglês, porque é que transpiro este funk e soul muito americano e me expresso desta forma. Mas só posso dizer que sou eu, e pretendo continuar a sê-lo.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira