Conan Osiris // Adoro Bolos

adoro bolos review

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O humor como argumento central de alguma música nunca me interessou: não liguei nada a Ena Pá 2000 e nunca consegui relacionar-me com qualquer tipo de música pelo ângulo “tão mau que é bom” que parece sustentar muita da atenção que recai sobre o fenómeno dito “pimba”. Nos discos de música (sim, porque há discos de muitas outras coisas — de declamação poética, de gravações de campo, de discursos, de efeitos sonoros, etc…) é a própria música que tem que assumir a parte de leão dos argumentos apresentados para que o meu interesse se possa manifestar. Não consigo ceder à má música com “grandes letras”, aos maus discos com “grandes capas”, a obras medíocres de artistas com passados gloriosos — tanto o espaço físico das minhas prateleiras como o espaço mental da minha atenção são bens demasiado preciosos para serem desbaratados.

E serve este preâmbulo para esclarecer que não foi o “humor” que me conquistou em Adoro Bolos. Pelo contrário: o disco com que Conan Osiris nos decidiu prendar antes de 2017 ter largado o seu último suspiro é uma obra muito séria e todos os que escolhem o facto dele “ter graça” como ângulo para o aceitarem ou até para o descartarem estão a falhar o (para usar uma das palavras corajosas de que Conan Osiris se socorre) “busílis” da coisa. É que Adoro Bolos é uma das mais sólidas, sérias e ambiciosas criações musicais nacionais dos últimos anos. E aposto que o próprio Conan Osiris tem perfeita consciência disso.

A música primeiro, então.

Adoro Bolos é admirável no seu sincretismo, sim, e é impossível não mergulhar nas suas onze faixas sem identificar todos os ecos/ fragmentos de géneros que o povoam: dancehall e bollywood, fado e funaná, metal e hip hop, várias estirpes de eurodance, tarraxo, pós-dubstep — todas estas coordenadas são visitadas na deriva electrónica cozinhada no laboratório de Conan Osiris. MAS — e este é mesmo um grande “mas”… — tal como numa manta de retalhos, não é cada um dos “quadrados” que importa, mas o conjunto final que ganha uma nova dimensão “cromática” (no caso das mantas, aural aqui) quando tomado como um todo, indivisível. E, também como sucede com as referidas mantas, não há duas iguais: cada uma destas misturas se assume como única e irrepetível. No caso de Adoro Bolos o resultado final do cruzamento de todas as diferentes coordenadas, de todas as diferentes ideias musicais, rende um magnífico mural que é musicalmente vibrante precisamente porque parece colocar tudo no mesmo plano, sem subalternizar qualquer uma das suas marcas — nem o reggaeton, nem os assomos mais “xunga” de techno, nem os pormenores “aquizombados” ou “aciganados” são menorizados face aos elementos mais “sérios” de algumas linguagens mais próximas de uma ideia comum de “bom gosto”. Como na manta, todos os “retalhos” são importantes, todos ocupam idêntico espaço, todos são essenciais para o equilíbrio final do objecto. Não é para rir, é mesmo para “aquecer”.

Ora, o mesmo pode ser dito em relação às palavras, às letras com que Osiris constrói as suas canções.

Em primeiro lugar, como não admirar um conjunto de letras que reclama para o cancioneiro popular do nosso presente palavras — verbos, substantivos, adjectivos, advérbios… — tão arredadas das canções que todos os dias nascem na nossa língua como “chibou-me”, “indagar”, “borrego”, “chamego”, “engonhar”, “cochicho”, “sangacho”, “tarracho”, “nenuco”, “eunuco”, “cu”, “celulite”, “canalizador”, “cagar”, “sanita”, “paulatinamente”, “lípido”, “patrulha”… E isto apenas nos dois primeiros temas, “Borrego” e “Celulitite”. E depois, há aquele “caetanear” próprio dos autores que sabem que não há regra que impeça de inventar novas palavras caso seja isso que a canção pede, sejam elas “pakek” (“para que é que…”), “celutitite”, “matabichar”, “nheq-nheq-nhik”, “safena” (o que é uma safena? Afinal existe, mesmo que nunca tenha existido antes numa canção…).

Mas a inventividade de Conan Osiris não é meramente fonética (embora essa já chegasse para o elevar), é também extremamente poética:

esse rosto 
esse resto do rasto do sol de agosto 
modesto gesto 
admito sinto gosto 
passas no teste, a testa ate estorva encosto 
detesto mas manifesto

ou:

às vezes nem a noite nem deus
nem diabos nem ateus
nem a terra nem os céus querem resolver
o meu problema

às vezes nem o dia nem a luz
nem o sangue nem o pus
nem o fogo nem a cruz querem resolver
o meu problema

Dois exemplos apenas. A escrita de Conan Osiris é séria, como sérias são as suas propostas de resolução poética para os “problemas” que levanta nos seus versos, nas suas estórias:

no meio dum duchaise o queq há?
no meio dum guardanapo o queq há?
no meio duma torta o queq há?
dum queque o queq há?

se não tás lá tu no meio

ou

1 lágrima, 2 lágrimas, 3 lágrimas, 4 
5 lágrimas, 6 lágrimas, 7 lágrimas, 8 
9 lágrimas, 10 lágrimas, 10 mil milhões ao cubo 
e se não mais houver, é porque a vida acabou

O fatalismo português que atravessa todo este Adoro Bolos vem de Amália e de Variações, mas vem também da rua, da travessia de barco do Tejo e das gentes, da televisão e das novelas, dos recreios da escola e das redes sociais. Conan Osiris bebe de todo o lado e essa capacidade de trazer farrapos de realidade para dentro das suas canções — como sempre o fez Sérgio Godinho, por exemplo — eleva-o a um plano em que habitam poucos artistas: vislumbro por lá Halloween, por exemplo, os Linda Martini ou Samuel Úria, mas não muitos mais.

E é curioso que a obra tão económica de António Variações — apenas dois álbuns… – tenha afinal de contas um alcance tão, mas tão vasto e que anime as entrelinhas das criações de Úria, certamente, mas também dos Ermo ou agora de Conan Osiris. Ideias, sons, posicionamentos e orientações diferentes, mas todas com uma diferente dívida para com outro Ovni que um dia sobrevoou a pop portuguesa.

É impossível prever para onde caminhará Conan Osiris, mas arrisco que não hão-de tardar a despontar no YouTube, quais pequenos cogumelos, singelas versões acústicas de algumas das suas canções, sinal de que o seu alcance será real e que estas canções estão a fazer o mais importante — a tocar nas pessoas, a dar às pessoas vontade de as reclamarem como suas. Na verdade, isso poderá até nem acontecer, mas também não será pelo alcance, pelo número de likes ou partilhas ou bilhetes para espectáculos vendidos, que se validará o génio de Conan Osiris. Ele já existe naquelas 11 canções. E não, não são parar rir. São mesmo para serem levadas muito a sério.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu