Os vimaranenses Unsafe Space Garden vieram à capital apresentar o seu novo álbum: O Melhor e o Pior da Música Biológica. Quem já os viu ao vivo sabe que a festa está garantida e uma sala como a do B.Leza, muito bem composta de público, mostra que a fama deste sexteto aumenta com cada novo trabalho.
Para quem não sabe, eles fazem uma fusão de indie rock atual, psicadelismo dos anos 70, música popular portuguesa e humor despretensioso. Apresentaram-se, como sempre, de caras pintadas, fatiotas arty juvenil e atitude avacalhada, entre o sotaque cerrado de Guimarães e o recreio da primária. A vivermos o hype estratosférico da dupla canadiana Angine de Poitrine, não deixamos de nos questionar se estes vimaranenses não merecem um quinhão dessa fama e glória.
Arrancaram quando já faltava pouco para as dez horas com o tema que abre o álbum, ”Tás Aqui?”. A intro de Alexandra “Cuecas” é perfeita para abrir concertos e a aquela bateria solta do jovem Baquitas acrescentou um groove que não existe no álbum. O refrão com “estamos vivos” foi cantado várias vezes e mostrou que o público sabia bem a lição.
Seguiu-se “FKNKU”, que soa a um grande single. “Dão-te o mundo inteiro mas não tens dinheiro p’ro autocarro que te levaria longe” — podia ou não podia estar num qualquer disco do G.A.C.?! A este tema faltou o estúdio, onde aquela polifonia funciona melhor.
O relato da bola, que dá pelo nome de “Ser Humano” acaba num festival da canção anos 80. A jovem Alexandra faz bem em largar os teclados mais assiduamente. Quando comparado com a última vez que os vi, no KALORAMA de 2024, este concerto soa mais profissional, com a malta mais à-vontade e o som mais coerente.
Em “Mais uma Voltinha” apercebo-nos que a setlist tem o mesmo alinhamento do álbum, o que tem tanto de arrojado como de démodé. E também que estes crescendos que conduzem a uma apoteose barulhenta são um traço fundamental do som dos Unsafe Space Garden. Eles esticam o final até à exaustão. Apreciamos a irreverência, quase inocente, de quebrar as regras porque sabemos que estas coisas se perdem com o tempo — com os muitos concertos e o aumento da fama.
Surge então “DONDE ESTA EL SUELO?” de WHERE’S THE GROUND? de 2023. Grita-se “tarola, bombo e prato”, como se fossem ingredientes, antes de começarem a cantar em inglês, como faziam no início da carreira. Pelo meio alude-se ao facto de ROSALÍA actuar naquela noite e solta-se um “Olá, eu sou o Pedro” que faz sorrir toda a gente. É tudo muito teatral, tudo muito boa onda.
Em “Possível Dissolução Mental das Paredes” aprecia-se de sobremaneira o disco-sound. Há um desprendimento saudável em não caber facilmente na gaveta de um género específico. Esta malta vai a todas. “Já Não Há Pachorra”, por exemplo, bebe do rock sinfónico, mas é tudo muito pós-Radiohead. É tramado dar referências de música internacional numa banda em que a vocalista parece a boneca do Sítio do Picapau Amarelo a cantar Zé Mário Branco com sotaque de Guimarães e a sonoridade tanto pode ser dos Animal Collective como de Frank Zappa.
Após uma dedicatória comovente ao público fiel que os acompanha, segue-se “A Vida Não É Uma Merda”, frase escrita em cartolinas e no merchandising da banda. Seguem-se dois encores com temas mais antigos, quando o seu som era mais durinho, menos pop e algo crú. Termina a festa em apoteose com uma pacífica invasão de palco e toda a gente a repetir o refrão do single “TREMENDOUS COMPREHENSION!”: “When I ask for tremendous comprehension, I expect you to destroy the line of your name”.
Noventa minutos depois, havia a sensação de dever cumprido: eles deram tudo em palco, o público apreciou a genuinidade, a força daquele som e o sentido de humor acutilante. O facto de terem tocado recentemente no South by Southwest mostra que ninguém anda a dormir e que estes jovens sabem bem o caminho a tomar. E porque o caminho é mais importante que o destino, esperamos que se divirtam na viagem.