The Residents: a América distópica, o sampling e o génio na trilogia Mole

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

O universo dos The Residents é fascinantemente labiríntico, opaco e denso, estendendo-se por dezenas de edições em que se confundem trabalhos de estúdio originais, gravações ao vivo, outtakes, demos e outro material oriundo de um vastíssimo arquivo, facto que pode fazer qualquer abordagem inicial à sua obra parecer uma tarefa intimidante ou até mesmo impossível, mas as recompensas que se obtêm em troca de tamanho esforço são por demais evidentes. Por isso mesmo, o actual programa de reedições que está a ser levado a cabo pela Cherry Red em conjugação com a Ralph Records, o mítico selo dos próprios Residents, é a oportunidade perfeita para se efectuar uma mais preparada e organizada abordagem à obra massiva da misteriosa e intrigante entidade criativa americana.

Depois da edição de títulos como Meet The Residents (1974), The Third Reich n’ Roll (1976), Duck Stab / Buster & Glen (1978), Eskimo (1979) ou Commercial Album (1980), eis que surge agora a expansiva Mole Box, caixa com seis CDs que reúne os três álbuns lançados da Mole Trilogy (um quarto trabalho que deveria ter dilatado a “trilogia” acabou por nunca ter sido lançado) — a saber: Mark of The Mole (1981), The Tunes of Two Cities (1982) e The Big Bubble (Part Four of The Mole Trilogy) (de 1985) -, dois CDs de material ao vivo e um outro de “miscellaneous Mole materials”. Apenas mais um dos sinais de um “programa” de desafio a convenções, limites e cânones com que os Residents se comprometeram desde o início.

Numa apresentação na Pitchfork da primeira fase da discografia dos Residents, Marc Masters explicava que o grupo “combinava colagens de fita, efeitos sonoros, electrónica lúdica, ruído confrontacional, sátira à cultura pop, abordagens abstractas à música tradicional, dos blues ao country, e, talvez até mais importante, uma batida animalesca. E eles surtiram uma influência — o trabalho de ícones alternativos dos Devo aos Talking Heads e daí aos Sun City Girls ou Animal Collective carrega traços do seu som singular e inspirador”. Tudo verdades. Talvez o real alcance da visionária obra do enigmático colectivo nunca tenha sido tão evidente quanto no presente, em que o intenso escrutínio do passado levado a cabo por dezenas de editoras apostadas em desenterrar as mais obscuras e obtusas peças musicais torna ainda mais evidente a dimensão total do génio que moldou a obra dos Residents e o impacto que certamente surtiu sobre os mais exploratórios criadores a operarem desde meados dos anos 70 em diante nas margens mais longínquas da música pop.

Eu mesmo, em artigo assinado no Rimas e Batidas, começava por apresentar a banda escrevendo que “a história dos norte-americanos The Residents é uma das mais fascinantes do universo da pop e, em última análise, essa história é, de facto, a grande obra-prima do ‘grupo’, uma misteriosa entidade responsável por uma complexa discografia que se estende por mais de 60 álbuns, um output ‘musical’ massivo que ainda assim é apenas parte de uma produção mais vasta que inclui também extensões na vídeo arte, elaboradas apresentações ao vivo que misturam música e diferentes artes performativas, design gráfico, conteúdos digitais interactivos, etc.”

Em 1981, quando lançaram Mark of The Mole, os Residents tinham atrás de si meia dúzia de anos de uma intensa existência que já tinha rendido um considerável número de trabalhos, incluindo Eskimo (1979) e The Commercial Album (1980), os dois registos com que documentaram a passagem dos anos 70 para a década de Michael Jackson, de Madonna, da pop como produto industrial, dos jogos de arcada, da chegada definitiva da idade electrónica, de Reagan, do Hair Metal e da MTV. A proposta trilogia The Mole funcionava como um comentário agudo a esse inevitável choque do futuro. Olhando para o passado para recolher inspiração…



O primeiro momento da “trilogia” de quatro planeadas partes, Mark of The Mole, apresentava então a narrativa que os Residents tinham elaborado: parte álbum conceptual, parte exercício de colagem informado pela adopção de novas ferramentas de produção electrónica, parte novela radiofónica, este primeiro “capítulo” contava a história de um povo obrigado a sair do seu mundo devido a uma inundação de proporções bíblicas que os tinha forçado a instalarem-se noutra terra de gente muito diferente. O povo deslocado, os Mole, era composto por dedicados trabalhadores, incansáveis operários que não conheciam o conceito de descanso. Ao invés, os Chubs, eram uma gente bem mais relaxada, habituada aos prazeres da vida e nada interessada em deitar mãos à obra. Temos portanto uma cheia, um êxodo, um choque entre duas culturas, um ajuste de dois povos a uma nova circunstância e a construção de uma nova realidade em que os Mole assumem os trabalhos que os Chubs dispensam de bom grado. E se alguém está a pensar em negros ou mexicanos, americanos, jardineiros, operários, donas de casa, burgueses capitalistas, banqueiros e industriais, muros e Donald Trump é importante não esquecer que este é um trabalho lançado em 1981. Na verdade, ainda que se possam atribuir qualidades premonitórias ao trabalho conceptual dos Residents (prova apenas de que afinal de contas a História funciona em ciclos…), o que realmente sucedeu foi que os cérebros (deveria dizer “olhos”, certo?…) do projecto procuraram inspiração no passado e em obras como As Vinhas da Ira de John Steinbeck que retrataram outro momento disruptivo da história da América, quando a Grande Depressão fez colidir os que muito tinham e os que nada alcançavam, com o “dilúvio” do desemprego a empurrar para o norte industrializado e urbano as pobres franjas rurais da população.

Musicalmente, sente-se um arranque do grupo em direcção ao futuro, com a adopção de mais texturas electrónicas que, em conjugação com as habituais colagens e manipulação de gravações através de efeitos, conferem a este registo um tom bem mais sombrio do que o que se poderia encontrar na discografia anterior, mais pautada por um inusitado humor desenhado como estratégia de choque. A criação musical para os Residents foi sempre um claro acto político.

O momento seguinte nesta viagem pelo universo dos Mole e dos Chub é deveras fascinante: The Tunes of Two Cities foi pensado como uma espécie de antologia da música que cada um dos povos preferia. Uma espécie de jazz-lounge-easy-listening para os Chubs, algo de recorte mais duro, angular e industrial, acompanhado por indecifráveis e aparentemente “primitivos” cânticos, no que à música eleita pelo Mole dizia respeito. Apresentadas alternadamente, as faixas representativas das duas “culturas” vão, à medida que se avança no alinhamento do álbum, ficando mais conformes com uma indivisível sonoridade em que ambas as estéticas se fundem e confundem. Neste disco, os supostos “não músicos” que compunham os Residents mostravam surpreendentes capacidades técnicas, com muitas das faixas relativas ao “cancioneiro” favorecido pelos Chub a serem afinal subtis abordagens a standards de Stan Kenton ou Glen Miller da era das Big Bands que coincide, claro, com a era da Grande Depressão. Por outro lado, o material mais associado aos Mole parecia derivar de algumas das experiências que as vanguardas eruditas e intelectuais da Europa, os Alban Bergs, Arnold Schoenbergs ou Igor Stravinskys andavam a fazer comentando, à sua maneira, as transformações de um continente devastado ele mesmo por guerras, revoluções e uma nova ordem na aparentemente eterna luta de classes.

Dados importantes, referenciados nas fantásticas notas de capa de Mole Box assinadas por Jim Knipfel (escritor americano aclamado por, entre outros, Thomas Pynchon), são a presença na equipa que gravou The Tunes of Two Cities de músicos como os lendários Norman Salant (saxofonista) e Philip “Snakefinger” Lithman (guitarrista), dois veteranos dos estúdios capazes de entender as mais obtusas direcções que lhes fossem apontadas. Mas talvez até mais importante do que os recursos humanos usados nesta segunda parte da trilogia tenham sido os recursos técnicos: em 1981, no mesmo ano em que Eno e Byrne editavam My Life in The Bush of Ghosts, os Residents integraram o dianteiro lote de criadores que adoptaram um dos primeiros samplers disponibilizados no mercado, o Emulator da E-MU. A revolucionária tecnologia foi apresentada na edição de 1981 da convenção NAMM (North American Music Merchants) com o exemplar com o número de série 0001 a ser oferecido a Stevie Wonder. Os Residents compraram o número 0005! Esta máquina seria famosamente usada em Thriller de Michael Jackson e tornar-se-ia ferramenta central nas “oficinas” de bandas tão diferentes quanto os New Order ou Genesis. Tirando o input de Salant e Lithman no tema “Serenade for Missy”, todo o resto do álbum foi concebido com recurso ultra-criativo ao Emulator, algo que definiria o som dos Residents nos anos que se haveriam de seguir.

Apostados em “furar” no mercado pop (Commercial Album tinha, afinal, um título tão irónico quanto ambicioso…), e fracturados internamente devido a tensões resultantes da gestão de um colectivo e de uma operação complexa sem os recursos provenientes de uma carreira saudável no mainstream, os Residents decidiram que a forma de conseguirem ultrapassar tudo seria com a construção de um espectáculo e com a montagem de uma digressão que os levasse até à mais progressiva Europa. O colectivo investiu num par de ideias de estrutura para os espectáculos — e é importante perceber que desde que assumiram a identidade Residents, em 1972, estes músicos só tinham feito um único concerto… – mas acabou por se decidir por um Mole Show que transportasse para o palco o conceito que tinham imaginado estender por uma trilogia.



Nas páginas da Wire 398 (Abril de 2017, com os Residents na capa, precisamente), Sam Lefebvre, partindo do então novo álbum The Ghost of Hope, construiu uma vívida panorâmica da carreira dos Residents que, necessariamente, passava também por esta era: “O The Mole Show, que andou na estrada entre 1982-1984, incorporava canções dos álbuns do princípio dos anos 80 The Mark of The Mole e The Tunes of Two Cities para contar uma história de uma espécie alien em conflito, com exploração e revolta – resplandecente com animação computorizada de tom ameaçador e grotesco. Terá sido um primeiro caso de álbuns que pareciam ter sido concebidos na totalidade como suplementos para vídeo ou performance. O clip de ‘Man’s World’,” explica o jornalista referindo-se a um tema editado em single em 1984, após o EP Intermission, “contém uma visão indelével: os Residents, com as suas vestimentas com os globos oculares, a fazerem um moonwalk desajeitado através de uma espécie de fábrica cheia de vapor durante um minuto inteiro – um plano contínuo em movimento.”

The Mole Show traduzia, portanto, a visão grandiloquente do grupo, pensada inicialmente como forma de galvanizar de novo os membros desavindos, mas acabou por se revelar penalizadora do ponto de vista financeiro, com as contas a serem levadas até ao limite da falência, colocando ainda mais tensão no colectivo.

Ainda assim, as coisas na Cryptic Corporation (empresa/ quartel general/ entidade medidadora da carreira dos Residents com os media) acalmaram o suficiente para que a banda pudesse deitar mãos ao momento seguinte da sua discografia, após a edição de um par de documentos semi-oficiais da digressão, como o álbum The Mole Show (incluído nesta caixa) ou o EP Intermission. A trilogia Mole tinha sido pensada com cada um dos três planeados álbuns a ser acompanhado por um registo paralelo que ofereceria uma espécie de comentário a cada momento da narrativa. The Big Bubble (Part Four of the Mole Trilogy), lançado em 1985, deveria ter sido esse “reverso da moeda” de uma terceira parte que nunca chegou a ser editada. E para confundir ainda mais as coisas havia aquela capa, em que quatro figuras surgiam sem máscaras, mas ostentando o mesmo tipo de fraque que os Residents usavam em palco.

Os fãs do grupo mais obsessivos não tardaram a inventar uma série de teorias sobre a identidade real dos “músicos” retratados na capa de Big Bubble que eram, na verdade, actores locais contratados para uma sessão fotográfica (e um fã alemão que calhou visitar a Cryptic Corporation naquela altura). Na verdade, aqueles quatro homens eram os membros dos The Big Bubble, Ramsey, Paul, Alex e Frank. A narrativa deste último momento da saga Mole coloca a história algumas décadas após a “acção” descrita em Mark of The Mole, com os dois povos já integrados, embora com alguma tensão, e uma nova geração, conhecida como Cross, resultante do cruzamento mais ou menos inevitável de Moles e Chubs. Muitos dos Cross integravam um movimento chamado Zinkenite (lembrem-se, estamos no absurdista e delirantemente imaginativo mundo dos Residents…) e um dos seus líderes, Kula Bocca, achou por bem contratar uma jovem banda para tocar nos comícios do movimento com ambições independentistas. Os Big Bubble tocavam, explica-nos Jim Knipfel, “uma síntese de música tradicional dos Mole e dos Chub, mas com uma atitude rock and roll”.

A narrativa deixa claro que Kula Bocca não era doido pelos Big Bubble, mas que percebia que seria útil aproveitar o facto da banda ser popular, sobretudo devido ao tema “Cry For The Fire” que conseguia galvanizar as multidões graças ao facto de incluir alguns versos em Mohelmot, a língua dos Mole há muito banida. Esse tema tornou-se uma espécie de hino para o movimento Zinkenite. Bocca não tardou a convidar os Big Bubble para mais concertos, orquestrando a prisão de Ralph num deles por cantar na língua banida, procurando dessa forma garantir um mais amplo apoio da opinião pública ao seu movimento. A prisão levou a protestos tão veementes que Ralph haveria de ser libertado pouco depois, com a crescente notoriedade a convencer Franky DuVall, da Black Shroud Records, a oferecer um contrato à banda permitindo-lhes até, apesar dele mesmo ser um Chub, que gravassem na tal língua proibida. A estreia dos Big Bubble na Black Shroud é, afinal de contas, o disco final da trilogia Mole dos Residents.



A elaborada trama concebida certamente numa mesa de reuniões na Cryptic Corporation soa hoje como um agudo e presciente comentário à América dividida racialmente e até ao crescimento do hip hop, língua controversa e de combate das ruas que, ainda assim, não deixou de ser propagada pelas grandes corporações quando estas perceberam que estava aí um bom negócio. Os Big Bubble poderiam ser os N.W.A., os Public Enemy ou os Beastie Boys. Mas eram, na verdade, “apenas” os Residents.

O álbum foi pensado em torno das vozes, gravadas inicialmente sem qualquer tipo de acompanhamento, numa língua imaginada, com os instrumentos a serem acrescentados à posteriori. Um disco bastante diferente dos outros passos da trilogia, mas com a diferença a ser sustentada pelo rebuscado conceito na sua base, revelador do pensamento avançado de um colectivo que sempre entendeu a música pop como um fértil terreno de intervenção, de crítica e de pensamento.

Nesta caixa, os três CDs relativos aos três momentos editados da trilogia, Mark of The Mole, The Tunes of Two Cities e The Big Bubble, são dilatados com material extra proveniente dos fundos arquivos dos Residents. Res Dance ’82 (Live in The Studio) fornece material extra aos dois primeiros CDs da caixa, material esse que traduz os preparativos dos Residents para a digressão que efectuariam a partir 1982. As versões “live” condensam os temas originais, sublinham o seu carácter rítmico (daí a palavra “dance”) e deixam ainda mais evidente o carácter visionário desta música apoiada numa nova tecnologia. No terceiro CD, The Big Bubble, o material extra inclui demos e temas gravados ao vivo em 1986 (a digressão em torno da saga Mole, afinal, aconteceu antes da edição deste registo final da trilogia).

Os CDs números 4 e 5 deste lote incluem material da digressão The Mole Show, com gravações efectuadas no The Roxy de Nova Iorque, em 1982 – e é impossível não imaginar que Afrika Bambaataa, que foi DJ no Roxy nesta era, se possa ter inspirado na actuação dos Residents para conceber o seu próprio “Planet Rock” que seria editado nesse mesmo ano – e em Washington, em 1983, um registo até este momento inédito. The Mole Show – Live at The Roxy soa alien e tão progressivo à luz dos tempos correntes como há três décadas e meia, quando os lunáticos músicos californianos mostraram à Grande Maçã o som de um futuro que também já borbulhava nas entranhas daquela cidade. Penn Jilette, o narrador convidado, assegura ao entusiasmado público que os músicos com máscaras de globos oculares gigantes são de facto os Residents e que toda a música é executada ao vivo, sem fitas pré-gravadas, o que só reforça o carácter extraordinário desta música que faz colidir electrónica, ruído, vaudeville, aura de ficção científica das séries-B dos anos 50, art-rock e performance arte, se calhar mais facilmente enquadrável no MOMA do que no Roxy, mas convém não esquecer que esta era uma banda que a nesta altura acreditava genuinamente na validade comercial da sua visão.

O último dos CDs da caixa inclui Miscellaneous Mole Materials, gravações avulsas, material expandido que acabaria por surgir editado nos álbuns da trilogia e alguns inéditos misteriosos criados na mesma época. O alinhamento tem dedo dos próprios Residents, por isso este não é um documento que resulta de um olhar externo à banda, mas algo com uma curadoria conhecedora dos arquivos e da relevância de todo este material para a saga Mole. É, por tudo isso, um precioso documento para qualquer fã da banda, mas também uma possível porta de entrada para um fascinante universo que permanece artisticamente relevante e esteticamente desafiante até aos dias de hoje.

A música dos Residents tem o condão de ser absolutamente livre: criada de forma independente, com meios próprios, nunca dependeu de budgets de editoras e nunca respondeu a qualquer tendência de fundo imposta pelos tops ou pelas playlists comerciais das rádios. É por isso mesmo singular e desafiante, visionária e avançada, um inteligente comentário ao seu tempo e até, como já se percebeu, aos tempos que ainda estavam para chegar. Mas mesmo despindo todas as camadas conceptuais, algo densas e até, convenhamos, de entendimento não exactamente imediato, a música retém uma vibração muito particular, com a tecnologia a servir ideias avançadas, com ecos da história da pop a alimentarem um corpo de peças de charme irresístivel, de humor refinado e de imaginação melódica, tímbrica e poética/fonética desbragada. Coisas que só o génio explica.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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