The Residents: mestres da colagem preservam o passado

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

A história dos norte-americanos The Residents é uma das mais fascinantes do universo da pop e, em última análise, essa história é, de facto, a grande obra-prima do “grupo”, uma misteriosa entidade responsável por uma complexa discografia que se estende por mais de 60 álbuns, um output “musical” massivo que ainda assim é apenas parte de uma obra mais vasta que inclui também extensões na vídeo arte, elaboradas apresentações ao vivo que misturam música e diferentes artes performativas, design gráfico, conteúdos digitais interactivos, etc.

Em 2017, os Residents celebraram uma nova aliança editorial com a britânica Cherry Red, editora por que lançaram o seu mais recente registo original, The Ghost of Hope, mas também a antologia 80 Aching Orphans que ao longo de 4 CDs documenta um percurso discográfico que se estende por quatro décadas e meia! Estas edições prepararam o caminho, entretanto, para um ambicioso programa de reedições especiais de peças-chave da discografia dos Residents que a Cherry Red descreve como “preserved editions“: Meet The Residents, o primeiro álbum do grupo, originalmente lançado em 1974, e ainda The Third Reich ‘N’ Roll, de 1976, duas edições que originalmente ostentavam o carimbo da Ralph Records, etiqueta criada pelos próprios Residents, e que agora são reformuladas e expandidas em duplos CDs recheados de material de arquivo raro ou inédito.

 



O mais recente trabalho dos Residents, o já mencionado The Ghost of Hope, nasceu depois do grupo descobrir um conjunto de velhos recortes de jornais que davam conta de vários acidentes ferroviários. Os comboios – as suas locomotivas e carruagens e as longas linhas férreas inter-estaduais – são há décadas inspiração para incontáveis músicos que viram nesse meio de transporte uma das ferramentas de construção da própria América: dos blues a Dylan e de Tom Waits aos Residents é possível descortinar um fio condutor de narrativas musicais erguidas em torno da ideia destes monstros de ferro que cruzam incessantemente a grande paisagem americana. A visão que os Residents expressam em The Ghost of Hope pouco tem de romântica, no entanto. O álbum abre com um cântico particular: “As carruagens estão a andar para trás / as carruagens estão a andar para trás / as carruagens estão a andar para trás / ao longo da linha” (que ecoa “os comboios não deviam andar / os comboios não deviam andar / para trás” de Allen Halloween…). Sobre uma colagem de ruídos de comboio que começa por evocar “Etudes aux chemins de fer” de Pierre Schaeffer os Residents dispõem depois a voz semi-declamada, semi-cantada que lhes é característica (e que soa como uma destilação de um cocktail de “vozes” de apresentadores de notícias televisivas, de evangelistas de rádio, de locutores de jingles e narradores de trailers comerciais de cinema…) e farrapos de electrónica mais ou menos fantasmagórica. E como sempre, através desta estratégia criativa, os Residents oferecem ao mundo um fresco sobre um ângulo específico da América que nunca se cansaram de navegar.

 



À Wire, em Abril do ano passado, Homer Flynn, o porta-voz da Cryptic Corporation — a “entidade” que gere os destinos da carreira dos Residents e que é o seu rosto de facto — explicava que esta era em que vivemos “é muito interessante”: “Quer The Ghost of Hope seja uma história exemplar a respeito da tecnologia ou apenas um aviso — algo que ainda não se sabe – eu permaneço optimista. Acredito que haveremos de sobreviver”. Flynn, que muitos garantem ser a voz principal nas gravações dos Residents (há várias teorias sobre isso, mas é possível ganhar alguma perspectiva lendo esta entrada da Wikipedia), esclarece afinal aquele que é o âmago da arte deste projecto artístico: um longo comentário sobre a cultura da América, em primeira instância, e sobre o próprio século XX.

A marca mais premente na história dos Residents prende-se com o mistério em torno da sua identidade. “Os Residents são famosos por serem anónimos”, escreveu Marc Masters para a Pitchfork em 2012. “O que a maior parte das pessoas sabe sobre eles é que ninguém sabe quem eles são”. Por isso mesmo, os detalhes biográficos da “banda” são escassos, por vezes confusos e eventualmente contraditórios, mas a biografia comummente aceite e bastas vezes veiculada dá conta do nascimento do grupo em Shreveport, no Louisianna, em meados dos anos 60, e da sua mudança para a Califórnia, em 1966, atraídos pelo clima libertário que então começava por ali a despontar.

Em Rip It Up and Start Again, livro de Simon Reynolds sobre o agitado período pós-punk de 1978-1984, Hardy Fox, o outro membro da Cryptic Corporation (que se acredita ser igualmente o principal arquitecto musical do grupo) explicava que o espírito particular da expansão da mente típico de locais como São Francisco foi o principal isco que atraiu os Residents, mas a realidade encontrada logo que o grupo aí chegou (começaram por se fixar nas imediações da cidade, embora só se mudassem para aí de forma permanente em 1972) era muito diferente: “Os Residents ergueram-se… a partir do facto da era psicadélica ter chegado a um beco sem saída. As pessoas que faziam experiências nessa direcção pararam quando mal tinham arranhado a superfície”.

 



Na verdade, o clima de São Francisco nos anos após a explosão hippie era muito favorável à experimentação. Além do notório San Francisco Tape Music Center, colectivo criativo que orbitava em torno de figuras como Pauline Oliveros ou Morton Subotnick (que em 1967 editou o primeiro álbum de música electrónica encomendado por uma editora, Silver Apples of the Moon, o disco lançado na Nonesuch que inspirou, em Nova Iorque, os pioneiros Silver Apples), havia todo um circuito de bandas interessadas em expandir noções de musicalidade e performance, facto que certamente terá permitido aos Residents desenvolverem favoravelmente as suas próprias ideias num clima que era propício a posturas desafiantes e disruptoras das normas.

Reza a lenda que em 1971, quando já contavam um bom par de anos de experiências com primitivos gravadores de fita e outros artefactos sonoros mais ou menos artesanais, os Residents enviaram uma demo para Hal Halverstadt da Warner Brothers, por esse ter sido o A&R responsável a dada altura por Captain Beefheart, uma das suas principais referências. Os Residents viviam então em comunidade, como outros grupos da época, e no envelope que continha a demo não especificaram nenhum nome, indicando apenas a morada da residência. Halverstadt não ficou particularmente impressionado com o trabalho e devolveu a demo à procedência com uma nota de rejeição endereçada, por falta de mais informação, aos “residentes”. E foi assim que o grupo encontrou o nome que usa até hoje.

Na ausência de um contrato discográfico, os Residents decidiram estabelecer a sua própria Ralph Records, editora por que se estrearam em 1972 com o clássico “Santa Dog”, single que há um par de anos mereceu reedição da Superior Viaduct. O primeiro álbum, Meet The Residents, seria editado dois anos depois. A ambição e o arrojo criativo do grupo, no entanto, já os impelia a seguirem em múltiplas direcções e ao mesmo tempo que preparavam a extraordinária colagem que conhecemos como Meet The Residents, os misteriosos e anónimos criadores disfarçados com as suas icónicas máscaras de globos oculares já investiam igualmente pelos territórios multimédia estudando as possibilidades conceptuais do cinema num planeado épico que baptizaram como Vileness Fats. “Pretendia ser o primeiro filme de sempre de 14 horas misto de comédia/musical/romance, com a história a ter lugar num mundo de anões de um só braço, mas eventualmente o projecto teve que ser abandonado”, escreve Simon Reynolds. “As suas apresentações ao vivo tinham também uma inclinação teatral”, assegura ainda o autor, “e envolviam elaborados cenários, adereços e roupas, incluindo as famosas máscaras gigantes que transformavam cada cabeça dos membros dos Residents num monstruoso globo ocular”.

 



Meet The Residents é uma das mais extraordinárias e desconcertantes estreias da história da música pop. Um álbum que cruza música concreta, rudimentares colagens de fita, performances ineptas, mas altamente expressivas, num remoínho de ideias mais ou menos abstractas e absurdas que oferecem uma visão de facto psicadélica de toda uma cultura – pop, humana, política – que a América então exportava para o mundo. Com uma capa “samplada” de Meet The Beatles, mas com as faces dos “fab four” desfiguradas (e essa capa até alimentou algumas delirantes teorias de que os Residents poderiam de facto ser os próprios Beatles, reunidos após a separação de 1970 e a darem azo aos seus declarados interesses na experimentação de vanguarda), o manifesto de intenções do grupo começava logo na arte escolhida para embalar a sua proposta musical. “Para os Residents”, refere ainda Simon Reynolds, “os Beatles simbolizavam tudo o que havia de bom e tudo o que havia de mau na pop, o psicadelismo capaz de expandir a mente presente nas experiências laboratoriais de estúdio versus a ubiquidade tirânica e controladora de mentes da pop (o “somos maiores do que Cristo” de Lennon)”.

Na presente e extraordinariamente anotada edição “preserved” da Cherry Red, Meet The Residents surge em dois CDs, com as versões mono de 1974 e stereo de 1977 a encimarem cada uma das rodelas que depois são expandidas com o EP Santa Dog e o que se descreve como “outtakes and ephemera”.

 



A mesma estratégia é adoptada para o igualmente fantástico The Third Reich ‘N’Roll, um disco de apropriações, de sampling, de crítica – no sentido de pensamento em acção – à cultura pop que foi originalmente lançado em 1976 (alinhando-se, de certa forma, com o zeitgeist do punk, ainda para mais tendo em conta o igualmente desafiante artwork) e que aqui surge dilatado com mais uma série de material extra, incluindo muitas faixas inéditas produzidas na mesma época.

Com uma capa em que o popular apresentador televisivo norte-americano Dick Clark surge retratado com uma farda das SS nazis, pensa-se a pop como uma ferramenta tirânica de globalização anos antes da MTV – que haveria, aliás, de abraçar inicialmente os Residents por força da criatividade dos seus avançados vídeos – ou de Thriller. O método de criação desta singular obra experimental foi ele mesmo extraordinário: o grupo criou em estúdio duas colagens contínuas feitas a partir de clássicos e êxitos rock and roll (uma abordagem que teria como pináculo a versão que um par de anos mais tarde lançariam de “Satisfaction”, original dos Rolling Stones) em cima dos quais deixaram depois os seus “comentários”: gravações adicionais, snippets de voz, farrapos de outras melodias, efeitos, cortes, etc. Quando retiraram a colagem feita a partir dos temas originais, as duas peças – “Swastikas on Parade” e “Hitler was a vegetarian”, cada uma ocupando um dos lados do LP – revelaram uma dimensão espectral, altamente irónica e profundamente absurda. O grupo descreveu o trabalho como “uma tentativa de tratar o TOp 40 dos anos 60 como se fosse material de vanguarda executado por bandas alemãs progressivas do início dos anos 70”. Na mouche.

Esta altamente imaginativa abordagem à música pop como detrito aural que a bem de uma ecologia sonora é imperioso reciclar informa incontáveis obras posteriores, sendo possível ver traços destas ideias na ironia de bandas como os Devo ou Talking Heads, nas surrealistas composições de bandas como os Sun City Girls ou, como refere igualmente Marc Masters na já citada peça da Pitchfork a propósito de outros marcos da discografia dos Residents, até na experimentação de grupos como os Gang Gang Dance e Animal Collective. O trabalho posterior de colectivos como os Negativland, por outro lado, ou as altamente expressivas colagens hip hop dos Den Sorte Skole traduzem também a continuidade das ideias originais dos Residents noutras eras, com a acomodação de outras ferramentas tecnológicas a um mesmo pensamento inquisitivo sobre o devir da música pop. E todo aquele lado “what’s he building in there” de Tom Waits é igualmente devedor do ângulo mais esotérico da obra dos Residents.

“Preserved” é, por isso mesmo, a palavra certa para esta nova série que trata os estudos dos Residents como dignos artefactos, produtos de mentes altamente críticas e criativas que, à sua maneira, mudaram o mundo. Na abertura do documentário Theory of Obscurity: A Film About The Residents encontra-se uma reveladora frase de Einstein: “O mundo está sempre pronto para receber talento de braços abertos”, terá garantido o teórico da relatividade. “Mas frequentemente não sabe o que há-de fazer com um polvo”.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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