SXR: “Fazer música genuína, transparente e livre”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Marta Maciel

Erre K acaba de revelar a colaboração com Gijoe no seu novo single, “Tu Diz-me”. As novidades da Contentor Records não ficam por aqui: Buda XL e SXR também lançaram música nova nos últimos tempos, incluindo a versão instrumental do álbum de estreia.

 



Spock assina todas as produções envolvidas nos temas que têm chegado ao canal no YouTube do Contentor. Beatmaker in da house do trio SXR — Erre K e Buda XL são os MCs — é ele um dos principais dinamizadores do colectivo que habita no complexo de estúdios Nirvana.

O primeiro sinal dado em 2018 aconteceu há precisamente dez dias: Buda XL deu voz a “Mano Hugo”, tema em colaboração com Ricardo Pereira, servido num react genuíno do destinatário da sua letra. “Ou é do coração ou então não presta” foi o mote escolhido para dar a conhecer o primeiro avanço de A Arte de Propósito — um disco a solo que sairá no decorrer do ano pela Contentor.

Os SXR editaram o primeiro álbum de originais há um ano e o Rimas e Batidas acompanhou a estreia do trio. Como celebração desse primeiro ciclo de vida, os instrumentais do primeiro volume estão agora disponíveis no YouTube. Se ainda procuram pelo beat perfeito, Spock pode agora dar uma mãozinha nessa importante procura pela inspiração.

Também Erre K não quis ficar de fora deste início de temporada musical do Contentor Records e acaba de estrear “Tu Diz-me”, uma música em que podemos ouvir o scratch de Gijoe. À semelhança de Buda XL, o vídeo realizado por Emídio Silva serve para assinalar a vinda de um novo trabalho a solo. Identidade está já aí ao virar da esquina, num ano em que os SXR preparam o Volume 2 do seu projecto colaborativo.

 



O sentimento que expressas em “Mano Hugo” é algo raro nos dias de hoje. O que te fez usar um tema tão pessoal como single do teu próximo projecto?

[Buda XL] Tendo em conta o panorama, achei que seria disruptivo falar do coração num tema que diz algo a todos nós. Tem dedicatória e é pessoal, ya, mas acho que é abrangente o suficiente para que, depois daqueles 4 minutos, qualquer um abra o Messenger do Facebook ou o Whatsapp e mande aquela mensagem para fora, numa de “meu puto, ‘tou aqui à tua espera, ya? Saudades.”

Na verdade, este é o sentimento que domina o álbum. Este motto do “Ou é do coração ou então não presta”, sabes? Não tenho basicamente momentos de egotrip — não que não goste ou não faça — e foquei-me antes em reflexões sobre as cenas que sinto, sobre as coisas que um gajo vive, que acontecem. E tentei ser profundo, porque também é assim a arte que me inspira. É pessoal e, por muito poético que o tente fazer, não deixa de ser directo e relacionável.

Em que fase se encontra A Arte de Propósito? O que é que podes revelar neste momento acerca do álbum?

[Buda XL] A Arte de Propósito é o culminar de vários anos e várias ondas. Como sabes, sempre tomei parte em imensos projectos diferentes ao longo destes 13/14 anos e em todos dei o meu máximo e de todos retirei algo. Desta vez é um foco em mim e na minha visão mais pessoal da arte e da música. Musicalmente vai para além do rap e combina muitos elementos numa tentativa de fazer uma sonoridade única. É aquele groove, aquele feeling e vontade de soar único que tanto bate no Fela Kuti como no Angus Young ou no R.A. The Rugged Man.

Estou a acabar arranjos e a gravar as últimas faixas e, apesar de ser a solo, conto de perto com a ajuda na composição do Spock, que contribui com vários beats dele e me assegura as baterias todas na MPC, do Ricardo Pereira e do Filipe Silva aka Mr. Papz, que faz das misturas e do master um momento criativo, a ultima refinação das faixas. Nada está a ser feito à toa. É tudo de Propósito.

“Tu Diz-me” é o oposto total de “Mano Hugo” — novo egotrip do Erre K com rimas fortes. É esta a tal Identidade que vais apresentar no novo EP?

[Erre K] Eu não vejo o “Tu Diz-me” como um egotrip mas como uma afirmação de identidade humana perante a postura no hip hop, embora perceba o porquê da pergunta. O EP terá o nome de Identidade mas não no contexto de eu sublinhar a minha. É, sim, num contexto de mostrar que hoje em dia muita gente não tem uma identidade própria. O “Tu Diz-me” é cem por cento virado para a nossa cultura mas o EP vai além disso. Este single marca também uma espécie de nova vinda da minha parte, visto que foi escrito numa fase muito própria da minha vida durante a qual estive um pouco ausente da escrita e dos microfones.

E vens bem acompanhado. Como se deu esta colaboração com o Gijoe? Há mais algum convidado que tenhas já confirmado para o teu próximo projecto?

[Erre K] A colaboração do Gijoe surge através do Spock que, tal como no álbum de SXR, procura sempre as melhores parcerias para dar vida aos nossos projectos. E visto que somos todos hip hop, torna-se mais fácil uma união directa com quem sente a cultura como nos sentimos. A nível de convidados posso adiantar que alguns instrumentais são produzidos pelo Dirty Kings Productions, embora a musicalidade dos meus projectos sejam sempre baseados nos instrumentais do Spock, visto ser a estética com que mais me identifico.

Comemoraram recentemente o primeiro aniversário do disco de SXR. Em jeito de retrospectiva, que balanço fazem desse trabalho?

[Spock] Foi um enorme prazer meter o disco cá fora. Apesar de o andarmos a trabalhar tipo um ano antes, foi a partir desse momento — com os concertos, entrevistas, tudo mais — que encontrámos a nossa identidade enquanto “artista” ou “banda”. Permitiu-nos muitas coisas que não achávamos que fossem acontecer a um disco sem singles nem videoclipes em pleno 2017.

Disponibilizaram os instrumentais todos no âmbito do aniversário. Olhando um pouco mais a fundo nesse capítulo, o que te levou à concepção dos beats? Podes explicar-nos um pouco dos processos/directrizes que segues quando procuras pela “perfeita repetição”?

[Spock] O projecto SXR surgiu numa altura onde já dedicava todo o meu tempo livre ao beatmaking. Alguns dos instrumentais já têm mais de dois anos, numa fase em que os fazia sem destino concreto, outros foram feitos após ouvir as primeiras letras do Erre K em conjunto com o Buda XL. O processo é algo completamente natural, sem pressões nem algo parecido. Cada vez que me sento para criar um instrumental faço-o como se fosse a primeira vez, sem pensar em fórmulas, sem pensar nas tendências actuais e ainda menos nas visualizações que poderá a vir ter, pois isso ia estragar toda a genuinidade que quero que esteja presente no que crio. Felizmente, o Buda e o Erre movem-se pela mesma autenticidade e amor ao hip hop, tornando-se essa a nossa directriz: fazer música genuína, transparente e livre.

Disseste-me que estão a trabalhar num segundo disco. Já tem nome? Que mais se pode já saber sobre ele?

[Spock] Vai ser mais curto que o anterior, com umas 9 ou 10 faixas. Com beats e letras um ou dois níveis acima do anterior (a matar os bosses) e, por isso, com uma sonoridade desenvolvida e mais estimulante. Sempre SXR. Por isso mesmo, provavelmente chamar-se-á Volume 2 e vai ser antecipado por um single ou dois.

Vai ser um ano animado no seio da família do Contentor. Além destes três projectos, há por aí mais algum trunfo a sair do vosso estúdio?

[Spock] Para já, estamos a preparar terreno para estes três projectos. Também estamos os três a desenvolver, em conjunto e em separado, outros projectos que sairão pelo Contentor, mas tudo a seu tempo: visto não ter sido nada revelado por ninguém ainda, também não vamos ser nós a fazer a desfeita.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira