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Fotografia: Geraldo Ferreira & Guilherme Cabral
Publicado a: 25/11/2023

Bom, embora insuficiente.

Super Bock em Stock’23 — Dia 1: sustentados pelo que é “nosso”

Fotografia: Geraldo Ferreira & Guilherme Cabral
Publicado a: 25/11/2023

Chegou aquela altura do ano em que fazemos “piscinas” pela Avenida da Liberdade. Ora para cima, ora para baixo. Tudo em prol de ver Lisboa a respirar música a plenos pulmões, com mais uma edição do Super Bock em Stock a promover concertos em diferentes espaços no coração da capital portuguesa. Sem a chuva, habitual companheira desta época, a atrapalhar a locomoção a céu aberto, é o próprio cartaz do festival quem parece não jogar tão a favor dos festivaleiros, ao exibir um leque de artistas significativamente mais pobre se tivermos em conta os alinhamentos anteriores.

Sem atrações internacionais dignas de mencionar por cá ao primeiro dia, algo que não mudará por muito amanhã quando dermos conta do que se passará na noite de hoje, esta leva de reportagens recai única e exclusivamente em nomes da nossa praça. O que não é mau, claro, e não deixa de nos motivar a enfrentar o frio num final de semana, mas sabe sempre a pouco se nos recordarmos da envergadura deste certame e os artistas com que nos brindou em anos não assim tão distantes. É cruzar os dedos e ter fé de que 2024 venha mais “carregadinho”. Até lá, concentremo-nos no menu que temos à disposição.



Os anos passam, as edições sucedem-se, mas há coisas que, para o mal ou para o menos bem, não mudam. Chegar aos concertos inaugurais do Super Bock Em Stock nunca é tarefa fácil, pelas razões mais óbvias: é sexta-feira, há trânsito de hora de ponta e vamos para a Avenida da Liberdade. Bom, mas lamentações à parte, conseguimos ainda assim chegar a tempo da verdadeira Choradeira

Foi para apresentar o seu disco de estreia que ela li se estreou, também ela, em matéria de actuações ao vivo a solo, e por isso a Sociedade de Geografia de Lisboa, para o efeito baptizada Sala Ermelinda Freitas, não lhe podia ter assentado melhor: tão intimista quanto descomprometido, o espaço (e o respectivo ambiente) abonou em favor da cantora, compositora e cineasta de Lisboa — coisa que não se poderá dizer em relação ao som. Foi pena que a sua voz adocicada se tenha sentido abafada pelos instrumentos dos seus companheiros de palco — designadamente Zé Cruz na percussão e trompete, Tayob J. nas teclas e Luís Sanches à guitarra — porque, mesmo de decibéis limitados, tornou-se clarividente a limpidez das suas cordas vocais, também, de viva voz. De chorar por mais, por todas as razões.

— Paulo Pena



Tão bonita fica a Casa do Alentejo, aqui denominada por Sala Bogani, aquando vestida com as cores emanadas por um sistema de luzes típico de espectáculo musical. Ambiente escuro o suficiente para lhe dar um certo ar místico, mas com luminosidade o quanto baste de modo a conseguirmos inteirar-nos do que se passa ao nosso redor e dos movimentos que a qualquer momento se possam fazer notar no palco. Foi por aqui que surgiu INÊS APENAS ao leme de um teclado e acompanhada por Ned Flanger na guitarra, eles que além de partilharem o palco também têm arquitectado temas juntos em estúdio. “Shhinfrim” foi a primeira a fazer-se escutar, seguida de “Batata Frita”, que rapidamente conquistou a plateia feita de um misto entre fãs e curiosos da cantautora de Leiria.

Além do repertório feito de um registo quase de tragicomédia, o que mais salta à vista é mesmo a forte componente técnica dos dos músicos em foco. A guitarra não esconde segredos das mãos de Flanger, da mesma forma que INÊS domina não APENAS o piano, mas também se mostra seguríssima na voz sem nunca perder o tom ou o brilho. Com “Fim do Mundo” e “Leve(mente)” deixadas para o fim, recebendo acompanhamento digno por parte do público, o concerto teve ainda espaço para receber um par de convidadas: Malva ajudou a interpretar “Tensa”, enquanto que Soluna contribuiu para “La Nena” e para duas canções de Sara Tavares, numa emotiva homenagem à eterna cantora que se fez à boleia de “Ponto de Luz” e “Coisas Bunitas”, dando vida a um momento bem especial desta edição do SBES.

— Gonçalo Oliveira



Carla Prata apresentou-se de forma simples mas a bom nível em mais uma edição do Super Bock em Stock, fazendo-se acompanhar somente pela sua DJ que aqueceu a pista de dança durante os primeiros 15 minutos que lhe estavam destinados. O porquê de um concerto num festival de showcases ter warmup é uma questão que causa estranheza. Com tanto para ver e em palcos tão criativos, custou passar 15 minutos à espera da artista. Mas assim que subiu a palco, Carla Prata não desapontou.

Nascida em Londres, foi lá que também estudou música numa das melhores escolas que o Reino Unido e a Europa têm para oferecer, e isso nota-se na abordagem cuidada que dedica a cada tema. Com dotes vocais bem acima da média e um timbre particularmente doce, Carla Prata trouxe-nos um reportório de hip hop e r&b que se estendeu entre musicas mais antigas (repescou “Minha”, lançada em 2017 mas que só agora integra o seu catálogo nas plataformas digitais) e outras mais recentes, como “Nevoeiro” ou “Keys”, esta última laçada no início deste ano e um dos poucos temas que canta em inglês.

Só não conseguimos perceber é como é que o nome de Carla Prata não é suficiente para encher o Capitólio e contrariar a rotação do público entre palcos. Ao mesmo tempo, sentimos que tudo cairia melhor se o espaço estivesse mais composto e menos iluminado pelos letreiros brancos de um dos principais patrocinadores do evento.

— João Daniel Marques



Mudam-se os palcos, mas não se mudam, aparentemente, as condições. Da Sala Ermelinda Freitas à Garagem EPAL foi, felizmente, um pulo — porque num festival como o SBES, que se divide por meia dúzia de salas do Rossio ao Marquês de Pombal, há quase sempre escolhas irremediáveis a fazer —, o que nos permitiu aproveitar a recta final da actuação de ela li sem ter de sair a correr em direcção ao espaço reservado à curadoria Filtr. Era Yang quem havia sido escalado para a primeira actuação da noite na Sala Tranquilidade e, mais uma vez, a (boa) voz de quem canta chega-nos sem grande expressão. Redobramos, por isso, a atenção auditiva, porque nos parece claramente que o cantautor de Oeiras tem notas para dar — e nem as condições sonoras desfavoráveis ofuscam esse potencial manifesto.

João Branco, com quem Ricardo Farinha falou há uns meses numa entrevista publicada por aqui, tem-se revelado um micro-fenómeno, um projecto que soa a caso sério e que vem demonstrando qualidades várias no que faz. Já com dois discos editados, assinalou apenas a sua quarta actuação ao vivo com um reportório já considerável, e mais admirável ainda foi ver a mancha de pessoas que o seguem, de letras bem sabidas e entusiasmo indisfarçável. A sua postura em palco — e presumivelmente fora dele — também ajuda: sempre de sorriso rasgado, não deixa que o nervoso miudinho se intrometa na interacção com a plateia, levando-nos quase a crer que já faz isto há bem mais tempo. A continuar assim, há-de ser seguramente esse o caso daqui para a frente.

— Paulo Pena



Ao contrário de Carla Prata, Filipe Karlsson fez por não perder um segundo tempo que lhe tinha sido atribuído no Capitólio e começou a tocar quando a fila lá fora ainda era longa. Depois disso, foi sempre a abrir. Desfilou os clássicos do seu primeiro EP Mãos Atadas e alguns dos singles anteriores numa hora de concerto pautada pela boa disposição e energia, que até o levaram a justificar-se: “Eu falo sempre na positividade. Tento sempre escrever sobre o lado bom da moeda, porque na vida há sempre os dois lados. Mas se pensarem no lado bom, vão encontrar coisas boas”.

Acompanhado em palco pelo irmão e teclista, Carl Karlsson, trouxe-nos o mais recente single que criou com Pedro Teixeira da Mota (“1 Casa, 2 Portões”), numa colaboração que “nasceu à base da espontaneidade e amizade”, e levou o público a cantar “Vento Levou” em uníssono no que seria o ponto alto da performance.

Para os mais distraídos, Karlsson veio para ficar e tem provado que, apesar de bastante reconhecível, tem uma formula que é só sua. Podemos achar que já ouvimos a sua música em qualquer lado, jurar que entrou num filme que vimos na TV ou que ouvimos de um disco antigo dos nossos pais, mas sabemos que isso não é provável. Ver Filipe karlsson é assistir a um filme da época — é um take moderno e atualizado da disco e do funk das anos 80 se lhe acrescentarmos uma mão cheia de temperos “à portuguesa”. Ao vivo, prima pela abordagem exagerada a alguns dos temas, algo previsível dentro da persona que apresenta, mas que por isso mesmo faz todo o sentido e assenta que nem uma luva num concerto deste ou qualquer outro festival ou concerto a solo.

— João Daniel Marques



De volta à Garagem EPAL, já a coisa parece estar mais calibrada. Nem se pedia menos que isso, sobretudo num concerto de xtinto. Até porque a memória traz-nos fantasmas de problemas equivalentes sentidos pelo rapper de Ourém noutras bandas. Maldição enfim quebrada. E é com traje de purgatório que Francisco Santos irrompe em palco, de capuz cerrado e esburacado em todo o tronco, no que visualmente magicámos como uma metáfora da escuridão que ainda conserva dentro de si (pelo tom negro com que se apresentou da cabeça aos pés), mas cujas feridas abrem, simultaneamente, uma luz interior incandescente (visível no contraste para a camisola branca que envergava por baixo). Cada qual com as suas interpretações mais ou menos rocambolescas. Mas a verdade é que foi precisamente nesse limbo (nesse yin-yang, se estivéssemos a falar do seu antecessor na Sala Tranquilidade) que o autor de Latência encontrou um equilíbrio perfeito entre o que representa o seu lado mais obscuro e vincadamente circunscrito ao rap e a sua faceta mais radiante, com todo um novo espectro de possibilidades melódicas a emergir de há uns tempos para cá.

Na realidade, essa transição até se revelou bastante natural entre temas como “Android”, “Marfim” ou “Éden” — os mais queridos do seu público, por sinal —, mas a plateia do SBES não deixa de se manifestar mais perante as velhas malhas do prodigioso MC do que sobre as ainda relativamente frescas, extraídas do seu primeiro longa-duração em nome próprio. Claro que também tem a ver com as idiossincrasias de cada registo: é compreensível que, não só pelos factores de tempo e familiarização, mas também pela energia, faixas como “Pentagrama” ou “ébano”, por exemplo, provoquem reacções bem mais viscerais na plateia em espelho com o próprio artista — o que não retira peso emocional às palavras de canções desde “Lábios do Mar” a “Cadáver”, replicadas entre dentes pelas dezenas de espectadores-vítimas dos efeitos da complexa poesia de xtinto.

Agora, percebemos que por esta altura lhe pareça redutor — como fez questão de, subtilmente, assinalar — a mera caracterização de rapper. De facto, quer em relação à sua música propriamente dita, quer em termos de formato de concerto — que, nesta noite, contou com Guilherme Simões nas teclas, Billy Verdasca das backs à flauta, Tomás Martin num indispensável saxofone e, ainda, Mike El Nite a convite do capataz de “Iglu”  (sem esquecer o baterista João Mascote, que não pôde acompanhar o resto da banda por questões técnicas) —, está longe de se resumir a “apenas” isso. A sua presença em palco só reforça essa ideia, há que dizê-lo. Mas mesmo que xtinto se tenha tornado num músico de mão cheia, manifestamente confortável na sua pele artística, é a sua capacidade lírica incomparável que o distingue dos demais. E por muito que evolua em variadíssimos aspectos, é sempre essa vertente que mais nos fascina. Portanto, no seu caso, a lógica parece-nos inversa: sim, é um artista, um músico — mas não só. É um rapper. E dos melhores que por aí andam.

— Paulo Pena



Antes da despedida, aproveita-se para embarcar no clubbing que o dia inaugural do festival oferece. Conciliando o “2 em 1” que o Coliseu dos Recreios proporciona na recta final desta noite, começamos pela zona do bar, onde esteve Stckman a disparar bombas de electrónica para uma plateia bem composta e sedenta de passos de dança. O produtor que este ano lançou um EP (Distantopia) pela MAR Records ainda é um segredo mais ou menos guardado da noite lisboeta e um repetente do SBES, que em 2021 o recebeu num formato diferente, a mostrar trabalho original ao lado de Kyle Quest. E Nuno Espírito Santo não só é um criativo dotado, como também dá nas vistas pelas suas escolhas enquanto DJ, tendo brindado os presentes no serão de ontem com um techno carregado de luzes néon, que tanto presta uma homenagem aos pioneiros de Detroit como solta alguma purpurina através de uma componente melódica mais vincada e sedutora.

— Gonçalo Oliveira



Aquecidos os corpos, tempo para nos mudarmos para um outro ambiente néon, o do Néon Colonialismo de Batida, numa data especial em que se vê ladeado do que apelidou de ser um verdadeiro “super-herói”, Bonga, lendário cantor angolano com vasta pegada deixada na cultura lusitana. Disso já nós sabíamos à partida pelo que exibia o cartaz do evento. Só não sabíamos que também Karlon integraria este espectáculo no seu arranque, matando-nos as saudades que tínhamos de o ver em palco de microfone erguido. Após uma apresentação de Pedro Coquenão, o rapper de Miraflores começou por cantar o seu “Fadiga Ku Kuze”, evocando as raízes cabo-verdianas que tem entranhadas no sangue e mantendo a toada em mais um par de faixas. Numa tentativa de replicar o espectáculo “Batida + Kambas e o Próprio Kota!”, para o Red Bull Music Academy Culture Clash de 2016, entraram também em cena os bailarinos para uma breve performance antes das duas estrelas da noite se apresentarem perante a audiência.

Após esta introdução, Batida e o Próprio Kota (aka Bonga), foram puxados para a zona fronteiriça do palco do Coliseu sentados sobre uma plataforma que parecia um verdadeiro trono para DJs e incluía uma mesa com as máquinas que permitem misturar faixas em tempo real e alguns instrumentos musicais. Em regime de selectors, foram disparando músicas à vez, passando em revista o vasto legado da música angolana, com especial incidência no catálogo do autor de Mulemba Xangola e por vezes intervalando essa ginga com sonoridades mais electrónicas. Em momento algum Bonga cessou o seu largo sorriso, visivelmente contente por integrar este diferente formato de se apresentar em palco e ainda por cima diante de uma plateia tão jovem, distribuindo “fixes” de polegar para cima em direcção da malta, ao mesmo tempo que espalhava o seu perfume vocal e tocava algumas percussões por cima dos temas.

— Gonçalo Oliveira


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