Com passagem marcada para Portugal, Steve Gunn regressa para apresentar Daylight Daylight em dois concertos intimistas: primeiro no Teatro Municipal do Porto no dia 8 de Maio, depois, no dia seguinte, dia 9, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Duas salas que encaixam naturalmente na escala e na contenção do seu mais recente trabalho, um disco onde o espaço, o silêncio e a economia de meios são o resultado de um consciente passo na direcção da sombra.
Figura discreta, mas ainda assim essencial da música norte-americana das últimas duas décadas, Steve Gunn construiu um percurso singular entre o cantautorismo e a exploração instrumental, muitas vezes por via da improvisação livre. Nascido na Pensilvânia e radicado em Nova Iorque, começou por se destacar na cena experimental e no circuito underground, colaborando com nomes como Kurt Vile e integrando diferentes projetos antes de afirmar uma carreira a solo sólida e bastante prolífica. Ao longo das últimas duas décadas, Gunn consolidou uma linguagem própria que cruza folk, blues, uma certa névoa psicadélica e um certo ímpeto improvisacional. Seguindo essas coordenadas, desenhou uma discografia vasta e consistentemente aclamada.
Essa dualidade estabelecida entre canção e abstração tem sido uma das marcas mais fundas do seu trabalho. Paralelamente aos álbuns com voz, Gunn desenvolveu uma vertente instrumental igualmente relevante, explorando a guitarra como ferramenta de introspecção e contemplação. Um percurso que o posiciona como um dos nomes mais consistentes da música autoral contemporânea.
Daylight Daylight, editado em 2025, surge precisamente desse equilíbrio. Depois de Music For Writers, um disco instrumental centrado na textura e na repetição, este novo trabalho retoma o formato de canções, mas sem abdicar da contenção e da abertura que marcaram essa fase. Gravado em colaboração com James Elkington, o álbum aposta numa produção depurada, onde cada elemento é pensado e onde o excesso é deliberadamente evitado. O resultado é um conjunto de temas que lidam com o tempo, a mudança e a transformação, deixando nos arranjos amplo espaço para quer quem o escuta possa igualmente habitar as canções.
Gunn chega a Portugal num momento de renovação criativa, com um disco que reflecte tanto o seu percurso como uma vontade clara de recomeço. Apanhámo-lo numa trémula chamada de vídeo, em trânsito para Düsseldorf, algures numa autobahn.
Pelo que percebi, está neste momento na Alemanha, certo?
Sim, estou a caminho de Düsseldorf. Tive alguns atrasos na viagem. Era suposto estar já em casa de um amigo onde vou tocar hoje, mas houve problemas com o comboio e trânsito, por isso estou no carro.
Como está a correr a digressão até agora?
Está a correr bem. Tem sido intensa. Tenho andado a viajar sozinho e tento manter o equipamento no mínimo possível. Não levo muita coisa, o que torna tudo mais cansativo, mas tem funcionado.
Só você e a guitarra? Ou vai usando instrumentos alugados?
Levo a minha guitarra comigo e uma pedalboard. Mesmo assim já é bastante para carregar, mas é um setup minimal.
Falando do novo disco, qual foi o ponto de partida para Daylight Daylight? Houve um momento ou ideia específica?
Acho que acabei por fazer dois discos ao mesmo tempo. Queria muito fazer um disco instrumental, e durante uma residência na Letónia gravei algo mais improvisado, totalmente instrumental. Estive lá um mês, com muito tempo livre. Deu para me concentrar nesse projecto. Ao mesmo tempo, estava também a escrever canções. Fui falando bastante com o James Elkington, que acabou por produzir o Daylight Daylight. Ele é um dos meus melhores amigos, e fomos partilhando ideias sobre o tipo de disco que queríamos fazer. Gravei demos, enviei-lhas, e depois, quando voltei aos Estados Unidos, fui para o estúdio dele em Chicago e começámos a gravar. O processo foi muito natural, sem grande pressão. Ele fez muitos dos arranjos, escreveu as partes das cordas, e tudo aconteceu de forma bastante fluida. Foi provavelmente um dos processos mais simples e orgânicos que já tive.
Estando a trabalhar nesses dois registos ao mesmo tempo, como decide o que fica como improviso e o que pode dar origem a uma canção?
São processos diferentes. Quando escrevo canções, é mais estruturado — quase como um mapa. Começa com uma ideia pequena, depois vêm as palavras, e vou desenvolvendo isso. No disco instrumental, o foco era outro: não havia voz, nem uma preocupação forte com estrutura. Era mais sobre sensação e ambiente. Gravei muito material que nem sequer entrou no disco. No fim, a mistura acabou por ser tão importante como a gravação: foi aí que construí uma narrativa coesa a partir de tudo aquilo. Era algo que já queria fazer há muito tempo, e naquela fase tinha finalmente tempo e espaço para isso.
Nos concertos, tem integrado momentos de improvisação no alinhamento, alternado entre canções e momentos de deriva?
Sim, especialmente nesta digressão. Tenho vindo a combinar ideias dos dois discos e a incluir momentos improvisados entre as canções. Quando toco sozinho, tenho mais liberdade. Levo também algum equipamento eletrónico — um sampler e um gerador de som — que uso para criar paisagens sonoras entre temas. Tenho tentado aproximar mais esse lado da composição.
Há uma sensação forte de espaço e contenção no álbum. Foi uma decisão consciente essa de manter as coisas mais esparsas?
Sim, muito consciente. Falei bastante disso com o James. No passado, fiz discos com banda, com muitas camadas e pistas, e comecei a sentir que às vezes há informação a mais na música. Quis recuar, simplificar. Sinto-me mais “singular” como artista agora, e como tenho tocado mais a solo, fez sentido reduzir e retirar camadas. Foi um processo claro de subtração. O que é algo de novo para mim, na verdade.
Gravou em analógico ou digital?
Um pouco dos dois. O estúdio do James em Chicago é sobretudo digital, com Pro Tools, mas também trabalhámos noutros espaços e com outros músicos.
Perguntava porque é fácil ser-se contido quando se grava em 8 pistas analógicas, por exemplo, mas difícil quando se têm à disposição pistas ilimitadas…
Totalmente. Há sempre a tentação de acrescentar mais e mais. Mas isso pode tirar profundidade à música. Prefiro dar um passo atrás, olhar para a canção à distância e perceber o que realmente precisa de estar lá. Muitas vezes o processo foi mesmo retirar coisas, escutar atentamente e decidir que havia elementos que soavam supérfluos. Isso tornou-se uma parte fundamental do disco.
Como é que a vida na estrada mudou para si na última década?
Aprendi que é preciso ser muito cuidadoso. É quase uma habilidade que se desenvolve. Se não houver atenção, a tour desgasta completamente uma pessoa, tanto física como mental e emocionalmente. Hoje encaro isso de forma mais responsável. Dou prioridade ao descanso, cuido mais de mim, evito excessos, não bebo tanto, procuro deitar-me cedo. Penso na tour quase como uma caminhada longa: levo o peso comigo, mas vou avançando. Quero continuar a tocar e a ter essa ligação com as pessoas, por isso tenho de cuidar da forma como vivo isto.
Ainda encontra inspiração na estrada?
Sim, bastante. Sobretudo nas pessoas. Tenho conversas que acabam por se tornar ligações muito pessoais. A música cria esse espaço de troca. Muitas vezes as pessoas dizem-me que a minha música as ajudou de alguma forma e isso, devo admitir, é extremamente inspirador. Sinto-me muito grato por estar num meio onde há tanta abertura e apoio. E é fantástico encontrar gente que está disposta a realmente escutar.
Os temas do disco — tempo, mudança, mortalidade… — foram intencionais ou foram surgindo naturalmente durante o processo de escrita?
Surgiram de forma natural. Estava num momento de mudança pessoal e artística. Tinha passado anos numa editora maior, com discos mais caros e mais pressão, e nunca me senti totalmente confortável com isso. A pressão era realmente excessiva. Senti que finalmente cheguei a um lugar onde podia recomeçar, renovar a minha abordagem. Para mim, é isso que este disco representa.
Para terminar, pode falar um pouco da sua relação com Portugal?
Desde a primeira vez que fui, adorei. Conheci outros guitarristas, explorei a música — especialmente o fado — e senti uma ligação muito forte. Voltei várias vezes, cheguei a gravar lá um disco com o Mark Cooper, e passei bastante tempo no país. Tenho uma afinidade muito profunda com Portugal e por isso estou ansioso por reencontrar amigos que tenho aí.