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Fotografia: Filipe Feio

Há novo tema do "puto lento" para servir de consolo nestes tempos complicados.

Slow J: “Também não sei dizer o futuro”

Fotografia: Filipe Feio

Nas últimas semanas, as nossas casas tornaram-se no último reduto de defesa contra um novo vírus. Se para alguns as quatro paredes são uma realidade distante, para outros é uma oportunidade de estar mais tempo num sítio que conforta e aquece, e de voltar a uma era em que tudo era mais fácil. Slow J encaixa-se no segundo grupo e é à volta dessa ideia que gira a sua mais recente faixa, “Bem Vindo a Casa.”, lançada no passado dia 7 de Abril, criada em colaboração com Holly e Charlie Beats.

O estúdio é agora um local distante para João Batista Coelho e os dias passam-se entre “paredes” que “profetizam verdes anos”. Foi a partir daí que nos contou, por chamada telefónica, a maneira como está a reagir a toda esta situação, aproveitando ainda para falar sobre o seu último álbum, You Are Forgiven, e aquilo que anda a ouvir neste confinamento.


Quero começar pelo tema novo. Foi totalmente feito a partir da altura em que começou este isolamento, ou já tinha sido concebido antes?

Não, foi todo feito neste período.

Mas já tinhas o beat?

Não, recebi o beat quando já estava em casa.

A canção tem várias pessoas na produção. Como é que isto funcionou?

beat original veio do Holly. Ele é um gajo que é muito rápido a trabalhar e manda-me bué ideias, e isso é uma das grandes razões para ele estar em tantos sons meus. Muitas vezes, quando tenho vontade de escrever alguma cena, tenho sempre beats diferentes dele nos quais posso pegar para mexer. Neste caso, eu mexi um bocado no beat logo antes de começar a gravar. Fiquei logo com uma ideia. Mas por acaso é engraçado, ainda há uns dias estava a dizer ao Charlie [Beats] que, para mim, é estranho eu não mexer no beat onde vou gravar, é tipo deitares-te na cama e não te mexeres [risos]. É engraçado porque estou tão habituado a produzir que quando começo a imaginar [o tema] não gosto que a cena seja muito fixa. Costumo sempre criar um bocado de espaço para a maneira como eu vejo o beat a acontecer. Mas gravei, mandei ao Charlie e ele trabalhou maioritariamente no outro, que foi uma ideia minha e dele.

Voltas a pegar no tema “casa”, mas de uma maneira diferente daquela que fizeste em 2017. Se a primeira parece mais virada para a festa e para um lugar mais abstracto, desta vez parece existir uma visão mais concreta e mais introspectiva. Para ti são duas formas diferentes de olhar para o que representa uma casa ou a tua ideia mudou nestes três anos?

Ya, [a casa] acaba por ser um tema recorrente, mas não, acho que são só perspectivas diferentes. Este som é mais sobre o lado de recolhimento, de conforto e de quente. Também é aquela sensação de adolescente, de estares em casa e seres o que quiseres, poderes expandires-te, estares nessa protecção de não ser um adulto. E acho que foi um bocado essa a sensação que me puxou quando deixei de sair de casa e ir para o estúdio, essa sensação de estar sempre de chinelos [risos]. Levou-me um bocado atrás, e foi assim que eu comecei a fazer música. Foi um voltar atrás e olhar para o que é que é realmente essencial e o que é que não é. Muitas coisas de repente saíram da minha rotina e voltei ao essencial. E quis fazer um som mais em modo barras, que também é uma cena dessa altura.

Para alguém como tu, que fala bastante de desacelerar e até tem um disco que se rege por essa premissa, como é que olhas para toda a situação pelo qual estamos a passar? Achas que isto vai ter um impacto real na forma como vivemos e as pessoas vão ser obrigadas a desacelerar ou não estás a ver as coisas dessa maneira?

Eu não sei se o vamos fazer. Eu acho que, colectivamente, de certeza que vão existir coisas que não vão voltar ao estado anterior. Não sei se, enquanto colectivo, vamos necessariamente desacelerar, porque as coisas também têm tendência a normalizar, não é? Eu acho que no dia em que pudermos sair à rua, quando for o primeiro festival, por exemplo, vai ser uma grande sensação, não sei se um mês depois (ou um ano depois) não normalizou outra vez. Ou se vamos dar esse valor ao resto das nossas vidas, do tipo, “hei, posso estar cá fora”.

Sim, pode ter o efeito contrário: depois de estarmos “presos”, vamos querer acelerar e aproveitar tudo ao máximo. Falando do teu caso em específico, tu já andavas mais recatado e a dar menos concertos. Imagino que para a economia Slow J as actuações ao vivo não sejam tão cruciais como para grande parte dos músicos-

São menos.

Achas que estás melhor preparado do que a grande maioria dos teus colegas?

Pois, mais ou menos. Eu também não sei dizer o futuro. Neste momento não tenho grande noção se vão voltar a existir concertos daqui a seis meses ou daqui a um ano, ano e meio. Eu acho que esta situação tem um significado bué individual para cada pessoa, tendo em conta a situação em que estavas e a situação em que ficas. Eu acabo por me focar bastante nas coisas que gosto mais. Eu gosto de dar concertos, mas acho que em quantidade não é uma cena que me saiba muito bem, percebes? Tem muita repetição, muito desgaste, muita viagem.

Quando cantas, “Fiz tanta estrada que esqueci o meu caminho”, na “Teu Eternamente”, imagino que tenha a ver com isso mesmo.

Ya, também. Eu sinto-me relativamente bem preparado. A minha empresa e as pessoas com quem eu trabalho estão relativamente bem preparadas, [mas] há uma estrutura grande para lá disso. Cada vez que a gente vai para a estrada levamos 12 pessoas. São 12 pessoas que, neste momento, não têm trabalho porque são todas freelancers. Não sei, eu acho que ninguém está propriamente imune. Por mais que se calhar eu esteja melhor preparado que uma grande parte dos artistas, acho que nós estamos todos muito ligados ao mundo. Se ruir no Charlie ou se ruir… sei lá, há muitas pessoas a quem eu estou ligado e que, se ruir ali, ruirá aqui também. Para mim tem sido um momento de estar calmo em relação a esses tópicos, mas tentar estar atento e perceber onde é que possivelmente vai ser preciso ajudar.

Tive a oportunidade de te ver em acção no Super Bock em Stock e não pude deixar de reparar na nova disposição em palco. Porque é que decidiste largar o formato com três pessoas e surgir sozinho?

Para criar espaço. Eu curtia muito o formato em que eu estava. Comecei a sentir que se estava a tornar… não sei, comecei a ver esse formato a aparecer em muitas bandas, muitos grupos, muitos rappers. E senti que estava na hora de dar uma à esquerda e criar espaço.

E sentiste-te confortável nesse registo?

Foi interessante, mas a cena lixada é que se estiveres confortável a dar concertos [é porque] não estás no ponto certo [risos]. Senti que foi um desafio e adorei a sensação de não saber o que é que ia acontecer. Há cenas a melhorar, sítios por onde evoluir, mas adorei aquele conceito mais de tela em branco e do concerto estar só a viver da qualidade das canções, da escrita, das palavras e da forma como o público se relaciona com elas. Não tens mais nada onde te agarrar. Eu não danço bem [risos]. Mas foi bué fixe.

Utilizei a palavra “confortável” porque senti-te mais aconchegado quando o Nuno Cacho e o Francis Dale subiram ao palco, por exemplo. Fiquei curioso para perceber a tua percepção do que tinha sido.

Imagina: quando eu comecei a tocar com o Fred e com o Francis se calhar também estava desconfortável, mas, 45 ou 50 concertos depois, já estava confortável. É um bocado ir compreendendo onde é que tens de te desafiar para encontrar um novo caminho.

E como é que tem sido a tua rotina diária? Suponho que fosses todos os dias ao estúdio.

Ya ya.

E agora tens trabalhado todos os dias em casa ou tem sido mais descontraído?

Sim, eu acabo por ficar com menos tempo do que tinha antes: o meu filho não pode ir à creche e tenho um bocado menos de tempo útil. Mas tenho trabalhado todos os dias. E isto permite que passe mais tempo com ele.

Tem esse lado positivo.

Tinhas dias em que acordava, deixava-o na creche e depois já só o via no dia a seguir. E agora isso já não acontece, mesmo que eu passe só para lhe dar o jantar. É fixe poder passar mais tempo com ele, principalmente nesta fase.

Fora da perspectiva do criador e entrando mais pelo lado do consumidor: tens tido mais tempo para ler e para consumir mais música? Tenho a ideia que és alguém que acompanha de perto o que vai saindo no mundo da música.

Vou acompanhando algumas coisas. Estive a ouvir (e a viciar-me) há pouco tempo o Pedro Mafama. Curto bué a produção do gajo.

Mas só o conheceste agora ou já o conhecias?

Eu já o tinha ouvido. Os videoclipes do gajo são muito loucos. Gostei daquilo que o gajo está a fazer na produção. [pequena pausa] Aí, não sei se já ouviste Yussef Dayes? Tenho curtido a cena do gajo.

Interessante falares no Mafama, até porque se consegue ver, mesmo que nem sempre seja óbvio, um novo som que passa por pessoas como tu, ele ou o Dino D’Santiago, por exemplo. Não sei se é algo que reconheces e concordas.

Sim, eu sinto bué a necessidade de nós termos um estilo nosso, percebes? Acho que uma das maiores dificuldades é nós não termos um estilo nosso. Quer dizer, nós temos o fado, claro.

Mas estás a falar de algo moderno, que soe a Portugal 2020.

Ya, sinto bué que enquanto não tivermos [isso] vamos estar em desvantagem cada vez que lançarmos uma cena.

E de resto, o que é que tens ouvido da produção internacional?

Ouvi o álbum do Childish Gambino há pouco tempo, curti [mas] não voltei a ouvir. O álbum do PARTYNEXTDOOR também está louco.

Entretanto já passaram mais de seis meses desde que lançaste o You Are Forgiven. Como é que olhas para estes últimos tempos? O efeito do álbum-surpresa funcionou como tu imaginaste?

Não sei, acho que lançar álbuns para mim é meter sempre muitas expectativas no dia do lançamento [risos]. E depois tu só sentes realmente o que é o impacto de um álbum ao longo dos meses e dos anos. Mas sim, estou contente e estou com boa pica para fazer o próximo. Imagino que vá demorar, mas já tenho algumas ideias fixes. Acho que [o YAF] é um álbum muito bonito no sentido em que… olha, um dos álbuns que mais me influenciou foi o do Dave.

O PSYCHODRAMA.

Há uma cena que eu adoro no PSYCHODRAMA, que é o facto de ele não ter nenhum som em que está a tentar mandar um hit.

Bem, há o “Location”.

Exactamente. Que, por acaso, é o meu som menos preferido do Dave a rimar. O Burna [Boy] está incrível. Mas adorei a forma como o álbum consegue ser uma cápsula e contar-te uma história do início ao fim. E foi mais isso que eu tentei fazer com este. Acho que o You Are Forgiven vai viver muito dentro dele próprio.

Nunca tinha estabelecido a ligação entre os dois discos.

Tenho curiosidade ao longo do tempo de perceber que fãs é que para eles o melhor é o The Art of Slowing Down, que fãs é que para eles é este, e como é que as pessoas se ligam a isso.


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