Sevdaliza no Capitólio: sejam bem-vindos ao seu mundo por uma noite

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Inês Ventura

Não existem meias-medidas para se gostar de Sevdaliza e do seu extraordinário mundo ao qual nos deu as boas-vindas no concerto de ontem. Assim como também não existem atalhos fáceis para chegar até si, porque alguém capaz de uma entrega como a sua não merece menos da nossa parte do que uma imersão total na sua arte. Não surpreende, portanto, que ontem déssemos de caras com um público devoto e muito ansioso por ver a sua deusa pisar o palco. Um público que, mesmo não esgotando o Capitólio, soube ser arrebatado e atento nos momentos certos, muitos corações sedentos que Mr. Herbert Quain tentou sossegar o melhor que pôde, no seu discreto DJ set de aquecimento.

Bastou que se apagassem as luzes para que gritos de histerismo irrompessem pela sala e que seriam uma constante durante o resto da noite, onde se ouviram coisas como: “era isto todos os dias!”, “que rainha!”, “linda! linda!” ou a pergunta que se abateu sobre todos os presentes: “are you from this world?!”. Não deixa de ser curioso que alguém que tanto tem explorado nas suas músicas a sua condição humana, não pareça de facto mover-se no mesmo plano mundano que nós. É-nos mais fácil associar Sevdaliza a essa sábia criatura mitológica meio mulher, meio serpente, que dá título a “Shahmaran” e que, durante a actuação de ontem, deixou a bailarina que a acompanhou em diversos momentos de palco prostrada a seus pés, refém por uma gota desse conhecimento milenar. É-nos mais fácil aceitar esta sobrenaturalidade do que a pessoa que em “Human” se colocou na mira do nosso voyeurismo, reproduzindo com rigor a coreografia retirada ao seu videoclipe, que tem tanto de bizarra quanto de bela, um deleite para a visão, um corte até ao nervo da nossa compreensão.

 



Acompanhada por teclista, baterista e violoncelista, a artista arrancou o set com “Voodoov”, sem chegar a entrar no palco, onde apenas nos chegava de longe o seu canto de sereia e imagens das suas mãos entrelaçadas em cabos e dedos anónimos tatuados, em dois ecrãs instalados ao fundo do palco que funcionavam como espelhos invertidos, semelhantes à imagem da capa de Ison — essa dicotomia entre criador e criação e o elo que os une. “Libertine”, a primeira da noite para Ison, trouxe-a por fim até nós, deslizante no seu vestido transparente branco que ondulava como a espuma de um mar revolto, ao mesmo tempo serena sob uma luz irreal. Uma aparência mais limpa e crua em comparação com a garrida camuflagem de flores que nos tinha apresentado no concerto do Super Bock Super Rock, uma presença que nos pareceu também por vezes mais cerebral e controlada, como nos vários momentos em que seduziu a câmara que a seguia pelo palco. Ontem ficou aliás evidente que, no espaço de sensivelmente quatro meses desde a sua última visita por cá, Sevdaliza já se encontra num novo processo de metamorfose, visível sobretudo nas músicas novas que nos apresentou e que não sabemos ainda se serão prenúncio para o seu segundo álbum, mas que pela amostra podemos já afirmar confiantes que, se tal acontecer, será um dos nossos discos preferidos do próximo ano.

A primeira surpresa surgiu em “Kalim”, um poema feito de muitos anseios: ”I wish you had a different hand to touch me like no other can”, declamado com uma ferocidade que a meio disparou a métrica numa velocidade vertiginosa impossível de acompanhar. “Darkest Hour” foi também uma lufada fresca com a sua batida forte de pista de dança, mais uma vez numa simbiose perfeita com a bailarina que desenhou dos mais belos momentos de ontem, com a sua dança contemporânea em pontas clássicas de ballet. “Rhode” viu a sua estranheza de sons complementada por um jogo psicadélico de luzes atordoador — um verdadeiro ataque a todos os nossos sentidos. E por fim “Key”, que levou Sevdaliza novamente ao piano instalado ao canto do palco, agora vestida de um veludo vermelho voluptuoso, novamente na sua pele de mulher consciente da sua sensualidade e fim de inocência: “I can’t tell that I’m a flower/ Need to smell the air/ I wish I was innocent/ But I’ve seen it all/ Does it make me myself a woman?”.

Final mágico com “Marilyn Monroe” e ainda uma cedência a um encore com “Loves Way”. Arrepios colectivos que nos deixaram a pele em galinha e o coração a seus pés, para que pisasse a seu belo prazer se assim o desejasse, mas Sevdaliza é antes de mais amor, uma deusa muito humana, que no final voltou a distribuir demorados abraços pelas filas dianteiras, onde sentimos o respeito de um público incrédulo, algo até intimidado, que saiu do Capitólio mais uma vez irremediavelmente apaixonado.

 


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