#ReBPlaylist: Fevereiro 2020

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Afro-house, música electrónica, country, trap, drill britânico, tradicional e moderno são algumas das tags que podíamos colocar para situar as escolhas à volta da colheita do mês passado e, mesmo assim, seria normal que ficassem surpreendidos na hora de carregar no play. Ainda não estão curiosos? Vamos lá então.


[Against All Logic] “Fantasy”

A primeira música de um álbum tem muito que se lhe diga. É através da mesma que podemos saber de forma mais óbvia como é que o artista quer apresentar o o projecto ao público e é um detalhe importante planeado por todos os músicos. Em 2017-2019, o mais recente álbum de Against All Logic – nome artístico com o qual Nicolas Jaar também lança música -, “Fantasy” abre o projecto e mostra-nos que, à semelhança dos trabalhos anteriores, este álbum também nos quer pôr a dançar. Mas a abordagem que escolhe é distinta do que a precedeu. 

O aspecto que mais transparece é a destreza que Jaar tem a trabalhar a mistura do som e a torná-lo verdadeiramente seu. A música — e especialmente a música electrónica — baseia-se em padrões e é interessante ver o empenho de Jaar em apimentar as coisas para que nada soe exactamente igual ao que veio antes. Ao longo do tema e do decorrer do instrumental de enorme pujança, ouvimos arranhares simultaneamente contidos e violentos, pequenos barulhos agudos que vão e voltam, uma panóplia de pormenores cuidadosamente colocados na batida, que nos revelam um tremendo cuidado em que a música soe exactamente como Jaar a ouve na sua cabeça. Aliado a isso está um excelente uso de um sample de “Baby Boy” de Beyoncé, que se ouve de forma imprevisível e transfigurada acompanhada por uma batida de “boxe”. 

“Fantasy” é um tema que segue para a frente sem nunca olhar para trás, e é adequado que seja aquele que nos abre as portas para mais um grande lançamento de Against All Logic. Desde que começa até ao fim, não há um momento que não seja preenchido por som e por um encanto industrial e abrasivo. “I know you gon’ like it”, ouvimos Beyoncé entoar. Mas não é preciso ouvirmos a rainha para saber que estamos perante uma música nobre e imperial.

– Miguel Santos


[Studio Bros] “Sabanaxua”

Há algum tempo que a dupla de Nunex e Famifox — os Studio Bros, da Quinta do Mocho, Sacavém — não lançavam música nova, mesmo que ela já soasse através das colunas dos clubes por onde este duo tem passado, apresentando ao público as suas batidas de sonoridades africanas fundidas com música electrónica. O regresso fez-se em Fevereiro com “Sabanaxua”, faixa com uma veia quente e soalheira, com guitarras que nos remetem para geografias latinas, como se estivessem incorporadas no beat. Trata-se de uma viagem sob loops, um som progressivo sem grandes altos e baixos, sem um enorme momento de explosão, e por isso mesmo capaz de fazer ansiar (e suar) o público na pista de dança.

– Ricardo Farinha


[Sufjan Stevens, Lowell Brams] “The Runaround”

É difícil prever o que podem compor as mãos de quem já nos ofereceu um épico multicolorido sobre o Illinois, o luto num sussurro delicado em Carrie & Lowell, peças para ballet e mixtapes. Sufjan Stevens torna a sua obra coerente com a sua voz belíssima, mas nem essa é evidente em “The Runaround”, single do seu próximo álbum, Aporia, co-produzido com o seu padrasto e sócio Lowell Brams.

No tema somos embalados por diferentes sintetizadores, esvoaçando pela mistura como as motas e bicicletas do videoclipe. A matéria prima é a mesma da electrónica meditativa dos Boards of Canada ou do Brian Eno, mas o resultado não seria especial se não fossem as mãos de Sufjan Stevens.

– Gonçalo Tavares


[Jessy Lanza] “Lick In Heaven”

Um ziguezague sofrível entre o bar e a pista de dança é uma noite verosímil para o cidadão comum — e Jessy Lanza é tão terra-a-terra quanto a classe média que sorri nas projecções vídeo dos seus concertos. 

Enquanto o Lux Frágil a esperava, a canadiana serpenteava de copo em riste, talvez bebendo a coragem a gole. A hora seguinte foi um ato de malabarismo entre dois pratos. Numa mão, o corrupio celestial da sua pop alienígena (com ascendentes em Aaliyah ou DJ Rashad). Noutro, como quando a certo ponto confessava às talvez 100 pessoas na sala serem uma das suas razões para continuar a viver, um certo descontrolo aterrador.

“Lick in Heaven” é a maviosa colisão desses dois mundos. Na circularidade suspensiva da composição, esta primeira lambidela dum terceiro álbum é indelevelmente Lanza: as melhores teclas oitentistas, ajustadas à alta glicemia de Oh No que cai a mando do toque glacial de Pull My Hair Back. O resultado é funk sintético que ferve sem engrossar; um ponto de caramelo a tracejado, que as papilas gustativas saboreiam sem rasto de saliva. 

Consta que esta é a sua ode a ser tirada do sério, embora pouco se perceba no seu orelhudo chorrilho de palavras: “Once I’m spinning/ I can’t stop spinning”, o verso mais conspícuo, pode ter sido pensado para a fúria, mas veste o fulgor de diva dançante. Atenção, claro, que também se pode dançar segurando um cutelo.

– Pedro João Santos


[IHHH] “The Magical Ratio”

Comum aos lançamentos da ZABRA Records é cada novo trabalho ter uma direcção nova, sem repetir ideias já exploradas. A vontade de empurrar os artistas para novos limites, tirando-os da sua zona de conforto, está na impressão digital da editora lisboeta e o EP The Magical Ratio não é excepção.

Este projecto de Carlos Falanga, nascido em Buenos Aires e actualmente sediado em Barcelona, destoa das suas bases — a bateria jazz e a percussão de formação clássica. Estes são os seus primeiros passos com a electrónica, uma fase imperdível para qualquer músico: é na transição entre estilos ou ferramentas de trabalho que encontramos inovações e mundos novos. Arca, The Haxan Cloak ou Kai Whiston poderiam ser referências estéticas, mas, mesmo assim, parece assemelhar-se apenas a si mesmo.

A faixa que dá título ao EP é um primeiro mergulho nas novas possibilidades que IHHH tem para descobrir. Com um Octatrack, dispara samples cristalinos e sedosos com glitches ruidosos em simultâneo. Mas, num desenvolvimento que se adivinhava claro, Falanga dissolve o som — e as nossas expectativas na mesma medida — e explora paisagens sonoras e passagens (ora subtis, ora abruptas) entre as mesmas. A concentração está nas texturas e no desenvolvimento estrutural de “The Magical Ratio”, mas há lugar para um four-to-the-floor, ténue e abafado. Quando tudo parece desordenado, Carlos devolve-nos, no final, à nossa consciência.

– Vasco Completo


[Oliver Malcolm] “Switched Up”

Por mais atentos que estejamos, às vezes a poeira é tanta que demoramos mais do que o expectável a encontrar material de qualidade. “Switched Up” escapou ao radar dos 7 Dias, 7 Vídeos mas chegou a este lado bem a tempo de levar uns valentes repeats no que restou do mês de Fevereiro.

É provável que ainda não se tenham cruzado com o nome Oliver Malcolm na grande esfera digital, mas há 1001 boas razões para o colocarem entre os artistas com maior probabilidade de “rebentar” em 2020: “Switched Up” é a primeira música do jovem suíço-britânico e um daqueles curiosos e raros casos em que tudo o que nos é apresentado está limado até ao mais ínfimo detalhe. Imaculado. “Switched Up” tem como base uma curta melodia de guitarra acústica em loop, que parece ganhar vida própria por entre as oscilações que Oliver impôs ao seu próprio beat, sobre o qual ouvimos versos carregados de desgosto e revolta por alguém que devia ter prestado atenção ao seu autor na devida altura.

Agora é tarde de mais. O jovem artista apanhou a via rápida e o futuro prevê-se grande para quem se dá a conhecer ao público desta forma. Entre as referências óbvias a Stanley Kubrick e Abraham Lincoln e o talento que Oliver desfila num tema inteiramente criado por si, há toda uma “máquina escondida” que fornece as ferramentas necessárias para o colocar a brilhar bem alto. É ele o escolhido pela Interscope para suceder a Billie Eilish na lista de apostas da Darkroom, a sub-divisão da editora liderada por Dr. Dre e Jimmy Iovine que surpreendeu o mundo em 2019 com a edição de When We All Fall Asleep, Where Do We Go?.

– Gonçalo Oliveira


[RMR] “Rascal”

What a time to be alive abso-fucking-lutely! A Rolling Stone explica num detalhado artigo o que rodeia o hit viral “Rascal”, carimbado por um senhor que se identifica (“identifica”, é como quem diz…) como RMR. Confesso que até ter lido o artigo não fazia ideia de quem eram os Rascal Flatts, um grupo country de Columbus, Ohio, habituado a passear-se nos lugares cimeiros das tabelas de country, mas também na mais mainstream Billboard 200

O nível de complexas camadas que rodeia “Rascal” é estonteante: um artista mascarado, com colete à prova de bala Yves Saint Laurent e camisola camuflada Off White (preço normal para uma sweat? 600 dólares), rodeado de “amigos” igualmente mascarados (na sua maioria), vários deles em tronco nu, armados até aos dentes (que têm grills de ouro, obviamente), canta em emocional falsete sobre melancólica base de piano, adaptando dois temas country a que os Rascal Flatts deram voz para se queixar de “bitches” que lhe partem o coração e para mandar f*der os “boys in blue”, repetindo a frase “fuck 12” com a mesma entrega com que qualquer outro cantor poderia dizer algo como “amo-te para sempre”.

Depois de Lil Nas X e de “Old Time Road” é certo que o mundo não voltou a ser o mesmo. Mas RMR – que de acordo com as declarações que fez à Rolling Stone pretende manter-se anónimo e ser uma espécie de “Marshmello do hip hop” — poderá ir ainda mais longe: as armas do vídeo, que até poderiam ser adereços de plástico (embora eu pessoalmente não apostasse nisso), ancoram a estética no gueto. RMR diz que cresceu entre os bairros de Buckhead, em Atlanta, e Inglewood, em Los Angeles, locais muito distantes e distintos das planícies verdejantes por onde deambulam os cowboys que povoam o imaginário do “outlaw country”. Juntar tudo isso numa balada sentida, com armas e marcas de “haute couture” (ou “aute cuture”, como diria Rosalía…), com identidades escondidas com o típico passa-montanhas que qualquer criminoso de bom gosto usaria num assalto mais informal, enquanto se insultam as forças da autoridade, parece uma amora de escárnio mergulhada numa geleia de ironia.

Das duas uma: ou RMR acorda um dia destes no primeiro lugar do Top Americano ou em Ryker’s Island. Teria graça se se confirmasse a primeira hipótese.

– Rui Miguel Abreu


[Knucks] “Home”

Do malogrado Pop Smoke a Drake (com “War”), passando por Minguito e o seu 283 Gang, há uma série de nomes nacionais e internacionais que se debruçaram naquilo que o rejuvenescimento do drill via Inglaterra nos trouxe.

No entanto, e confiando que o melhor se encontra sempre na base, ouvir “Home”, música de Knucks, é entrar num novo mundo: os drums e os (sub-)graves que evocam o drill são adornados com a alma jazz do piano e do saxofone, criando o ambiente necessário para o nítido storytelling do MC de Londres, que conjuga rimas visuais — que nem necessitavam de videoclipe, sejamos sinceros — com uma cadência assertiva para nos contar uma história que não tem um final feliz. Entrem lá nesta casa…

– Alexandre Ribeiro

ReB Team

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