#ReBPlaylist: Agosto 2019

[FOTO] Emily Berl/Redux

Faz-se política com Fado Bicha, Telma Tvon, Pusha T e Lauryn Hill; olha-se para o infinitamente criativo jazz britânico com os Nérija; descobre-se que o hip hop pode ser o que quiser com Black Milk, BROCKHAMPTON e JPEGMAFIA; respira-se r&b nas vozes de Raphael Saadiq e SiR; viaja-se por caminhos enublados (mas esperançosos) à boleia de Shura.

Um Agosto pintado de várias cores.


[Fado Bicha com Telma Tvon] “O-SEM-PRECEDENTE”

O que é, afinal de contas, a música de intervenção? Acredito que é a música que quer transformar alguma coisa, que quer inspirar a mudança, é a música que nos questiona, que se questiona, que não teme ser incómoda, meter o dedo na ferida, mas também é a música que pode funcionar como bálsamo para ajudar a sarar. A música de intervenção é aquela que carrega palavras com real peso, palavras que fazem pensar, que nos levam a agir, a alterar rumos e ideias, palavras que são como alavancas, que ajudam a destrancar portas fechadas, palavras que gritam e exigem liberdade. Como “O sem-precedente”, hino para a campanha do LIVRE assumido pelo duo Fado Bicha juntamente com a rapper Telma Tvon e ainda com o toque de Xinobi e Teo, na produção.

Esta é uma canção que merece ser ouvida e escutada com ouvidos de generosa atenção. É um hino, como já referi, por isso ergue uma bandeira – com as cores do arco-íris, pois claro, com as cores todas da liberdade, com a cor de pele de Joacine Katar Moreira que procura um lugar na “casa grande”, como canta Lila Fadista. “Ela é filha de uma terra devastada/ de um povo negro colocado em rodapé/ Mas dessa herança ela faz força e caminhada/ É da Guiné! E finca o pé!”, diz este fado. “E nesta terra com tanta dificuldade/ De se entender para além de fórmulas de fé/ Ela não pede para falar e ainda há de/ Ficar o pé! Gritar olé”. “Serás a vanguarda na nossa casa-grande/ a transgredir a linha fixa”. São palavras fortes, que carregam desejos de um Portugal que merece ser melhor, que pode ser melhor. Que já é melhor, quanto mais não seja por ter espaço para uma canção assim, que se posiciona ela mesma na vanguarda e que quer transgredir uma linha que está fixa há demasiado tempo. E porque a luta é premente e porque as cantigas já foram e podem continuar a ser armas, e porque a voz é veemente, sobretudo se lhe juntarmos as nossas, esta é uma canção-hino que pode servir de senha para uma pequena revolução. Precisamos de um arco-íris na tal casa-grande. Precisamos de luz neste país tantas vezes obscurecido. E a música tem que fazer a sua parte. Obrigado, Fado Bicha e Telma T-Von e Xinobi e Teo. Vamos lá…

E, sim, eu já votei e vou voltar a votar LIVRE.

– Rui Miguel Abreu


[Pusha T] “Coming Home” feat. Lauryn Hill

Apesar da sua gravação datar ao longínquo ano de 2015, “Coming Home” é fresco como menta; um Pusha T, tão feroz como o vimos no seu mais recente e maravilhoso Daytona, que reflecte sobre o sistema prisional americano sob um instrumental doce que soa a um College Dropout renovado (não admira que West seja um dos seus co-produtores) e (eis a cereja no topo do bolo) uma Lauryn Hill reaparecida em toda a sua graça difícil de conter, que nos entrega um refrão daqueles aos quais apenas ela sabe dar força suprema. Como é bom voltar a casa. Só falta um novo álbum do poeta de Virginia Beach à nossa espera para ser tão perfeito como estes três minutos prometem.

– Beatriz Negreiros 


[Black Milk] “Blame”

Black Milk rema contra a corrente do digital e volta a assumir-se no papel de maestro de um conjunto de músicos — com Sasha Kashperko e RoDerrick Gaston à cabeça — no seu mais recente longa-duração.

DiVE sucede ao aclamado Fever naquela que é a segunda jogada do veterano MC e produtor de Detroit pela Mass Appeal e, apesar do recurso insistente aos instrumentos reais, mostra-nos que não deixa de acompanhar e inspirar-se nas sonoridades que compõem o actual momento da cena musical urbana.

Neste “Blame”, Black Milk pede “emprestado” o swing a Kaytranada e devolve uma suave fusão entre house ligeiro e jazz esculpido com o mesmo material de que são feitos os nossos sonhos mais melosos. Se ainda andam à caça do sunset perfeito em 2019 é porque não têm experimentado rodar DiVE durante o lusco-fusco.

– Gonçalo Oliveira 


[Nérija] “EU (Emotionally Unavailable)”

Continuam a chegar-nos motivos de sobra para acreditar que o jazz que neste momento mais interessa vem de Londres, com o septeto Nérija em destaque com alguns músicos incríveis: Nubya Garcia, já bem nossa conhecida no saxofone tenor, Cassie Kinoshi (saxofone alto), Rosie Turton (trombone), Sheila Maurice-Grey (trompete), Shirley Tetteh (guitarra), Rio Kai (baixo) e Lizy Exell (percussão). Sete (e seis são mulheres) executantes exímios nos seus instrumentos musicais que desmistificam essa ideia de que o jazz é um território por excelência masculino e que a elas não lhes falta talento ou vocação, faltam sim mais oportunidades e mais formação, problemas comuns a tantas outras áreas que só agora a história começa a rectificar. E a prova é Nérija nasceu do programa Tomorrow’s Warriors — organização inovadora de educação musical e desenvolvimento de artistas de jazz, com especial foco nas mulheres e artistas da diáspora africana. Após um primeiro EP homónimo em 2016, Agosto trouxe-nos Blume, um álbum jazz em que espreitam todas essas influências que fazem o jazz londrino vibrar numa frequência muito própria de grime, afrobeat, hip hop e rock. Quem já as viu actuar diz-nos que este seu trabalho de estúdio parece restringir um pouco aquilo que é a experiência ao vivo, onde o improviso não conhece as limitações da gravação. Para quem nunca as viu Blume deixa em aberto enormes expectativas e percorrer as suas 10 faixas, com paragem prolongada em “EU (Emotionally Unavailable)”, é exactamente o oposto do que o seu título sugere.

– Vera Brito


[Shura] “Skyline, Be Mine”

Shura corre sempre com as emoções à flor da pele. Ela apaixona-se com facilidade e atira-se de cabeça para algo que ainda possa parecer incerto. Mas não a podemos culpar, afinal todo o reportório da grande canção americana baseia-se em perceber como agir quando estamos apaixonados — e mesmo assim tal mistério ainda não foi devidamente revelado. Em 2014, o single “Touch” foi precisamente esta corrida exaurida com o coração apertado, um momento disco lo-fi que, de alguma maneira, funcionou como um contraponto ao “Dancing On My Own” feito por uma nova geração. A relação parece correr demasiado bem para alguma vez azedar, mas as lições que devemos ter em conta quando jogamos ao amor juvenil são a da efemeridade e da incerteza. Shura está hoje mais crescida, mas, por vezes, continua a recorrer aos antigos comportamentos temperamentais do primeiro álbum. “Skyline, Be Mine”, a faixa que encerra o novo disco da cantora, floresce em ritmos digitais e agarra-se a uma linha de pensamento mais lógica e cautelosa. No entanto, tal como acontece na segunda metade da música, há uma mistura de emoções, ansiedades e incertezas que se misturam em loops neo-psicadélicos e electrónicos. Por um lado, mostra-nos que toda esta efemeridade é bonita, que o amor é incandescente e que não devemos conter o que sentimos. Por outro lado, conta-nos o lado obscuro adjacente a esta narrativa. Shura é de extremos, é de “sims” e de “nãos”, é de mandar a primeira mensagem e de beijar no primeiro encontro. Talvez devêssemos aprender algo com ela.

– Miguel Alexandre


[Raphael Saadiq] “So Ready”

O último single do veterano Raphael Saadiq é uma traição: literalmente, porque testemunha a espiral de mentiras em que o narrador enleia uma companheira — e ele mesmo. A confissão triste chega-nos envolta em fumaça e espelhos: os golpes assertivos de baixo e a percussão deslizante edificam um funk soluçante e prático. Tanto nos desviam da mensagem que o atestado da personagem a ter partido um coração, em virtude deste esquema de vício e perda de controlo, chega a ser passível de cantarolar: “And then I broke your heart, my best friend”… …e, ouvindo Jimmy Lee na diagonal, não atentando as letras e antes de chegar aos últimos (e mais obscuros) momentos, é difícil demover alguém de tomar o seu groove e com ele fugir. É uma felicidade saber que, no seu regresso, Raphael Saadiq mantém-se o virtuoso do r&b quente e lânguido que tem sido desde que integrou os Tony! Toni! Toné! e por cujas mãos passaram talentos inúmeros da cena — de D’Angelo a Whitney Houston, de Mary J. Blige às TLC. Melhor ainda vê-lo arremessar-se a novas zonas sónicas, mais sombrias, em que os elementos clássicos do r&b brotam espontaneamente, sem que sejam a meta. Quando pararem de dançar, oiçam a história: é um dos relatos mais honestos dos efeitos fatais da heroína, observados por Saadiq no seu irmão mais velho, que dá o nome a este excepcional disco. Ou não parem de dançar. Como o mestre que é, Saadiq permite ambas as coisas, ao mesmo tempo.

– Pedro João Santos 


[JPEGMAFIA] “Jesus Forgive Me, I Am A Thot”

“Calma, calma, a decepção está para breve”. Foi assim que JPEGMAFIA introduziu o seu novo single nas redes sociais, tema que antecipa o próximo projecto do rapper e produtor norte-americano, All My Heroes Are Cornballs. Para quem tem acompanhado a promoção deste novo álbum do artista de hip hop experimental, isto não é uma surpresa: a estratégia implementada reside na premissa de que o projecto vai simplesmente desapontar tudo e todos, e com isso em mente mais vale assumir o pior desde o início. Mas mesmo antes de estar cá fora o longa-duração, Peggy já sacou da sua Kimber favorita e deu um tiro no pé: “Jesus Forgive Me, I Am A Thot” é uma decepção maravilhosa e um desapontamento reconfortante para aqueles que já assumiam o “melhor”.

O tema é, na sua maioria, um dos mais relaxados na discografia de JPEGMAFIA, a lembrar as (raras) partes mais calmas do seu explosivo álbum Veteran. É reminiscente de faixas como “DD Form 214” ou da progressão melódica de “Panic Emoji”, uma sonoridade mais doce e convidativa. O rapper mistura de maneira singular r&b alado de produção e estética caseira com uma abrasão calculada, espoletada em momentos-chave. Começa de maneira assoberbada com um nevoeiro cacofónico de vozes, gritos, e a já clássica tag “roubada” a um lutador de wrestling. Mas esta caótica tela sonora dá lugar a acordes brilhantes que ressoam pela faixa toda, e uma percussão com espaço para respirar, em que se distinguem os pratos a estalar e um bombo anódino. Enquanto o rapper cospe barras com intensidade e vigor, ouvimos vozes a ecoar de forma apaixonada numa câmara de eco lo-fi, contrastando drasticamente a violência das palavras de Peggy ao longo da música (“Pray when you shoot, it’s a homicide”). É como comer algodão doce enrolado à volta de um taco com arame farpado, e as dores sentem-se verdadeiramente nas partes berrantes que concluem ambas as estrofes.

Mas essa doçura despe-se completamente da sua atitude bélica no hook surrealista, que recorre a um uso criativo de auto-tune e é expressado por uma melodia que certamente não passará despercebida aos mais orelhudos. É um refrão que choca com os versos confrontadores, as rezas conturbadas e o braggadocio que são cuspidos nas outras partes da música. Este momento mais tradicional e açucarado parece ser algo antitético tendo em conta a experimentação sónica e ecléctica que JPEGMAFIA demonstra. Mas no seio do seu conturbado output está uma vontade de chegar ao maior número possível de pessoas sem nunca se comprometer. Nesse sentido, “Jesus Forgive Me, I Am A Thot” é das músicas mais acessíveis que Peggy mostrou na sua carreira e um passo em frente no seu objectivo. É, sem dúvida, um caso em que podemos fazer uso da máxima parental que todos conhecemos: eu não estou zangado, estou só desapontado.

– Miguel Santos 


[BROCKHAMPTON] “SUGAR”

Num universo alternativo, “SUGAR”, a segunda faixa do novo disco dos BROCKHAMPTON, estaria no topo da Hot 100 da Billboard. O refrão absolutamente piegas (no bom sentido) de Ryan Beatty é a cola que une os versos de Dom McLennon, Matt Champion e Kevin Abstract, sem esquecer a contribuição igualmente lamechas (mais uma vez, no bom sentido…) de bearface e a guitarra no instrumental de Jabari Manwa e Romil Hemnani a remeter-nos para Justin Timberlake da era-Justified. Há aqui açúcar que chegue para 100 milhões de corações partidos.

– Alexandre Ribeiro 


[SiR] “Hair Down” feat. Kendrick Lamar

“Hair Down” riscou duas necessidades que tínhamos pendentes relacionadas com a Top Dawg Entertainment: por um lado, a primeira faixa de SiR com Kendrick Lamar; por outro, o anúncio do regresso do cantor aos discos. Chasing Summer saiu na semana passada e vem no seguimento de November, lançado no ano anterior pelo mesmo selo.

Num disco que se encontra incessantemente à procura do Verão, “Hair Down” apresenta-se como a faixa de ambiente narcótico do disco, sendo também um dos momentos mais introspectivos do mesmo. O normal flex e o romance típico da sua música são colocados de lado, voltando-se para a motivação e as inseguranças que teve no período de tour com Kendrick, ScHoolboy Q e Jay Rock, todos parceiros de editora. Enquanto o single que anuncia o álbum demonstra SiR como o cantor r&b/ trapsoul da TDE, o resto de Chasing Summer coloca-o a ombrear com músicos como Daniel Caesar ou até Choker.

E numa guitarra relativamente monocórdica — não literalmente — sobre uma batida também regular, na qual se destaca o bombo punchy muito presente e ainda um walking sub-bass. O refrão orelhudo quase sussurrado é já marca de água do cantor de Inglewood, como eterno romântico que é, e Kendrick acompanha-o nesse registo aquando da sua entrada. Ao regressar o beat, o rapper solta-se num registo que em nada se distancia daquele que conhecemos de DAMN. (o que talvez nos diga que ainda não chegou à fórmula inovadora do próximo registo e esteja ainda a explorar as possibilidades de rappar neste estilo).

– Vasco Completo

ReB Team

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