Raquel Martins regressou ao ponto de partida, a cidade do Porto, para apresentar o seu novo álbum no pequeno auditório do Teatro Municipal do Porto. Sem cadeiras vazias e com um ambiente familiar, entre amigos na plateia, tocou sete temas do novo disco e revisitou outros três anteriores em cinquenta minutos de plena afirmação artística. No palco, uma mesa posta ao centro, com uma toalha pintada de azulejos azuis e duas cadeiras. Um baixo e um saxofone tenor. A bateria atrás. Sobre a mesa um livro, um candeeiro aceso e um setup de electrónica com cabos vermelhos e brancos. Estava feito o convite para a sua intimidade – para o momento inicial, no quarto, onde produziu o álbum.
O concerto começou com um problema técnico: o retorno não estava a chegar aos in-ears de Mark Cake. Esse momento serviu sobretudo para mostrar que Raquel está em palco como em casa – natural e confiante, com uma experiência que vai muito além da aparente timidez e dos seus “Fragile Eyes”. Após o impasse, ouviu-se o primeiro tema do disco, “CALMA!”, despido de alguns dos sons arbitrários da cidade presentes na gravação. Mais cru e centrado na intenção original, expôs a beleza da sua voz vulnerável, de timbre múltiplo e autêntico. O segundo momento parecia indicar que assistiríamos ao alinhamento do disco, mas não foi assim. Depois de “CHOOSE YOUR PLAYA”, seguiu-se “IF I GAVE U MY DREAM”. Tomás Prada, entre a percussão acústica e electrónica, fazia da bateria também um instrumento melódico pela forma como abordava os pratos.
Em “Mountains” de 2023, o saxofone tenor de Mark Cake dialogou com as melodias vocais e os acordes da guitarra de Raquel. Levaram-nos até às Minas Gerais – particulares e imaginárias – do Clube da Esquina. Essa sonoridade mineira evidenciou-se também em “LITTLE BOY” e “NINGUÉM”. Raquel foi mostrando felicidade e sorrisos por entre a timidez e a gratidão. Na guitarra construía harmonias heterogéneas e livres que se ligavam de forma orgânica com a sua voz. Ora sentada, ora em pé, tocava guitarra e usava os pedais para controlar o som em tempo real. Por vezes, deixava a guitarra e usava a caixa de efeitos na mesa para criar atmosferas envolventes e finais ruidosos. Enquanto cantava, ouvíamos outras vozes suas atrás, como sinal de uma hiperactividade cerebral e criativa. Falou da centelha que a conduziu à criação de alguns temas como “WASHING MACHINE” — numa interpretação especial que conquistou atenção e gargalhadas entre o público.
Há que dizer que o som da sala não fazia justiça à qualidade da música e ao talento dos intérpretes. A bateria pareceu sempre demasiado alta e, algumas vezes, embaciou o brilho da voz e da guitarra. O retorno acabou por nunca chegar aos ouvidos de Mark Cake – aspectos negativos, ainda assim, sem grande significado na actuação do trio. Talvez porque o Porto é hoje uma cidade amorfa à superfície, conquistada pelo plástico e as luzes néon. Uma cidade onde as grandes praças e avenidas estão reservadas à contrafação e ao turismo bacoco. Tomar um café pode ser um desafio quando exigimos um daqueles lugares em que, nem há pouco tempo, se sentia o pulso da cidade. Tudo é postiço, colado à pressa nas fachadas com as montras pintadas de fresco. Réplicas de um museu que sobrevive de artistas mortos. Para vermos os vivos, ou algum do sangue que ainda corre nas veias e artérias deste corpo, é preciso descermos a uma cave, encontrarmos uma pequena sala refundida ou um auditório secundário numa viela.
“NINGUÉM” e “Fragile Eyes” foram talvez os temas mais marcantes do espetáculo, com Cake no baixo e o espaço aberto para a guitarra e a voz respirarem melhor. Sentimos a demanda existencial, a solidão e as dúvidas. A porta aberta à falha e à imperfeição permitia a chegada ao novo. No final, o público aplaudiu longamente e ficou sentado à espera de um encore que não aconteceu.
Raquel Martins é um talento que merece atenção e uma sala melhor. A sua música funciona como uma King’s Cross Station íntima: um lugar de chegadas e partidas dentro de um quarto. Um ponto de interseção onde quase tudo se cruza e acontece. Um caos que a própria organiza numa identidade livre e singular.
Este concerto confirmou isso: mais do que prometer, Raquel Martins já começou a cumprir e a abrir um caminho que dificilmente será confundido com o de qualquer outro nome português da sua geração.