No passado dia 21 de abril celebraram-se 10 anos desde a morte de Prince, um dos nomes mais influentes da história da indústria musical.
Para falar de tudo o que “His Royal Badness” representou e continua a representar seria necessário escrever uma verdadeira epopeia. Durante os seus 45 anos de carreira, muitos tentaram arranjar maneira de descrevê-lo, mas a verdade é que Prince era apenas Prince e tentar explicá-lo é uma tarefa inglória e francamente inútil. Mas uma coisa que podemos (e devemos) falar é do seu tremendo legado, que continua a inspirar imensos artistas nos dias de hoje.
Nascido no Minneapolis, Prince esteve desde sempre ligado à música e foi batizado com o nome artístico do seu pai, que pertenceu a um grupo de jazz. Já contratualmente ligado à Warner Bros, Prince lançou o seu primeiro de muitos álbuns oficiais, For You, em 1978. Mas como já se pode adivinhar, esta não foi uma estreia banal. Com apenas 19 anos e com um contrato recém-assinado, o multi-instrumentalista exigiu ao presidente da editora que tinha de ser ele a produzir o seu próprio álbum de estreia ou então sairia da editora.
É seguro dizer que o risco mais do que compensou. Mas este viria a ser apenas uma das inúmeras confusões entre Prince e selos discográficos. No ano seguinte, conseguiu o seu primeiro sucesso comercial com o autointitulado Prince, um álbum mais acessível e radio-friendly, antes de virar completamente o jogo no início dos anos 80 e afirmar-se como uma das figuras mais irreverentes da indústria musical. Com Dirty Mind e Controversy, Prince não teve medo de explorar a fundo estas duas temáticas, com letras e performances altamente sexuais e provocadoras, misturadas com um som único e revolucionário que juntava funk, R&B, pop e muito Prince.
Durante as atuações ao vivo nos anos 80, o vencedor de sete Grammys desafiou todas as normas e rótulos que lhe tentavam colocar e apresentou-se como muito mais do que uma referência a nível musical. Com nomes como Madonna, Elton John e Michael Jackson, os anos 80 foram uma época primordial para a desconstrução de normas sociais e Prince esteve bem presente no centro da questão.
Um pouco à semelhança de David Bowie, a sua androginia chocante para a altura mostrou que a indumentária também é uma maneira de liberdade de expressão e que um simples guarda roupa pode transmitir mais do que mil palavras ou rótulos, sendo até hoje considerado como um ícone do mundo da moda. Seja com o lendário fato roxo que se tornou imagem de marca, as blusas de renda que revelavam grande parte do corpo ou o sobretudo com apenas umas cuecas por baixo, o chocante seria encontrar uma performance do artista com uma t-shirt branca e umas calças de ganga.
Voltando à música, e saltando para 1984, é impossível falar do “Purple One” sem falar do álbum que deu origem à alcunha. Purple Rain é considerado por muitos como a magnum opus, do artista e foi o projeto que o consolidou não só como um excelente artista da sua geração, mas como uma referência mundial. O trabalho serviu como soundtrack do filme com o mesmo nome e valeu-lhe um Óscar de Melhor Banda Sonora, bem como uma nomeação a Álbum do Ano nos Grammys de 1985.
É um equilíbrio perfeito entre rock, pop e soul, sempre com a controvérsia característica do cantor. Aliás, este projeto é um dos principais responsáveis pela existência dos autocolantes de controlo parental que vemos em tantos álbuns hoje em dia, depois de Tipper Gore, co-fundadora da Parents Music Resource Center, apanhar a sua filha de 11 anos a ouvir “Darling Nikki”, uma música onde Prince descreve uma “sex fiend” dedicada a seduzir o cantor.
Com um artista tão dedicado à música e com projetos com tanta curadoria é fácil assumir que Prince era um perfecionista. Porém, como Susan Rogers, engenheira de som do cantor durante cinco anos, já referiu em várias ocasiões, “não havia nada perfeito” sobre a produção do artista. Apesar de querer manter sempre um grande controlo sobre a sua música, Prince valorizava a autenticidade e era um “génio com melodias, ritmos e a escrever músicas”, sendo capaz de produzir três álbuns ao mesmo tempo de uma forma incrivelmente rápida.
Foi assim que escreveu “Sign “O” The Times”, um duplo álbum genial, lançado em 1987, onde “His Royal Badness” se apresenta no expoente máximo, demonstrando a sua criatividade em força total. Ao contrário de Purple Rain, que foi um LP muito mais coeso e comercial, em Sign “O” The Times, o artista mostra que não tem qualquer limite, combinando um fortíssimo comentário social, com erotismo e espiritualidade.
Nos anos 90, também se tornou um marco numa questão muito discutida nos dias de hoje, ligada ao seu contrato com a Warner Bros. O cantor queria lançar música com muito mais regularidade do que a editora pretendia e desejava ter controlo dos seus masters, tema que voltou a ser muito debatido com o lançamento das Taylor’s Versions, de Taylor Swift, nos últimos anos. Em 1993, Prince apresentou-se em público com a palavra “SLAVE” escrita na testa como forma de protesto, antes de mudar legalmente o seu nome para o símbolo impronunciável , por sentir que o seu nome pertencia à empresa. A imprensa começou a chamá-lo de “The Artist Formerly Known as Prince”, enquanto o artista começava a lançar a sua música fora dos meios tradicionais da altura.
E entre os anos 90 e a sua morte, existem ainda várias controvérsias — como a sua luta contra a Internet e as plataformas digitais de distribuição musical ou a sua fase enquanto Testemunha de Jeová — e, acima de tudo, imensa música, que se torna fisicamente impossível falar de tudo em apenas um texto.
Para além de ter gravado 39 álbuns sob o seu nome, Prince ainda fez parte de duas bandas e escreveu diversas canções para outros artistas, como “Manic Monday” para The Bangles, “I Feel For You” para Chaka Khan, ou “With This Tear” para Celine Dion (a versão cantada pelo próprio Prince foi recentemente revelada para assinalar os 10 anos da sua morte), para nem falar das centenas de horas de música nunca lançada existentes na cave de Paisley Park, antiga residência do artista.
Muitos tentaram, mas nunca ninguém conseguiu verdadeiramente domar Prince. E ainda bem. Sem a sua irreverência e desejo de chatear tudo e todos, com certeza não teríamos nem metade das obras-primas que temos. A fórmula perfeita para criar arte foi explicada no filme de 2000 High Fidelity, com uma simples frase: “What would Prince do? Have fun with it. Get weird with it”.
Podemos discutir durante horas o género em que um projeto se encaixa, se o artista cantou uma oitava abaixo do que devia, se tocou uma nota fora da escala. Nada disso interessa verdadeiramente se o projeto for feito com alma. A melhor música é aquela onde conseguimos sentir a personalidade do seu criador quando a ouvimos. A arte será sempre subjetiva (felizmente), mas nunca ninguém criou algo revolucionário a seguir as normas.
“I’m not a woman
I’m not a man
I am something
That you’ll never understand”
“I Would Die 4 U” (1984)