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Paulo da Fonseca

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You follow each other.

Para Chantal Passamonte (1970-2022)

Não foi por convite de One On One que cheguei até ao universo da Mira Calix (Chantal Francesca Passamonte); cheguei lá um pouco depois, ligeiramente atrasado. O tempo era a chegada dos 2000; o lugar — na então pequenina Internet — um site chamado The Milk Factory, onde se rasgavam novíssimas avenidas para gramáticas musicais estranhas aos ouvidos de um – então – baixista eminentemente rockeiro. De forma apressada, o levantamento cartográfico desta minha incursão solitária começava a definir um itinerário: Rune Grammofon, Smalltown Supersound, Hapna, Warp.

Algures na rechã desta cordilheira, Skimskitta (2003) entregava a música de Chantal em camadas orgânicas de cordas arqueadas, sintetizadores granulares, loops, samples, percussões sincopadas, e os vestígios espectrais de uma voz humana a jogar às escondidas. Uma electrónica frágil, elegante, desafiante, idiossincrática, sem pretensões, complexa sem ser inacessível, dir- se-ia mesmo de expressão popular: “Art isn’t just for arseholes. People can handle it”. A linguagem sonora que acabaria por vincar – ao lado de ilustríssimos pares – o traço identitário que reconhecemos ao selo Warp Records.



De lá para cá, Chantal consolidou-se como uma das mais relevantes compositoras/artistas sonoras da sua/minha geração, com um corpo de trabalho cada vez menos focado na fonografia tradicional e cada vez mais dedicado aos territórios da instalação/escultura sonora, da música para cinema, vídeo, dança contemporânea, e da experimentação com o legado de vultos como Mary Borden, Shakespeare ou John Cage. “There is movement in everything, even in those things that appear to be still.”

Tive privilégio de acompanhar este trajecto de perto, e talvez com a mesma curiosidade com que a Chantal assistia às minhas tentativas – e às de tantos outros anónimos como eu – de criar música. A Chantal era generosa, profundamente comprometida com o seu trabalho e sempre atenta às possíveis intersecções e contágios com o trabalho dos outros. Fomos, ao longo destes últimos 10 anos, e aos repelões, trocando curtas impressões sobre música através do Twitter. A mesma rede social que vai continuar a lembrar-me: “you follow each other”. E assim que ultrapassarmos o sobressalto da impermanência, poderemos sempre converter esta prosaica tecnicalidade num bom conselho, num lembrete.

– Paulo da Fonseca ()


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