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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 22/06/2026
Tags: Pakie

Uma supernova no hip hop da Linha de Cascais.

Pakie: “O rap não ‘tá perdido, tu é que te perdeste a procurá-lo”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 22/06/2026
Tags: Pakie

Para aqueles que chamam à Linha de Cascais casa, o local onde a fotografia que dá capa a P de Pakie foi tirada é certamente reconhecível. Além disso, carrega imediatamente significado para os cresceram nesta área geográfica. Por outro lado, quem já conhece o jovem rapper da Parede, que desde o início deste ano tem vindo a atuar em palcos com algum peso para os que seguem o rap emergente na Grande Lisboa, sabe que esta imagem não é apenas uma boa introdução para o que vamos ouvir, mas para a pessoa que o faz.



Se nos é dito que o “P” deste EP é “de Pakie”, podia igualmente ser “de Parede”. O storytelling observacional do projeto é produto da vivência deste artista na vila onde cresceu e onde continua a passar o seu tempo. E é mesmo por isso que o Rimas e Batidas não podia deixar de o entrevistar “em casa”, mais precisamente na SMUP, associação cultural que acolheu o festival Nova Geração no passado mês de abril, no qual partilhou palco com Xeg e outros nomes do underground da Linha C. E não podíamos ter escolhido melhor local, porque quando lhe perguntam aonde é que o seu caminho se cruzou com o rap, a resposta de Pakie é simples:

“Foi mesmo ali”, o rapper revela, apontando para a rua, adjacente à estação de comboios da Parede. “Eu vivo a 5 minutos daqui, e a malta sempre combinou aqui as cenas à noite. Eu ando sempre com uma coluna, aqueles quadradinhos da JBL, vínhamos para aqui, e ficávamos a noite inteira.” A sua história é semelhante a muitas outras, começando com improviso entre amigos, muito antes de sequer pensar escrever canções. No entanto, Pakie tem ainda desde cedo uma outra ligação à cultura hip hop, através do seu interesse pelo graffiti, embora pelas suas palavras, só depois percebeu “que aquilo estava tudo ligado.” A partir daí, a capa de P de Pakie é aritmética simples: Linha de Cascais mais a arte do graffiti dá… um comboio.

“O comboio é um elemento que representa bué a nossa zona. Quem é daqui não diz só que é da Parede ou de Carcavelos, diz que é da linha. O comboio não pára só aqui, e é uma cena que nos conecta a todos, por isso é que para mim é bué especial. Eu gosto de dizer que sou da linha, com todo o orgulho, sou mesmo da C Line, porque eu vagueio em todos os sítios.” Além de o representar, dá-nos uma boa pista para o que vamos ouvir antes de sequer premir play: boom bap cru, à moda nova-iorquina, e no nosso universo do rap nacional a fazer lembrar Silab e Jay Fella ou, como não podia deixar de ser, o trabalho de início de carreira do Dillaz, figura maior do rap na linha de Cascais. São influências que não esconde na nossa conversa, e que estão igualmente bem visíveis nas suas faixas.



Seja através de um storytelling mais direto, com descrições ricas e um forte sentido imagético no seu rap, como ouvimos em “Puto Nando”, ou de um modo mais próximo da introspeção, mas sempre com o objetivo de relatar de forma bastante viva aquilo que presencia no seu dia-a-dia, Pakie demonstra já alta maturidade lírica para quem conta com um reportório tão curto como o dele, mesmo que conste muitas vezes numa colagem das suas várias influências. Simplicidade e assertividade, parafraseando-o, são os dois pilares da sua escrita, investindo grande parte das vezes na riqueza das suas histórias, além da sua naturalidade no microfone, aventurando-se em dose bem equilibrada por caminhos mais melódicos.

O que capta o ouvinte no rap de Pakie não é, no entanto, necessariamente a originalidade dos temas, mas a forma como o rapper os explora. Em “Puto Nando”, por exemplo, temos uma história como muitas outras no rap, tanto lá fora como cá dentro, sobre um jovem (o “puto Nando”) levado por maus caminhos por culpa de más influências, mas a estrutura dos versos é extremamente interessante. Esta é quase literária, com uma introdução, desenvolvimento e conclusão muito bem definidas, rematada pelo refrão com uma “moral”, tornando a canção numa pseudo-fábula (“Toma cuidado, G, com quem andas”). No primeiro verso, o rapper sumariza o contexto necessário para as 3 “personagens principais” da faixa (Nando, Rafa, e a mãe de Nando), a forma como se relacionam, e revela o principal conflito, para deixar o segundo para se debruçar apenas na ação que leva ao climax da história. Este contraste na forma como o tempo passa dentro da faixa é crucial para que o seu último momento tenha o peso que é devido, e para que o ouvinte fique agarrado à história. Não é uma lógica revolucionária, como é evidente, mas a leveza com que Pakie o faz, tão cedo no seu percurso, é sem dúvida notória.

Esta sua capacidade foi rapidamente reconhecida no meio underground do hip hop em Lisboa, dando-lhe a oportunidade de mostrar o seu trabalho no evento Ponto de Situação da Hip Hop Sou Eu, além de no festival Nova Geração, no início deste ano. “É um privilégio máximo escolherem-me para esses eventos, momentos como fazer a minha perfomance na Hip Hop Sou Eu e passar o microfone, o testemunho, ao Sam, isso foi uma grande concretização. Só ‘tar no mesmo espaço, dar e receber o props… é bué gratificante. E o que eu tiro disto é, ao ver a maneira como eles (Xeg e Sam the Kid) levam isto, e o profissionalismo que eles têm, tentar captá-lo para ser igual.” De forma mais concreta, o rapper revela-nos que estas foram experiências que o ensinaram especialmente por “desmistificar o método”, mostrar que a preparação pré-concerto não é rocket science, mas que advém da naturalidade que surge de anos de experiência. No entanto, também a esse nível Pakie mostra desde já bastante conforto em cima do palco, dizendo-nos igualmente que é algo que lhe dá muita gratificação: “As pessoas até podem não me conhecer, mas eu gosto do mostrar. Se gostarem, fico contente, porque um gajo está ali a trabalhar e depois gosta de receber elogios. Mas gosto do mostrar. Gosto de sentir a curiosidade do público e poder surpreender. O objetivo é tentar sempre surpreender, porque se não isto chega a uma altura e é sempre o mesmo. Cada vez que dou um concerto tento trazer alguma ideia nova.”

Se em concerto, para o rapper, é sobre “desmistificar o método”, o seu processo criativo é consideravelmente mais estruturado, como Pakie exemplifica: “Eu tenho um dicionário no telemóvel. Quando estou a ler, qualquer palavra que não conheça anoto logo. E quando vou escrever, vou lá ao dicionário, e vou metendo a cores o que já usei.” O jovem paredense aposta na sua capacidade autodidata e de captar o que vê e vive, “roubando” tanto às suas maiores referências como a outros lugares menos óbvios, como um “anúncio com ganda slogan”, citando-o. É também aqui onde se manifesta a sua dimensão multidisciplinar e valorização pessoal das quatro vertentes da cultura hip hop, tendo já demonstrado os seus dotes para a produção na sua beat tape DETALHE, lançada no mês passado, e revelando-nos que tem a vontade de dominar “vídeo, gravação e beats” além da escrita e do MCing.

Nos tempos que correm, a procura de boom bap emergente em Portugal é cada vez mais árdua, não por falta de quem o faça, mas por falta de visibilidade num ecossistema que cada vez mais o menospreza. Como Pakie bem o sumariza em “Planos Pacíficos”, o seu primeiro single: “O rap não ‘tá perdido, tu é que te perdeste a procurá-lo”. O rapper paredense é mais um nome numa realidade lisboeta e portuguesa que contém muito talento fora dos grandes palcos, e muitas vezes dos palcos no geral. Basta olhar para os cartazes dos eventos em que Pakie marcou presença ao longo deste ano, onde não faltam projetos interessantes que merecem encontrar o seu público. Desde o rap heterodoxo de Petr Gdsoon e o seu projeto Rap Lixo, lançado este ano, PróprioSantos e rimasprimavera, também deste ano, entregando-nos rap com forte liricismo, até a nomes com percursos mais extensos, como Goose08: o boom bap está mais do que vivo nos tempos que correm, embora não chegue a tantos ouvidos como já chegou no passado.

Ao mesmo tempo, são exemplos como estes que demonstram que há uma nova vaga de artistas a manter o rap underground português interessante no presente, e que continuarão a fazê-lo no futuro: “Se começar a haver esta cena a alimentar… eu tenho tido bué amigos meus que me dizem, ‘eu não gosto de rap, nunca ouvi, mas por tu cantares, também é especial porque és amigo, mas fazes-me gostar deste tipo de música’”, Pakie reflete. Além de amigos e conhecidos, Pakie, como outros rappers que têm vindo à tona nos últimos tempos, já captou o ouvido dos fãs mais atentos. O seu futuro aparenta ser risonho, e P de Pakie deixa curiosidade sobre o próximo passo no caminho deste artista. Não deixa de ser um primeiro projeto, e de conter os senãos típicos das primeiras experiências, nomeadamente, por vezes, uma falta de voz pessoal e de diferenciação. No entanto, Pakie demonstra já ter todas as condições para lançar algo verdadeiramente especial no futuro, e assim que descobrir exatamente aquilo que o torna ele próprio, e o conseguir traduzir nas suas canções, não haverá quem o pare.


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