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Fotografia: Ovar/Cultura
Publicado a: 15/04/2026

Três investidas em palco para acabar em beleza.

Ovar em Jazz’26 — dia 4: como dizer “até para o ano” da melhor forma

Fotografia: Ovar/Cultura
Publicado a: 15/04/2026

Em terras vareiras e de Carnaval, voltamos a referir que muito mais há para viver e celebrar em Ovar na música. Em Julho (dias 10 e 11) virá o Festa, mas até lá, já a 26 de Abril, a Escola de Artes e Ofícios recebe uma das etapas do Festival Termómetro; depois o Tan Tan Tan – Festival de Artes Performativas fará 10 anos e trará muita música entre 12 e 13 de Junho. E é com a cabeça meia na ideia de voltar que melhor se aceita que tudo o que é bom acaba depressa. O último dia do Ovar em Jazz passou pelos espaços do acolhedor e vibrante Centro de Artes de Ovar. 

Na tarde que fez do foyer do CAO uma montra e loja pop-up (em gíria moderna) de discos de jazz e não só. Muito e bom destaque para o jazz mas também para além disso, onde pelas bancas foi possível encontrar aquele disco que faltava ou receber a proposta de um outro desconhecido, como sugestão entre dois dedos de boa conversa com os editores e “discómanos” presentes. A propósito, mais uma bela iniciativa a colmatar o vazio que tantas e tantas cidades hoje enfrentam, pela falta do comércio dedicado à venda de discos. E é sempre tão gratificante terminar um concerto de que se gosta e levar connosco o registo físico que faz com que possamos ali voltar perto, sempre que a vontade o peça. Foi o caso com a actuação de Fourward às 17h no bar do CAO. Freedom é o álbum lançado pelos próprios em formato compacto (CD), estando na calha a sua re-edição em vinil pelo selo Now Jazz Agora e que também constava na mostra da tarde em test-pressing.

Fourward são uma fresca (pela música e idade do grupo) conjuração de novo jazz vindo da vetusta cidade bracarense. A passagem no ano transacto pelo festival de jazz da sua cidade causou(-nos) a melhor impressão, e da banda de Tomás Alvarenga na bateria e sintetizador, Gonçalo Cravinho Lopes no contrabaixo, José João Viana na guitarra eléctrica e Simão Duque no fliscorne se fez uma espera até este outro palco. O nome por que se dão a conhecer é designativo por si só, da música que o palco revela — um quarteto à frente a puxar para diante de si mesmo, no momento e no tempo da música. Parte deles que já haviam conjurado uma outra grande cena no novo jazz dentro de portas, e que dá pelo nome de OCENPSIEA (acrónimo de: Ó Chefe Eu Não Pedi Sumol Isto É Água). Mas sem mais despistes nominativos abarquemos a música destes quatro aqui e agora. Retivemos temas como “Colmeia”, onde discorreram sobre uma onda tão boa (uma coolness) que a tarde haveria de ficar assim irremediavelmente contaminada. De “Assobio” veio essa enchente emanada do fliscorne de Duque, e que momento de enorme felicidade sonora. E a “Gruta”, idealizada por Viana e que trouxe brilhantismo ao contrabaixo de Cravinho Lopes. Um quarteto para acompanhar no fulgurante acto de liberdade que o novo jazz transporta. Razão de sobra para o seu registo de estreia se chamar justamente Freedom. Liberdade vinda dos vozeares fliscornistas como que a olhar uma miragem — feita plano de fundo e fuga. Ainda que alguma distonia nas passagem de “Freedom” pela guitarra surgisse, nada que causasse temor na liberdade. Fecharam como em disco, nesse registo em que na vez da bateria há um sintetizador, antes do retomar, e entre quejandos, uma manipulação primorosa da MPC, sem nunca perder de vista o alcance da batida. Vinda longa a Fourward!



No Auditório do CAO outros (muitos), na noite, fazem de alguma da música de outrora a de hoje. Em função está um palco repleto de músicos, numa das boas formações bem alargadas de jazz — a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal (OJHCP). Convidando o solista (extra ao seus próprios) em saxofone alto John O’Gallagher. De amplitude tímbricas notáveis, as formações alargadas são como o esplendor do jazz — todo o cromatismo se torna viável. Portugal tem aos dias de hoje notáveis exemplos disso em diversas cidades. Esta, vinda de Lisboa, tem na direcção e condução o maestro Pedro Moreira, um dos nomes que se confunde com o do próprio jazz entre portas. É da sua autoria “Melusine”, a primeira das muitas peças alinhadas. Música que nos “fala” do mito da sereia, uma estória entre o Norte do país e a Galiza. Depois um dos músicos da orquestra, o trompetista Luís Cunha (do Lisbon Undergound Music Ensemble – LUME, entre outros colectivos), revela o seu eu autoral em “What Goes Around Comes Around”. Serviram “Blue Yonder”, de Christine Jensen, composição notável desta autora do Quebec, a fazer lembrar a veia de Maria Schneider e onde o quarteto do tempo e ritmo foi sublime dentro da orquestração.

Foi Thelonious Monk que uma vez disse, “You’ve got to dig it to dig it, you dig?” Terá sido esse o mote para Frank Calber ter composto “You Dig!” como peça que lhe rende homenagem. E a OJHCP faz-lhe dupla vénia ao tocar primorosamente esse tema, cheio de dissonâncias e discrepâncias entre as vozes chegadas à frente, com O’Gallagher num momento magnífico entre o seu alto e o soprano às mãos de Tomás Marques. “Ducks in a Row”, do jovem compositor londrino Hans Koller, um mirabolante entrecruzamento discursivo de metais com a trompete em modo surdina de Gonçalo Marques a sobrepor-se lindamente ao coro de vozes de fundo. Ainda nos levaram por diante em mais um tema quebra-cabeças, que ficou como a coda do repertório apresentado sem mácula.



A vontade era enorme para assistir à estreia do recém criado Ovar Jazz Collective no bar do CAO. Um convite formalizado ao vareiro baterista e compositor João Martins para dirigir um ensemble para o festival. Martins empenhou-se e reuniu um conjunto de sete músicos com ele próprio incluido. Um septeto que tinha na percussão Pancho Tarabbia, no saxofone alto Afonso Boucinha, no violino Joana Carvalhas, no teclado Nord Reinaldo Costa, na guitarra eléctrica João Luzia e no baixo Carl Minnemann. Martins como músico com duplo palco nesta edição do Ovar em Jazz, havia estado com o seu Oxímoro. Aqui verdadeiramente livre de amarras composicionais tão vincadas. O primeiro embate era como se tivéssemos acedido a uma das primeiras manifestações dos tempo de uma AAMC de Chicago, nos idos anos de 1960. Dado o caldeirão criativo na mistura de ritmos, ora africanos ora cubanos, que costuravam as outras vozes. Cheirava a promissor o começo com os pés na terra que os via nascer. Este Ovar Jazz Collective iniciou do zero e a querer fazer disso um momento único. Convocam-se amiúde a espiritualidade do e no jazz, a força na escuta entre o EWI – Electronic Wind Instrument de Boucinha e o violino de Carvalhas. Momentos há de silêncio, como que impostos pelos músicos antes de partir para o instante da próxima cena. Estão a improvisar em grande medida. No momento em que das mãos de Tarabbia uma chapa de zinco faz a vibração, já o septeto navegava a par do público que abraçou esta aventura. Ainda houve a entrada de um saxofone tenor numas novas mãos — nem demos conta como —, e nisso já operava uma jam session, saída de um primeiro concerto, de um nova formação para os lados duma “funkadélia” em casa própria. Bem-vindos sejam todos e todas. Agora quereremos voltar a isso tudo deles e com mais estrutura dentro do colectivo.


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