A festa, a farra e a desbunda sem música seriam de todo impraticáveis. Esse lugar que atribuímos quase por inerência à combinatória dos sons é em muito o da celebração. Dançar parece a melhor resposta quando a mente fica sob os comandos dos estímulos certos. Depois… depois vai muito da forma como se abana o corpo. Haja quem dance e a festa permanece impoluta. À terceira noite — a mais estendida ao momento — do Ovar em Jazz’26 no Centro de Artes de Ovar (CAO), para o programa das festas, algazarra era o mote subjacente aos nomes apontados. Ainda assim foi preciso convocar esforços e fazer pedidos específicos para que o modo suave e contido se soltasse para algo mais. “Esta é para dançar, porque este mundo de hoje não nos garante que no amanhã o possamos fazer”, acicatava Rui Miguel Abreu aos comandos dos gira-discos, feito interlocutor do jazz. E já quase se terminava a animação da noite, onde até valsas jazzísticas se dançaram.
Contudo, e umas três horas antes, no Auditório do CAO, o palco parecia grande para a aterragem do vistoso címbalo de Marius Preda. Peça linda — sem margem para dúvida. Uma mesa de quatro pernas torneadas e de efeito craquelê azulado. Címbalo azul — azul, jazz, poderia ser a lógica. Mesmo antes de tudo ter lugar sonoro ao olhar para o fundo do cenário, havia um quê de teatro das sombras — bonito efeito de contrastes com as torres de holofotes. A entrada em cena do virtuoso cimbalista pareceu de facto meio aos “trambolhões”, mesmo que para fazer a farra as tábuas que se pisam num palco acarretam seriedade e sentido de presença. Preda apresentava-se em trio, contando com baixo eléctrico de cinco cordas e uma bateria, ao seu dispor companheiros de longo curso. Entre uma ideia de entretenimento virtuoso — em modo de auto-confiança descuidada —, com reparos para os técnicos entre músicas, como se um ensaio de som fosse. Num modo “à vontadinha”, com demasiados tropeções entre músicas, para que mesmo a mirabolante sonoridade do instrumento utilizado surtisse um efeito superlativo. A ida aos outros teclados (piano e a acordeão) não revigoraram a prestação, mesmo com recurso a músicas alheias como as de Astor Piazzolla e Sandoval.
Uma efectiva mudança de sonoridade era o que mais se desejava em seguida. A passagem ao bar do CAO onde se perfilavam em sexteto tenor Daniel Dias em trombone, Gabriel Neves em saxofone soprano, Laura Rui na voz e sintetizador, Nuno Trocado na guitarra eléctrica, Fernando Rodrigues no sintetizador e o compositor e baterista João Martins. Todos juntos para Oxímoro, um disco Carimbo Porta-Jazz a celebrar um ano de vida. Uma ideia de construções imaginativas a lidar com os contrastes das coisas. Uma música cerebral e orgânica, cheia de contradições e paradoxos — não sonoros, mas antes do pensamento. É como se Martins quisesse fazer um exercício de resolução de ambivalências. Onde cabem nomes de músicas como: “Diversificado Incongruente”, “Turbulência da Serenidade”; como num todo “Fundamento Superficial”. Musicalmente diverso e enriquecido pela genialidade e espontaneidade de cada voz dentro do sexteto. O corpo musical vem da composição ultra-rítmica da bateria. Um dança de contrastes e de guinadas no tempo e no modo que resulta, como em título de tema, numa “Dança sem Movimento”. Como se dançar fosse também possível estando parado — em que a mente agiliza o movimento em desejo. Mas também nisso há um incisivo chamamento ao agitar do corpo, vindo da permanente desbunda sonora em que o concerto decorre. Como num ciclo de maré, em fluxos explosivos e expansivos. Onde há um trombone extravagante, um soprano endiabrado para uma bateria efervescente nas ideias e ritmos, numa sucessão de mãos nas peles, que passam a bolas de feltro e terminam nas madeiras das baquetas. Onde em muito cabem as programações rítmicas entrelaçadas. Foliões e saltitões, diabretes à espreita para uma efectiva liberdade criativa em que desfrutar é remédio de imediato efeito.