Os sons que mais rodei em 2015 por Sidónio Teixeira

[TEXTO] Sidónio Teixeira [FOTO] Direitos Reservados

 

Dois mil e quinze foi um ano crucial para o hip hop. Foram muitas as provas emergentes de que este movimento ganha cada vez mais força e alcança cada vez mais gente. Aos novos lançamentos dos últimos 12 meses juntam-se referências mais antigas que compõem grande parte das minhas playlists, sejam elas de recriação ou de contexto.

Eis aquilo que mais ouvi (em ordem aleatória) em 2015.

 


 

[L’ORANGE]

Produtor e precoce aprendiz da mestria na composição. Escrevi para o ReB críticas dos seus dois últimos takes: The Night Took Us in Like Family e Time? Ashtonishing!. Tanto um como o outro relembram o jeito que este produtor de 21 anos oriundo da Carolina do Norte possui para fazer de cada música capítulos de uma narrativa em catadupa. A Aretha Franklin que samplava em “Old Soul” deu lugar a reminiscências da rádio novecentista para introduzir e desconstruir histórias nos seus projectos mais recentes. Se há faixa mais objectiva da sua marca, e aquela que possivelmente mais ouvi, é “Real McCoy”, de The Mad Writer, lançado em 2012. Scratch, lírica, sampling, synthing. Não há vertente que L’Orange não domine.

 


https://www.youtube.com/watch?v=n6lxQ6JwlVY

 

[TYLER, THE CREATOR]

Não existe termo de comparação para o mentor dos OFWGKTA. A “marginalização” feita a personagens como Tyler surge da sua ousadia e rebeldia para desafiar o sistema. Cherry Bomb, lançado este ano, marca o crescimento físico e mental do puto rebelde que fazia malandrices nos becos da Califórnia e que hoje faz vídeos de negros pintados de branco e enforcados sobre uma tela da mesma cor por protestantes negros, expondo temas que muitos querem manter em segredo.

 


 

[JOEY BADA$$]

Distinção merecida de alguém que não precisou de uma editora para fazer ecoar a palavra além do Atlântico. B4.DA.$$ foi um dos primeiros lançamentos do ano e manteve-se como escolha ao longo dos 12 meses. O membro dos Pro Era acarta a responsabilidade de dar voz a quem não a tem e isso é notável no extenso teor político e social que as suas músicas incorporam. A juntar à escrita interventiva e aos videoclipes cinematograficamente pensados, Joey não deixa de fora as raízes onde se inspirou e faz questão de provar que as influências não diminuem o teor do seu talento, apenas o complementam. Se há versos que guardo de 2015, um deles é de “Christ Conscious”: “Cus I’m a microphone killah / Specially when my head is going off that liquor / Specially educated / heavily medicated / Give me that beat and I’ll put you next to Dilla”.

 


 

[KENDRICK LAMAR]

É inevitável para qualquer amante do hip hop no seu estado mais puro não ter este nome nas listas de final do ano. Sobram-me poucas palavras para acrescentar às milhares de linhas de tinta que To Pimp a Butterfly já fez correr. O meu destaque vai, por isso, para “Alright”, faixa que considero ter sido a melhor do ano e muito facilmente a melhor que o hip hop já viu nascer desde a sua criação. É um hino ao movimento, uma homenagem a quem vive nas ruas e a quem sabe que o caminho para o estrelato começa no chão. Com produção e escrita em patamares igualmente míticos, a história aqui contada é a promessa de um futuro melhor, mesmo quando o presente nunca foi tão sombroso, tal como o teor de toda a obra de Lamar.

 


 

[PZ]

Pode parecer uma escolha outsider das restantes aqui enumeradas, mas a verdade é que Paulo Zé Pimenta foi dos artistas que mais gosto tive em ir conhecendo, percebendo e admirando. Não se trata do arquétipo artista de um ou outro género, até porque a vertente de PZ em muito é indefinida, e é isso que o torna tão único: a capacidade de desconstruir conceitos e obrigações para fazer aquilo que realmente sente, na esperança que quem o ouve sinta que ele não quer ser o nome da década, mas sim um registo que facilmente se distingue do resto pela forte marca pessoal que introduz naquilo que faz, desde a produção inspirada em jogos arcade à letra descontraída e possivelmente anárquica.

 


 

[BADBADNOTGOOD]

Lembro-me de seguir no carro de um amigo e durante uma pausa na conversa notei o saxofone de “Confessions”. Foi o suficiente para que não falasse mais até que aquele álbum ali em play chegasse ao fim, fazendo apenas as observações óbvias perante as experiências musicais deste calibre: os habituais “como é que descobriste isto?” ou “isto é soberbo”. Até hoje, esta tem sido a minha postura perante as propostas deste trio canadiano: escutar em silêncio permanente e admirar os efeitos de auto-elevação que este tipo de música tem em quem lhe sabe dar a atenção devida.

 


 

[BOARDS OF CANADA]

Escolha de eleição na procura pela calma ou por um ambiente mais introvertido. Music Has The Right to the Children foi sem dúvida o trabalho que mais ouvi deste duo britânico de sabedores na arte em aplicar texturas genuínas em algo tão imaterial como é a música. Desde a primeira vez que ouvi esta aposta da editora Warp que a minha caminhada por Boards of Canada nunca encontrou a meta final. Twoism, Geogaddi ou Tomorrow’s Harvest são todos eles projetos de igual qualidade e de termo incomparável. Boards of Canada é, sem dúvida, uma das minhas recomendações para quem procura o melhor que a música progressiva tem para dar.

 


 

[SLOW J]

Dos lançamentos do ano e que para a posteridade se manterá no meu armário de referências. Bastou um primeiro EP para que aquele conjunto de meia hora de música entrasse praticamente toda directa para as playlists que fiz (creio ter deixado apenas uma das faixas de fora). Free Food Tape EP foi a prova do ano que ser português não nos diminui, mas sim exalta se a mente a isso estiver disposta. Lírica poética, palavras mais ditas do que cantadas, produção artesanal e descendente de notáveis influências.  Como analisou Francisco Noronha aqui no Rimas, Slow J ainda está sob a “síndrome do primeiro período: com isso quero dizer que, tal como, na escola, os professores não dão o “cinco” aos melhores alunos no primeiro período por entenderem que é “demasiado cedo”, forçando o petiz a provar as suas capacidades no resto da “prova de resistência” que é o ano escolar”; e os próximos anos servirão para comprovar as aptidões já demonstradas.

 


 

[KAMASI WASHINGTON]

Descobri Kamasi algures nos meados deste ano à boleia dos mais recentes lançamentos de Lamar e Flying Lotus, juntamente com a review que para aqui escrevi sobre o último projeto de Thundercat (The Beyond / Where the Giants Roam). Dei então de caras com The Epic, o triplo álbum de Kamasi Washington que é muito mais que isso. São mais de três horas de música composta não só pelo saxofonista e o seu habitual grupo de 10 elementos, como também de um coro e uma orquestra sublimes e convidados de alto calibre como Coltraine. Este é um trabalho cujo nome faz juz à essência e que ultrapassa em larga escala os habituais padrões do jazz, elevando-o para um estatuto grandioso e evocativo. The Epic foi uma das minhas mais assíduas companhias em contextos de recriação.

 


 

[FLYING LOTUS]

Lembro-me do momento em que me mostraram Flying Lotus pela primeira vez, há cerca de cinco ou seis anos atrás. “Sempre quis encontrar música deste género”, respondi. Até hoje, este soberbo produtor continua na lista de recomendações que o YouTube faz sempre que entro na página inicial, e são raras as vezes que eu não escolho uma das propostas. Seja o Cosmogramma, 1983, Until The Quiet Comes ou You’re Dead, Flying Lotus é, para mim, dos artistas mais consistentes e coesos que alguma vez ouvi, porque até os seus trabalhos avulsos são monstruosamente bem conseguidos (a adaptação do mítico “Fall in Love” continua a ser a minha faixa de eleição)

Sidónio Teixeira

Sidónio Teixeira

Fã incondicional do mundo artístico. Acredita que a Arte, seja ela qual for, é um mundo de universos paralelos que se cruzam. Tem especial admiração pelas ideologias e conceitos asiáticos, mais especificamente os nipónicos. Estudou literatura e jornalismo na Nova de Lisboa.
Sidónio Teixeira