Tyler, The Creator // Cherry Bomb

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Tyler, The Creator e a tropa dos Odd Future (que conhecemos de forma estilizada como OFWGKTA) deram, há um par de anos, uma valente sapatada no hip hop. Chegaram com estrondo, em meados de 2007, e começaram a disparar fogos de artifício, a atirar balões de água e bombinhas de mau cheiro – só lhes faltou uma rapariga de fio dental a saltar para cima da mesa de um importante político e despejar-lhe confettis em cima – e tiveram toda a gente a olhar para eles. Com atitude punk, fizeram as coisas à maneira deles, sem papas na língua a disparar para todos os sentidos, com vídeos ao estilo faz-tu-mesmo espalhados pelo YouTube.

Deste colectivo onde pontificam músicos como Earl Sweatshirt, Frank Ocean, Hodgy Beats ou Left Brain, destacou-se sempre o rapazinho Tyler, uma espécie de puto charila que as professoras não conseguem ter mão e que os psicólogos infantis caracterizam como uma criança hiperactiva ou, pelo menos, com um défice de atenção. Depois das mixtapes que os Odd Future espalharam pelo mundo dos downloads gratuitos, Tyler, The Creator apareceu a solo. Primeiro com Bastard (2009), depois com o explosivo Goblin (2011) e Wolf (2013).

Ficámos a conhecer bem Tyler, que fez sempre questão de aparecer como polémico. Acusado de ser misógino, homofóbico, o rapper seguiu a sua linha pesada e explícita. Em 2015 estala a bomba e o foguete vai no ar. Tomem lá uma Cherry Bomb. Aí está o novo trabalho, o quarto de originais, de Tyler, The Creator. E será que o puto reguila cresceu, não só no tamanho e na idade? É provável. Ainda que do alto dos seus 24 anos mantenha o espírito rebelde e pouco-me-importa-o-que-tu-pensas, Cherry Bomb marca o amadurecimento do rapper. Há quem possa dizer que por estar menos explícito, torna-se mais secante, menos fogoso, mas, na verdade, Tyler aprendeu os dotes da concentração e compôs um disco com excelentes temas, com uma belíssima diversidade sonora ao invés dos grandes tratados de rebeldia que se prolongavam incessantemente.

Em 55 minutos, Cherry Bomb leva-nos por uma viagem variada de estilos, de grooves e ambientes. “I don’t like to follow the rules/I hope you understand”, diz em “Deathcamp”, o tema de abertura que parece uma homenagem a um dos seus ídolos, Pharrell – no período dos N.E.R.D.. Segue-se o peso de “Buffalo”, que nos traz de volta ao flow assustador de Tyler, a cuspir os ‘pês’, os ‘vês” e os ‘éfes´.

Nunca é confortável ouvir as produções de Tyler, The Creator. O rapper gosta de ter o ouvinte na mão, mudar-lhe e desafiar-lhe os sentidos. Em “Pilot” e no tema título, “Cherry Bomb”, mete peso e distorção – ao estilo de Death Grips ou do Kanye West de Yeezus – com batidas, baixos e teclas a bater nos redlines e voz lá atrás, escondida, em ecos.

Depois mostra a outra face, mais mellow, a espalhar lençóis em camas: “Find Your Wings” puxa de um trompete, de uma doce voz feminina e a tira da cartola Roy Ayers e o seu vibrafone; e “2 Seater” – que é o tema favorito do disco deste que vos escreve – apresenta uma batida limpa, clássica, a transbordar estilo de velha-escola, ideal para conduzir o Hyundai do pai ou passear o BMW desportivo de Tyler pelas colinas de Los Angeles. “I love it when your hair blows/When it blows, when it blows, when your hair blows/Hanging out the sunroof/Listening to Mac DeMarco”. Tão românticos que somos, Tyler – “Fucking Young/Perfect”, cheia de soul, orquestral e que podia ter como convidados os Boys 2 Men, confirma o romantismo.

Surge, então, uma das maiores surpresas do disco. Das boas. Tyler juntou Dwayne Carter, aka Lil Wayne, e Kanye West no mesmo tema, “Smuckers”. Uma belíssima faixa de ego trippin com três dos grandes flows do hip hop norte-americano. “Cherry Bomb, the greatest fuckin’ album since the days of sound”, afirma Tyler, que também se diz Deus, como o parceiro. “Had a drink with fear, and I was textin’ God/He said “I gave you a big dick, so go extra hard“, diz Kanye. Lil Wayne ficou a prestar vassalagem.

Cherry Bomb não é um disco de perdões. Mas é um disco de reflexões e de algumas explicações de Tyler. Os mais devotos do endeusamento de Tyler garantem que é a conclusão de uma trilogia que terá começado em Goblin – há muitas linhas, pontas soltas para juntar e afirmações para descortinar. O tempo dirá. A nós, e por agora, parece-nos apenas o amadurecimento do rapaz, que aparece, neste disco, pela primeira vez, sem nenhum dos parceiros dos OFWGKTA – nem nas rimas, nem na produção. “Sou brilhante, inteligente, irritante e desagradável. Sou muito criativo, um génio borderline. E acho que as outras pessoas estão a começar a ver isso também”, afirmou, há uns dias, numa entrevista no programa da PBS de Tavis Smiley. Começa a ser difícil não ver – e ele faz questão de nos esfregar isso na cara.

 

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.