L’ORANGE & KOOL KEITH // Time? Astonishing!

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A Mello Music Group mantém a aposta em L’Orange e o produtor californiano continua a responder à altura da confiança que lhe é depositada. Só este ano, já são dois os trabalhos com a sua autoria que marcam indelevelmente o hip hop. Depois de The Night Took Us In Like Family, com Jeremiah Jae, chega-nos Time? Astonishing!, que, além da sua mestria produtiva, conta com a arte poética de Kool Keith.

Time? Astonishing! é mais uma peça da filmografia musical de L’Orange. Filmografia e não discografia pelo simples facto do seu trabalho não pertencer única e exclusivamente à musica – existe sempre uma estética cinematográfica naquilo que este produtor concebe, e prova disso é a marca que veio a construir ao longo dos últimos anos, começando em Old Soul e aperfeiçoando-se nas suas duas últimas obras. A criatividade e distinção de L’Orange enquanto artista surgem através da dedicação que insere no processo de diggin’, procurando excertos radiofónicos dos primórdios novecentistas, utilizando-os não só para estruturar o conceito narrativo de cada faixa, como fazer deles prelúdios e epílogos às histórias que nos contam os MCs – primeiro Jeremiah, agora Kool.

Se The Night foi um crime noir repleto de exercícios rítmicos e flows monstruosos, quer ao nível lírico como sonoro, Time? é um sci-fi com versáteis experimentalismos (por sinal bem conseguidos). Contextualizemos: L’Orange emergiu com Old Soul, em 2011, que trouxe Billie Holliday de volta à vida, juntamente com o pó e o suor do jazz dos 80s. A isso, juntou a influência das tapeçarias melódicas de Madvillain e Madlib. Um ano depois, viu na música surrealista de Daedelus uma pista para criar The Mad Writer, que primou pelas oscilações entre a arte do scratch, o hip hop no seu estado mais puro e a calma do soul e do jazz (The Real McCoy é a uma das melhores referências).

De há três anos para cá, este produtor deixou de fazer músicas para contar histórias. O seu estilo mudou e não para pior. Time? é o trilhar de novos caminhos em contraposição com o recordar do toque clássico. Estas 12 faixas contam uma aventura, uma viagem no tempo envolta na atmosfera metafísica de L’Orange, que em certos momentos abandona o estilo próprio para o adaptar à escrita/tom mercurial de Keith, caindo a favor de melodias ansiosas como a guitarra de Twenty Fifty Three; ou regressando às origens, como no jazz poeirento de Meanwhile, Back Home”.

 


 


Quanto a Keith, recupera o seu registo de Project Polarioid, de 2006, entoando versos hesitantes e sublinhando o peso de cada palavra (“The Wanderer é um bom exemplo). Utiliza-se da poesia para ocupar os compassos de espera do instrumental, mas também sabe silenciar-se em respeito pela espiral melódica que o envolve (“Dr. Bipolar” serve como referência a essas oscilações). É sobretudo um messiah de múltiplas facetas: aquele que em I Need Out of This World faz a mensagem passar de forma pausada mas com a entoação certa; como também deixa a calma de parte para disputar o protagonismo de outras faixas, por exemplo, na batalha lírica contra Open Mike Eagle em “Meanwhile, Back Home”, onde ambos lutam para decidir qual deles profere o flow mais monstruoso (para não mencionar o piano irrequieto que nos deixa tontos).

Espaço ainda para mencionar os convidados desta peça. Todos eles são figuras, figurantes e figurões que passam despercebidos sem deixarem de ser essenciais, funcionando como personagens secundárias que nos distraem da sinergia entre os dois protagonistas da obra. Destaco Mr. Lif e Open Mike Eagle não só pela presença mas também por trabalharem naquelas que são as melhores faixas do álbum. Juntamente com Blu, Montage One, Trackstar, J-Live e Paul Berman, ajudam a fazer the Time? Astonishing uma viagem de hip hop alucinogénico que dura pouco mais de 30 minutos mas que chega para ir da Terra à Lua, no que ao sentimento metafísico diz respeito.

A Pigeons and Planes editou um artigo onde reiterou que “há alguma coisa em falta no rap contemporâneo”, analisando os lançamentos mais recentes e realçando a forma como nada de novo tem surgido, por muito bom que seja. Creio que são artistas como L’Orange que estão a avivar a memória do hip hop e a trazê-lo de novo à vida, roubando o protagonismo ao rap. O trabalho de um produtor torna-se cada vez relevante e prova disso são os nomes que têm surgido ao lado de gigantes da escrita. Freddie Joachim trabalhou com Joey Bada$$, Dre com Lamar e Madlib com MF Doom. Os resultados ficam na memória, e a memória é a única força que se sobrepõe ao tempo. O tempo, esse, continuará a passar, e este disco viajará com ele.

Essential tracks: The Traveler”; “Twenty Fifty Three”; “Meanwhile, Back Home”; “Dr. Bipolar.

Sidónio Teixeira

Sidónio Teixeira

Fã incondicional do mundo artístico. Acredita que a Arte, seja ela qual for, é um mundo de universos paralelos que se cruzam. Tem especial admiração pelas ideologias e conceitos asiáticos, mais especificamente os nipónicos. Estudou literatura e jornalismo na Nova de Lisboa.
Sidónio Teixeira